DO ESPAÇO PARA AS TELAS | CONTATOS IMEDIATOS DO 3° GRAU

Marcelo Kricheldorf

A segunda metade da década de 1970 foi um período de profunda transição para o cinema norte-americano. Entre o cinismo político gerado pela Guerra do Vietnã e pelo escândalo de Watergate, a chamada “Nova Hollywood” florescia ao dar voz a diretores ambiciosos e obcecados pelo realismo. Foi nesse cenário que Steven Spielberg, amparado pelo sucesso comercial estrondoso de Tubarão (1975), recebeu carta branca da Columbia Pictures para realizar um projeto de teor profundamente íntimo. Enquanto George Lucas preparava as bases da fantasia espacial com Star Wars, Spielberg optou por olhar para o céu com uma mistura de rigor documental com tons espirituais. O resultado foi Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the First Kind, 1977), uma obra-prima que não apenas inaugurou a era dos blockbusters autorais, mas também redefiniu a forma como a humanidade visualiza a vida extraterrestre, trocando o medo da invasão pelo desejo de comunicação.
O coração da narrativa reside no conceito do “homem comum” confrontado pelo extraordinário. Roy Neary (Richard Dreyfuss) não é um herói idealizado, mas um eletricista suburbano, sobrecarregado pelas demandas de uma típica família de classe média dos Estados Unidos. A sua transformação começa de forma abrupta, na calada da noite, quando ele testemunha um avistamento de OVNIs evnquanto investiga um blecaute na estrada.

Esse evento implanta em sua psique um chamado irrecusável e uma imagem mental misteriosa: uma montanha com o topo plano. A partir desse momento, a narrativa divide-se em uma trágica dinâmica familiar. A obsessão de Roy por decifrar a forma em sua cabeça consome sua sanidade; ele molda a estrutura com purê de batatas no jantar e destrói o próprio quintal para erguer uma réplica gigante com lama e galhos. Spielberg expõe aqui o preço do vislumbre do divino: a alienação social. A crise do casamento de Roy corre em paralelo à sua iluminação espiritual, culminando no abandono de sua esposa e filhos, que fogem assustados com sua aparente loucura.
Em contrapartida à busca obsessiva de Roy, a narrativa apresenta o núcleo científico liderado pelo pesquisador francês Claude Lacombe. Para este papel, Spielberg tomou uma decisão artística brilhante e metalinguística ao escalar François Truffaut, um dos diretores fundadores da Nouvelle Vague. Truffaut funciona na tela como um alter ego do próprio Spielberg: um homem que observa o mundo com a pureza, a inocência e a curiosidade de uma criança. Por meio de Lacombe, o filme introduz o conceito que engloba fé e cientificismo. Longe do arquétipo dos militares das ficções científicas dos anos 1950, a abordagem de Lacombe é humanista. Ele compreende que o fenômeno ufológico não representa uma ameaça militar, mas sim um evento antropológico e artístico, que exige sensibilidade mútua e desarmamento para ser decifrado.
Essa busca por entendimento mútuo deságua no maior pilar estético e temático da obra: a linguagem. Spielberg e o roteiro defendem que a matemática e a arte são as únicas ferramentas capazes de unificar o cosmos. A comunicação com a imensa nave-mãe não é estabelecida por códigos militares ou palavras, mas sim através de uma melodia de cinco notas musicais criada pelo compositor John Williams.


Aliado a isso, o brilhantismo visual do supervisor de efeitos Douglas Trumbull garantiu que os OVNIs fossem tratados como poesia visual pura. Rejeitando maquetes frias, Trumbull utilizou trucagens ópticas analógicas, fumaça e lentes anamórficas, conferindo ao filme um visual etéreo e místico que a computação gráfica moderna dificilmente consegue replicar.
Toda essa construção converge para o antológico clímax na Torre do Diabo, em Wyoming, uma sequência monumental de aproximadamente 35 minutos de duração que opera quase que inteiramente sem diálogos verbais. É um show cinematográfico absoluto de som, luz e efeitos práticos, onde a humanidade e os visitantes celebram um encontro de integração interplanetária, culminando com Roy Neary sendo aceito a bordo da nave. O impacto cultural desse desfecho foi tão avassalador que Spielberg revisitou o filme em três momentos distintos da história: o corte original de cinema em 1977; a Edição Especial de 1980 (que, por pressão do estúdio, cometeu o erro de mostrar o interior da nave); e a Versão do Diretor de 1998, que removeu os excessos e equilibrou perfeitamente o colapso familiar de Roy com a grandiosidade da Revelação.
Por fim, Contatos Imediatos do Terceiro Grau solidificou-se como o teste de fé definitivo da ficção científica moderna. Além de moldar a cultura UFO ao popularizar a fisionomia clássica dos alienígenas, a obra resgatou o otimismo utópico no cinema de gênero. Steven Spielberg provou que o desconhecido e o diferente não precisam ser combatidos com mísseis ou medo, mas acolhidos com arte, música e empatia. Ao final da projeção, o espectador não é deixado com o pavor da invasão, mas sim com o mesmo olhar hipnotizado e infantil de Roy Neary, contemplando um universo que, finalmente, deixou de parecer tão silencioso e hostil.

Ficha Técnica

  • Título original: Close Encounters of the Third Kind
  • Ano: 1977
  • País: EUA / Reino Unido
  • Duração: 2h 17min / 137 min
  • Gênero: Ficção Científica

Equipe principal

  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: Steven Spielberg, com colaborações de Paul Schrader, John Hill, David Giler, Hal Barwood, Matthew Robbins e Jerry Belson
  • Produção: Julia Phillips e Michael Phillips
  • Música: John Williams
  • Fotografia: Vilmos Zsigmond
  • Montagem: Michael Kahn
  • Efeitos Visuais: Douglas Trumbull
  • Criação dos Alienígenas: Carlo Rambaldi
  • Estúdio/Distribuição: Columbia Pictures / SONY PICTURES

Elenco principal

  • Richard Dreyfuss — Roy Neary
  • François Truffaut — Claude Lacombe
  • Teri Garr — Ronnie Neary
  • Melinda Dillon — Gillian Guiler
  • Bob Balaban — David Laughlin_
  • Cary Guffey — Barry Guiler

Ganhou um Oscar na categoria de melhor fotografia e recebeu um Oscar especial, pela edição dos efeitos sonoros do filme.

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