Leandro Banner

O lançamento do omnibus de Tex pela Mythos Editora, com seu primeiro número lançado em junho de 2022, representa, ao mesmo tempo, uma iniciativa ousada e um projeto que parece ter parado exatamente um passo antes da excelência definitiva. Há méritos inegáveis na proposta editorial (certamente o maior de todos é trazer as histórias do ranger desde sua criação em 1948, com histórias escritas por Giovanni Luigi Bonelli e ilustradas por Aurélio Galleppini), especialmente para um mercado brasileiro historicamente acostumado a edições mais simples do personagem, mas também existe a sensação constante de que a coleção poderia ter alcançado um patamar verdadeiramente monumental caso tivesse abraçado uma apresentação colorizada. Fisicamente, o omnibus impressiona, pois a Mythos procurou oferecer ao leitor uma edição robusta, pesada e visualmente elegante, aproximando-se do padrão de colecionismo que domina o mercado internacional de quadrinhos de luxo. A encadernação transmite solidez e resistência, algo essencial para um volume com grande número de páginas. A lombada firme e a costura relativamente bem estruturada ajudam a sustentar a leitura sem comprometer tanto a abertura do material, evitando aquele aspecto frágil comum em encadernados muito extensos. O papel utilizado também demonstra preocupação editorial. Há uma tentativa clara de equilibrar qualidade de impressão, proporcionada pelo papel offset de excelente gramatura utilizado , que confere conforto à leitura, evitando reflexos excessivos e preservando a nitidez do traço clássico da escola italiana. Os pretos são densos, os contrastes funcionam bem e a reprodução dos desenhos respeita a riqueza gráfica das páginas originais. Nesse aspecto, o omnibus consegue valorizar enormemente artistas fundamentais da trajetória de Tex, como seu criador gráfico Aurelio Galleppini, e outros do quilate de Giovanni Ticci, Claudio Villa e Fabio Civitelli.

Outro acerto importante foi a preservação do chamado “formato italiano”. Diferente de adaptações gráficas que mutilam arte ou reorganizam quadros para caber em padrões editoriais diferentes, a Mythos respeitou a horizontalidade característica de Tex Willer. Isso faz enorme diferença, uma vez que o western de Tex sempre trabalhou muito a noção de amplitude: desertos extensos, panoramas monumentais, cavalgadas largas e enquadramentos cinematográficos. No formato italiano, essas páginas respiram, e o leitor percebe a composição original dos artistas, o ritmo visual e o impacto narrativo planejado desde a origem. Mas é justamente quando a edição parece caminhar rumo à consagração absoluta que surge sua principal limitação e, com isso, a tremenda decepção: a decisão de manter o material integralmente em preto e branco.😩 Historicamente, Tex nasceu assim, e há puristas que defendem que o preto e branco preserva a identidade clássica da obra. Esse argumento possui validade. O chiaroscuro, os contrastes secos e a dramaticidade do traço italiano realmente funcionam muito bem sem cores. Entretanto, na opinião deste que vos fala, quando uma editora decide lançar um omnibus de luxo — caro, volumoso e voltado claramente ao colecionador — inevitavelmente, muda o paradigma da publicação, pois a obra deixa de ser apenas uma reimpressão funcional e passa a disputar espaço com edições definitivas, de luxo e até mesmo outras edições em formato Omnibus. E é exatamente nesse ponto que a opção pelo preto e branco parece limitar sobremaneira o potencial do projeto, que tinha tudo para ser um dos melhores e mais espetaculares de todos os tempos.

Uma colorização cuidadosa com todos os recursos tecnológicos disponíveis atualmente poderia transformar completamente a experiência visual. Não se trata aqui, frise-se, de defender cores artificiais, digitais ou excessivamente saturadas, mas uma abordagem sofisticada, respeitosa e cinematográfica, capaz de valorizar os desertos do Arizona, os céus avermelhados do pôr do sol, as ambientações noturnas, os saloons esfumaçados e toda a iconografia clássica do western. Muitos artistas de Tex possuem um desenho tão detalhado e elegante que praticamente “pedem” uma valorização cromática moderna. Quem quiser uma comprovação disso basta olhar a sensacional coleção BLUEBERRY – EDIÇÃO DEFINITIVA da Editora Pipoca e Nanquim. Além disso, o próprio conceito de omnibus costuma carregar uma ideia de edição definitiva. Quando o leitor pega um volume desse porte, espera algo que vá além da simples compilação. Espera uma experiência premium. E nesse aspecto, a ausência de cores gera uma inevitável sensação de oportunidade parcialmente desperdiçada. O paradoxo é curioso: a Mythos acertou em praticamente todos os elementos físicos do produto — acabamento, formato, apresentação e valorização gráfica — mas tomou justamente a decisão editorial (equivocadíssima, vale repisar) que impede o omnibus de atingir um status realmente histórico dentro do mercado brasileiro de quadrinhos. Não obstante, impende ressaltar que o saldo permanece positivo. O omnibus de Tex demonstra respeito ao personagem e ao leitor veterano, além de consolidar a importância de uma das maiores criações dos quadrinhos europeus. O ranger criado por Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini continua sendo um fenômeno de longevidade, carisma e consistência narrativa. Seu universo mistura western clássico, aventura pulp, heroísmo moral e senso épico de forma quase única nos quadrinhos. A edição da Mythos, portanto, fica marcada como uma obra de enorme valor para colecionadores e fãs do personagem — uma edição bonita, respeitosa e ambiciosa —, mas também como um projeto que poderia ter sido verdadeiramente definitivo se tivesse ousado dar o passo seguinte: apresentar Tex em uma luxuosa e criteriosa versão colorizada, à altura da grandiosidade histórica do personagem. Em breve retornaremos com resenhas de histórias e arcos marcantes deste grande personagem dos fumetti. Fiquem ligados! 😉
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻