Marcelo Kricheldorf

A cinematografia dos anos 1980 foi profundamente marcada pela passagem estética e temática dos subúrbios norte-americanos, espaços que passaram a servir de palco para o fantástico. No centro dessa transformação está E.T. – O Extraterrestre (1982), obra-prima dirigida por Steven Spielberg e roteirizada por Melissa Mathison. Longe de se consolidar apenas como uma aventura de ficção científica convencional sobre o contato com seres de outros mundos, o longa-metragem se estrutura como um ensaio visual profundo sobre a infância. Através de uma narrativa meticulosa, o filme utiliza a figura do alienígena como um catalisador para discutir o divórcio, a negligência institucional e a incomunicabilidade humana, tornando-se o maior fenômeno de bilheteria de sua era.
O centro da narrativa se apoia no cotidiano de Elliott, um garoto de dez anos que vive em um subúrbio na Califórnia. A rotina pacata da comunidade é rompida quando uma nave espacial de pesquisa biológica parte às pressas, esquecendo um de seus tripulantes na Terra. O encontro entre Elliott e a criatura estabelece o conflito central: enquanto o menino e seus irmãos, Michael e Gertie, tentam decifrar a natureza do ser e ajudá-lo a “telefonar para casa”, uma máquina estatal invisível e implacável se mobiliza para capturá-lo. O enredo, portanto, divide-se claramente entre a abordagem do núcleo infantil e a ameaça do mundo exterior.
O principal foco dramático da obra, contudo, reside na representação da casa sem pai, um reflexo direto das próprias memórias de infância de Spielberg sobre o divórcio de seus pais. A ausência paterna não é apenas um dado biográfico na trama, mas um peso atmosférico que desestabiliza a mãe, Mary, e isola Elliott em sua própria melancolia. Nesse cenário de vulnerabilidade afetiva, o surgimento do extraterrestre opera inicialmente sob a lógica do “amigo imaginário”. A criatura surge como uma projeção da necessidade psicológica de Elliott por amparo, preenchendo o vazio simbólico deixado pelo pai. Entretanto, a genialidade do roteiro transforma essa metáfora em realidade física por meio da “solidão compartilhada”. Tanto o garoto quanto o alienígena experimentam o exílio; um dentro da própria dinâmica familiar rompida, o outro a anos-luz de seu planeta natal. Essa dor comum cria uma sintonia telepática e orgânica, onde a embriaguez, a euforia e a iminência da morte de um são instantaneamente partilhadas pelo corpo do outro.
Essa conexão íntima fundamenta a tese do filme sobre a diferença e a empatia. Spielberg contrapõe o medo e o acolhimento como reações fundamentais diante do desconhecido. Para os adultos, o “Outro” representa uma ameaça biológica ou uma oportunidade de avanço técnico, o que justifica o distanciamento clínico. Para as crianças, desprovidas de preconceitos científicos, o “Outro” é um igual que carece de proteção. O governo, nesta perspectiva, assume as vestes do vilão arquetípico. Durante a maior parte da projeção, os agentes do governo são desprovidos de identidade; seus rostos não mostrados ao espectador, e sua presença é anunciada pelo som metálico de chaves batendo na cintura, lanternas que rompem a escuridão da floresta e, eventualmente, trajes de isolamento que transformam o lar acolhedor em uma UTI asséptica. O Estado encarna a burocratização da existência e o esmagamento da magia pela razão fria.
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Do ponto de vista estético e técnico, E.T. subverteu a gramática tradicional de Hollywood ao ser majoritariamente filmado no nível dos olhos das crianças. A escolha de posicionar as câmeras em ângulos baixos oprime o espectador com a perspectiva infantil, onde os adultos surgem como gigantes distantes e incompreensíveis. Nos bastidores, a condução do elenco mirim foi crucial, destacando-se a atuação visceral de Henry Thomas como Elliott. Seu teste de elenco, pautado na improvisação do medo de perder o amigo, foi tão autêntico que garantiu o papel imediatamente. Aliada à performance dramática, a trilha sonora de John Williams redefiniu o papel da música no cinema. Na antológica sequência do voo da bicicleta, a sinfonia é tão avassaladora que Spielberg optou por reeditar o ritmo visual das cenas para que estas servissem de suporte à partitura musical, permitindo que o crescendo das cordas e dos metais ditasse o ápice da catarse emocional.
O legado cultural do filme cristalizou-se na imagem icônica da silhueta da bicicleta cruzando a frente da lua cheia, uma metáfora visual perfeita para o escapismo e a superação da gravidade das dores cotidianas através da imaginação. Mais do que um marco técnico de efeitos visuais de sua época, E.T. – O Extraterrestre permanece como uma das redações cinematográficas mais honestas sobre a fragilidade humana. Ao humanizar o monstro e expor as falhas do mundo adulto, Steven Spielberg não apenas garantiu seu lugar na eternidade do cinema, mas ofereceu uma lição permanente de que a verdadeira inteligência universal reside na capacidade de sentir a dor do outro e ajudá-lo a encontrar o caminho de volta para casa.
Ficha Técnica
- Título original: E.T. the Extra-Terrestrial
- Ano: 1982
- País: Estados Unidos
- Duração: 114 min / 1h 54min
- Gênero: Ficção Científica.
Equipe principal
- Direção: Steven Spielberg
- Roteiro: Melissa Mathison
- Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg
- Música: John Williams
- Direção de Fotografia: Allen Daviau
- Montagem: Carol Littleton
- Efeitos Especiais: Carlo Rambaldi e Dennis Muren
- Companhias Produtoras: Universal Pictures e Amblin Entertainment
- Distribuição: Universal Pictures
Elenco principal
- Dee Wallace como Mary
- Henry Thomas como Elliott
- Peter Coyote como Keyes
- Robert MacNaughton como Michael
- Drew Barrymore como Gertie
- Pat Welsh como a voz do ET
- K. C. Martel como Greg
- Sean Frye como Steve
- C. Thomas Howell como Tyler