LETRAS & CENAS |  CABO DO MEDO : TRÊS VERSÕES BEM DISTINTAS

Adilson Santos analisa as diferenças entre livro e filmes.

O remake de Cabo do Medo (Cape Fear) vem sendo mais uma abordagem bem sucedida do livro de John D. McDonald (1916-1986), autor de centenas de contos para revistas de detetives, mistério, aventura, faroeste e ficção científica, todos usando vários pseudônimos até finalmente assumir seu nome verdadeiro, vindo a republicar seus trabalhos incluindo Os Violentos (The Excutioners) de 1957, chegando ao Brasil em 1970 pela Editora Record e sendo republicado na década seguinte pela Editora Abril. O livro tem um ritmo alucinante, mas o número de personagens é maior. Embora Sam Bowden seja o protagonista, sua família inclui Carol e três filhos: Nancy )14 anos),  Jamie (12 anos) e Bucky (6 anos). No passado, Sam foi crucial para a condenação de Max Cady, um assassino frio.  Sam testemunhou o crime de Cady na Austrália, quando ambos serviam na Marinha durante a Segunda Guerra Mundia, e quando Sam acaba se tornando um advogado mais tarde, as ações de Cady são levadas a juízo.  Na história do livro, os Bowden são uma família abastada vivendo em uma casa excepcionalmente isolada. Em busca de vingança, Cady envenena o cachorro da família, afrouxa uma roda do carro da família e chega a atirar em Jamie, quando ele está no acampamento.

⁸Nas versões para o cinema, a família de Sam é reduzida a uma única filha e em casa uma dessas versões o nome da personagem muda para Nancy (1962) Danielle (1991) e Natalie (2026). O Max Cady de Circulo do Medo (1962) foi vivido por Robert Mitchum. Ele é astuto, inteligente e tem um lado sombrio, mas não é explicitamente maníaco. Grande parte da violência e das agressões sexuais é fortemente sugerida ou ocorre fora da tela, para se adequar às restrições da censuta da época. Já Martin Scorsese em O Cabo do Medo (1991) transforma os Bowden em uma família disfuncional e moralmente ambígua. Sam Bowden (Nick Nolte) é imperfeito e infiel, e sua esposa (Jessica Lange)  e filha (Juliette Lewis)  são profundamente infelizes. O Max Cady de Robert De Niro é uma força da natureza tatuada, fisicamente imponente e que cita a Bíblia, cujo objetivo é destruir sistematicamente a família por dentro. Max é assumidamente um monstro desenfreado em sua maldade. O filme é notoriamente brutal e visceral, apresentando violência na tela e uma agressão gráfica que intensifica a natureza perturbadora da ameaça. Na nova versão que chega agora a Apple TV em forma de minissérie a família Bowden ganha um personagem inedito, o filho, Zach Bowden (Joe Anders). Os pais, Anna (Amy Adams) e (Patrick Wilson), também são profundamente imperfeitos, e Anna é uma contraparte ativa como advogada. O Max Cady de Javier Bardem é multifacetado, abalado e tem uma vingança pessoal diretamente ligada ao fato de que os Bowdens serem responsáveis por sua prisão inicial. A narrativa da série se inclina fortemente para o terror ambiente, o desenvolvimento psicologico lento e a paranóia moderna. Ela explora terrores contemporâneos como celulares, podcasters e catfishing, ao mesmo tempo em que traz detalhes originalmente omitidos no romance original de John D. MacDonald. Uma releitura de obra interessante capaz de ser tão provocante e instigante quanto as palavras do autor.

Deixe um comentário