HQ TERRITORIO NEUTRO |  MIRACLEMAN POR ALAN MOORE

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Antes de se tornar um marco revolucionário nas mãos de Alan Moore, o personagem MARVELMAN teve uma origem bastante curiosa, profundamente ligada ao mercado editorial britânico dos anos 1950 e à enorme popularidade dos super-heróis americanos no pós-guerra. O personagem foi criado em 1954 por Mick Anglo, pseudônimo de Maurice Anglowitz, para a editora britânica L. Miller & Son. A razão de sua criação foi essencialmente comercial, pois, naquele período, o mercado britânico importava e republicava aventuras do personagem americano CAPITÃO MARVEL, publicado originalmente pela Fawcett Comics nos Estados Unidos. O herói era um fenômeno mundial e vendia enormemente entre leitores jovens, fazendo mais sucesso do que o medalhão Superman na época. Entretanto, em 1953, a Fawcett encerrou as publicações do Capitão Marvel após uma longa disputa judicial com a National Comics (hoje, DC Comics), que alegava semelhanças excessivas entre o personagem e o Superman (tema já tratado neste espaço em outra oportunidade). Com isso, a editora britânica L. Miller & Son perdeu o material que sustentava suas revistas semanais.

Foi então que Mick Anglo recebeu a incumbência de criar um substituto “doméstico” para o Capitão Marvel. O resultado foi MARVELMAN: um garoto chamado Mickey Moran que, ao pronunciar a palavra “Kimota!” — “atomic” escrito ao contrário — transformava-se em um poderoso herói adulto. A semelhança estrutural com Capitão Marvel era evidente e proposital. Assim como Billy Batson dizia “Shazam!”, Mickey Moran recorria também a uma palavra “mágica” para assumir sua identidade heroica. No entanto, tentando estabelecer alguma diferença em relação à sua contraparte americana, Anglo determinou que MARVELMAN era um produto da ciência, e não da magia, considerando que Mickey Moran fora submetido a um tratamento pelo cientista Guntag Borghelm, que descobriu a “palavra-chave” do Universo (“Kimota!”)capaz de conferir grandes poderes a quem a pronunciasse. Nesse contexto, a palavra mágica (ops, palavra-chave) “Kimota” já evidenciava certa fascinação do período pela energia nuclear e pela ciência, mas de qualquer forma, as
aventuras eram simples, diretas e ingênuas, com o mesmo ar de magia contido nas histórias do Capitão Marvel. Marvelman enfrentava cientistas loucos, invasores alienígenas, monstros gigantes e criminosos extravagantes, como o Doutor Gargunza (contraparte do Doutor Sivana do Capitão Marvel). O tom era leve, aventuresco e claramente direcionado ao público infantil.
Além de Marvelman, Mick Anglo criou toda uma “família Marvelman”, repetindo o modelo da Fawcett, com a presença do Young Marvelman e do Kid Marvelman, restando evidente que a estrutura era praticamente um espelho britânico da Família Marvel americana. Com a queda de popularidade dos super-heróis no fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, Marvelman começou a perder espaço. O público britânico migrou para outros gêneros como guerra, faroeste, horror, ficção científica e humor, com as revistas sendo canceladas gradualmente, fazendo com que Marvelman caísse em relativo ostracismo editorial durante décadas. Durante muito tempo, Marvelman foi visto apenas como uma curiosa imitação britânica do Capitão Marvel até a década de 1980 e então veio… ALAN MOORE. No começo dos anos 1980, o editor Derek “Dez” Skinn decidiu revitalizar antigos personagens britânicos para a revista Warrior, e convidou um então jovem Alan Moore para reinventar Marvelman.

Moore pegou aquele herói inocente dos anos 1950 e o reconstruiu completamente, transformando-o em uma desconstrução sombria e adulta do mito do super-herói. A ingenuidade atômica das histórias de Mick Anglo passou a ser reinterpretada como trauma, manipulação psicológica e distorção da memória.Objetivando evitar problemas de direitos autorais com a Marvel, o personagem ressurgiu como MIRACLEMAN, na seminal WARRIOR #1, em 1982, sob o comando de Alan Moore acompanhado de um panteão estelar de artistas como Gary Leach, Alan Davis, Rick Veitch, John Ridgway e John Totleben. Começou aí uma das mais radicais e influentes reformulações do arquétipo do super-herói na história dos quadrinhos. Moore, ao reconstruir aquele personagem originalmente derivado do Capitão Marvel, transforma o que era um herói inocente da Era de Ouro em uma meditação sombria, filosófica e crítica sobre poder, identidade, moralidade e a própria natureza do mito super-heroico. Desde as primeiras páginas, Moore realiza um processo de desmitificação ao ponto da total desconstrução do personagem(tal como faria pouco tempo depois em O Monstro do Pântano). O protagonista ressurge nos dias atuais (1982, época do início da produção dessa nova fase), e sua origem é reinterpretada brilhantemente como parte de um experimento governamental sombrio. A magia cede lugar à ciência, remontando de fato à proposta originalmente pretendida por Mick Anglo, e o heroísmo ingênuo dá espaço a questionamentos morais profundos.
Moore não apenas retira o verniz idealista do personagem, mas também o coloca diante das implicações reais de ser uma entidade quase divina. O que aconteceria se um ser com esse poder realmente existisse? Ele permaneceria humano? Seria benevolente, ou acabaria se distanciando da humanidade? O arco narrativo de Moore leva Miracleman de um ser humano comum com poderes, a uma entidade quase messiânica. Com o tempo, Miracleman se distancia da humanidade — não por malícia, mas por uma lógica interna que o leva a transcender os valores humanos.
A figura do herói torna-se inquietante: ele é ao mesmo tempo salvador e ameaça. O ápice disso é visto no cataclísmico confronto com Kid Miracleman, uma contraparte corrompida que demonstra, de forma brutal, o que acontece quando poder absoluto encontra a ausência de limites morais. O massacre em Londres, retratado com crueza, é um dos momentos mais impactantes e controversos da história dos quadrinhos, e serve como alerta: superpoderes não garantem bondade.

No final do arco de Moore, Miracleman estabelece uma utopia tecnológica e imortal para a humanidade. Porém, essa utopia levanta questões inquietantes: até que ponto é legítimo impor uma nova ordem mundial, mesmo que ela seja “perfeita”? Existe liberdade real sob a tutela de deuses benevolentes? Aqui, Moore faz eco de obras como 1984, Admirável Mundo Novo e o pensamento nietzschiano do “além-do-homem”. A utopia de Miracleman não é distópica nos moldes clássicos, mas provoca a mesma sensação de desconforto: o ser humano permanece livre quando não há mais sofrimento, escassez, doença ou morte — mas também não há mais conflito, escolha ou transcendência? Valeria a pena? Miracleman de Alan Moore é uma obra seminal, que vai além da crítica ao mito do super-herói para alcançar um patamar quase metafísico. É um quadrinho que exige reflexão, que provoca, incomoda e transforma. Ao expor as contradições internas do heroísmo e projetar suas implicações até o limite, Moore não apenas redefiniu um personagem — redefiniu o potencial da linguagem dos quadrinhos enquanto forma de arte e pensamento crítico. Mas essa reinvenção só teve impacto porque existia uma base anterior aparentemente ingênua. O contraste entre o velho Marvelman infantil de Mick Anglo e a abordagem brutalmente adulta do Miracleman de Alan Moore é justamente o que tornou a obra tão poderosa historicamente. Sem a criação simples, otimista e artesanal de Mick Anglo nos anos 1950, provavelmente não existiria uma das obras mais influentes da história dos quadrinhos modernos.

Por muito tempo essa fantástica obra permaneceu fora do alcance dos leitores brasileiros em função de uma série de imbróglios e disputas judiciais, que foram finalmente solucionadas, possibilitando que a fase do Miracleman de Alan Moore fosse publicada a contento (mas como o mago ranzinza de Northampton também criou alguns casos nessa enorme confusão, exigiu que seu nome não fosse associado à obra, razão pela qual ele é creditado em suas recentes republicações como “O Escritor Original”), e é possível conferir essas fantásticas histórias, lançados integralmente no título MIRACLEMAN com 16 edições mensais entre dezembro de 2014 e março de 2016 com papel offset, e compiladas posteriormente em três encadernados em capa dura e papel couché pela Panini Comics, entre dezembro de 2020 e outubro de 2021. S em querer criar qualquer tipo de polêmica… SIM, é MELHOR que Watchmen!😁😂 Na humilde opinião deste escriba, o MELHOR trabalho de Alan Moore, e uma das melhores HQs de todos os tempos! 😉

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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