HQ | O INCRÍVEL HULK – HISTÓRIAS ESSENCIAIS E FATOS MARCANTES – PARTE 8

Leandro Banner

A chamada SAGA DA ENCRUZILHADA representa um dos momentos mais sombrios, experimentais e psicologicamente densos da trajetória do Hulk. Publicada originalmente em THE INCREDIBLE HULK #301-313, publicada no Brasil pela primeira vez pela Editora Abril, e finalmente relançada num belo encadernado em formato americano pela Panini Comics em 2021, a fase final escrita por BILL MANTLO transformou profundamente a percepção do personagem, afastando-o temporariamente das histórias convencionais de super-heróis para mergulhá-lo numa jornada existencial, quase surrealista. A premissa inicial é poderosa. Após perceber que o Hulk havia se tornado uma criatura completamente irracional e incontrolável — uma força destrutiva sem qualquer resquício de humanidade — o Doutor Estranho toma uma decisão extrema: banir o gigante esmeralda para a chamada Encruzilhada, uma dimensão-limbo que conecta incontáveis realidades e mundos alienígenas. O objetivo não era apenas impedir novas tragédias, mas oferecer ao Hulk a possibilidade de encontrar um lugar onde pudesse existir sem ameaçar inocentes.

A partir daí, Mantlo constrói uma narrativa incomum para os padrões da Marvel dos anos 1980. Em vez de confrontos tradicionais contra vilões fantasiados, a série assume um caráter episódico, quase contemplativo, no qual cada mundo visitado pelo Hulk funciona como metáfora de sua própria condição emocional e psicológica. A Encruzilhada transforma-se num espelho fragmentado da mente de Bruce Banner. O grande mérito dessa fase está justamente na abordagem psicológica. Mantlo foi um dos primeiros roteiristas a aprofundar de maneira mais séria, relevante e dolorosa os traumas de infância de Bruce Banner, elementos que seriam posteriormente aperfeiçoados por Peter David, e décadas depois seriam também fundamentais em histórias como THE IMMORTAL HULK, mas não nos adiantemos. Aqui, Banner deixa de ser apenas o cientista vítima de um acidente radioativo e passa a ser retratado como um homem destruído desde a infância, marcado pelos abusos físicos e emocionais cometidos por seu pai, Brian Banner.

Esses elementos tornam o Hulk algo muito mais trágico. A criatura passa a ser interpretada não apenas como resultado da radiação gama, mas como manifestação de dores reprimidas, medo, raiva e trauma infantil. Mantlo humaniza Bruce Banner ao mesmo tempo em que torna o Hulk um verdadeiro reflexo de toda dor, angústia e tristeza que o cientista trazia dentro de si. Quanto mais irracional a criatura se torna, mais evidente fica a dimensão emocional de todo aquele sofrimento. Visualmente, o arco da Encruzilhada também possui enorme importância histórica. Grande parte da fase é desenhada por SAL BUSCEMA, um dos artistas definitivos do personagem. Seu Hulk é brutal, animalesco, pesado e ameaçador. Buscema entendia perfeitamente a fisicalidade do gigante esmeralda: o modo como ocupava espaço, sua postura curvada, os olhos vazios e a violência quase instintiva de seus movimentos. Ao longo de quase dez anos desenhando o título, Buscema desenvolveu uma narrativa visual extremamente eficiente. Mesmo sem experimentalismos gráficos sofisticados ou grandes ousadias artísticas, seu traço transmitia energia, impacto e dramaticidade com clareza absoluta. A edição #309 marca o encerramento de sua histórica passagem pelo personagem (pelo menos como desenhista do título regular) fechando um ciclo fundamental na cronologia do Hulk, com uma significativa história em que o Gigante Verde recupera todas lembranças de seu passado. Sal ainda ilustraria INCREDIBLE HULK ANNUAL #14, já sob novo roteirista, sobre o qual falaremos no próximo post dessa série dedicada ao Gigante Esmeralda. Outro ponto interessante dessa reta final é a participação de Mike Mignola nas edições #311-313, ainda no início da carreira. Embora distante do estilo expressionista e sombrio que o consagraria futuramente em Hellboy, já é possível perceber vários elementos que se tornariam marcas registradas de sua arte: cenários carregados de sombras, figuras angulares, atmosfera opressiva e forte influência do horror gótico. A arte-final detalhada de GERRY TALAOC (sobre os lápis de Buscema e Mignola) contribui bastante, não apenas para a uniformidade estilística, mas também conferindo textura e densidade visual a essas histórias. O resultado é uma ambientação estranha, melancólica e quase claustrofóbica, adequada ao tom introspectivo da narrativa.

A edição #313 possui ainda valor histórico adicional por encerrar a passagem de Bill Mantlo pelo título. O roteirista (juntamente com Mignola e Talaoc) trocaria de lugar com John Byrne: Byrne assumiria o Hulk, enquanto Mantlo seguiria para TROPA ALFA (título sob a batuta de Byrne (roteiro e arte) até aquele ponto) e concluiria o retorno do Hulk à Terra já no título do grupo canadense (ALPHA FLIGHT #29). Era uma mudança significativa dentro da Marvel da época, marcando a transição entre duas visões bastante diferentes do personagem. Mesmo que algumas histórias da “Saga da Encruzilhada” apresentem irregularidades narrativas típicas das HQs mensais dos anos 1980, o conjunto permanece extremamente relevante. Trata-se de uma fase ousada, melancólica e surpreendentemente madura, que buscou explorar o Hulk não apenas como máquina de destruição, mas como símbolo de trauma, isolamento e sofrimento emocional.

Muito antes de abordagens modernas transformarem Bruce Banner num estudo complexo sobre abuso e múltiplas personalidades, Bill Mantlo já plantava essas sementes. E talvez seja justamente por isso que a “SAGA DA ENCRUZILHADA” continue sendo lembrada como uma das fases mais humanas, estranhas e emocionalmente devastadoras da história do Hulk, e BILL MANTLO seja lembrado e considerado até hoje como um dos maiores roteiristas que já passaram pelo personagem.👏🏻 No próximo post: a (infelizmente) curta passagem de John Byrne pelo título THE INCREDIBLE HULK. Não percam! 😉

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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