Adilson Santos

Grande Sertão Veredas é uma das obras primas de nossa literatura. Em cerca de 600 páginas João Guimarães Rosa (1908-1967), médico, diplomata, escritor de poeta mineiro, retrata a jagunçagem na região A obra se passa no sertão brasileiro, em área que corresponda a parte dos estados da Bahia, Minas Gerais e Goiás, onde estão as nascentes do Rio Urucuia, mencionado repetidas vezes no romance. Publicado pela primeira vez há 70 anos, em maio de 1956, pela Editora José Olimpio. Narrado em primeira pessoa pelo personagem Riobaldo, um jagunço que conta sua vida de conflitos quando vende sua alma, criando intertextualidade com Fausto, mas nunca vemos a concretização deste além dos questionamentos de Riobaldo sobre a existência ou não do diabo, e como isto impacta no rumo dos acontecimentos de sua vida. Criado por seu padrinho Selorico Mendes, Riobaldo se torna jagunço e se envolve nas disputas de terras da região, quando conhece Diadorim, apelido de Reynaldo, outro jagunço tido como tiro certeiro. Riobaldo e Diadorim se tornam aliados, mas também algo mais pois há um aprofunda atração mútua que pertuba a mente já conturbada de Riobaldo, que desconhece que Diadorim é mulher. Esta guarda seus próprios interesses, o de vingar a morte de seu pai. A narração em flashback, em primeira pessoa, cria uma cumplicidade do leitor com a obra. um enorme sucesso comercial, que recebeu três prêmios nacionais: o Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, em 1961; o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo, em 1957; e o Prêmio Paula Brito,do Rio de Janeiro. A publicação fez com que Guimarães Rosa encabeçasse a lista tríplice, composta por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores escritores da terceira geração modernista brasileira. Sua narrativa não linear cria um ponte com o leitor através do ouvinte anônimo a quem Riobaldo conta sua história que transcorre em duas camadas, no sertão físico que serve de cenário e no sertão místico composto a partir dos questionamentos e das crenças do narrador-protagonista correm em paralelo contarditório na condução de Guimarães Rosa. A obra é um marco modernista de nossa literatura, adaptado para a TV em 1985 em uma minissérie da Rede Globo.

O diretor Walter Avancini ja havia começado a trabalhar na adaptação do romance em 1981, mas desistiu diante das dificuldades. O tempo passou e depois de ler oito vezes consecutivas o romance, ele retomou o projeto com o primeiro tratamento de roteiro feito por Walter George Durst que, com Avancini, criou 20 episódios. Em seguida, foi feito o roteiro, mais uma vez reestruturado pelo diretor, que convocou o escritor mineiro José Antonio de Souza para o tratamento final dos diálogos. Durst, inicialmente, fez três versões até conseguir criar os primeiros 20 episódios. Começava assim uma superprodução que mobilizou 137 atores, e 500 figurantes e uma equipe de 120 pessoas. Com o roteiro na mão, Avancini percorreu o interior de Minas até encontrar o local adequado. Em seguida, encomendou um levantamento da flora e da fauna da região. Para manter a fala e o vocabulário do autor, contratou a professora de literatura Íris Gomes da Costa, especialista em Guimarães Rosa, que deu ao elenco aulas de prosódia. Guimarães usou a fala primitiva do sertanejo e a professora partiu do que considera a proposta do romance: um jogo entre a vida vivida e a vida narrada. A não-linearidade do roteiro também foi deixada de lado, se concentrando na ação. A identidade de Diadorin, no entanto, nao guarda misterio para o público telespectador devido a escavação de Bruna Lombardi para o papel. A atriz brilha ao lado de um fantástico Tony Ramos como Riobaldo. A minissérie esta disponibilizada na Globoplay no projeto Resgate desde segunda dia 15 de junho.