Adilson Santos

Adilson: Como começou o CineZen Clube ? Andre: Então, dando aula, né, dou aula de Teoria do Cinema, Crítica e Curadoria, Linguagem e Produção Audiovisual, Teoria da Comunicação. Eu percebi que as gerações mais nova novas até assistem a filmes que não sejam recentes, mas são filmes dos anos 2000. No máximo, filmes hollywoodianos dos anos 70, do Scorsese, do Coppola. Há um completo apagamento dos grandes clássicos,. Eu não estou falando de quem lida com crítica de cinema profissionalmente, que conhece esses filmes, que é uma minoria. Uma elite cultural que conhece, ou quem gosta muito de cinema, que são pouquíssimas pessoas que gostam desse cinema histórico. Então eu e Paula pensamos que sessões de filmes clássicos você vê em um monte de lugares, mas precisávamos tentar transformar isso numa experiência. Assim, no Cineclube, a pessoa, antes de assistir o filme, tem um vídeo exclusivo de 2-3 minutos contextualizando o filme, sua importância. Tem via QR code o material que a gente disponibiliza, tipo para uma apostila virtual em PDF. A gente não tem verba ainda para fazer uma apostila impressa. Quem sabe no futuro, tendo algum tipo de apoio, tipo um patrocínio. Enfim, terminamos o evento com um debate e um sorteio de brindes relacionados ao cinema. Então, nós estamos fazendo cards exclusivos dos filmes que vêm com a ficha técnica, uma imagem do filme; cartazes de filmes, livros, ingressos de cinema. Tudo isso que é uma tradição do cineclube lá do começo. A ideia é fazer essa experiência lúdica em torno de um filme e pegar filmes importantes da história do cinema, às vezes tentaremos trazer alguns filmes que não sejam os mais óbvios, mas também vai cair naqueles filmes mais clássicos, como Casablanca, que é um filme histórico. Não é só porque ganhou o Oscar. Cineclubismo é isso: é o cinema, a exibição, o debate, essa coisa lúdica, a interatividade, para que essas gerações mais novas entendam que o que é feito atualmente já foi feito lá atrás. E, também uma forma de pegar esse público que gosta desses filmes mas que nunca o viu numa telona. Viu em casa, em DVD, no Blu-ray, em VHS, e agora terá esses clássicos numa experiência coletiva de cinema.
Adilson: Por que Casablanca continua tão fascinante assim ha tanto tempo? Andre: Tem filmes que transcendem o tempo, e por mais que sejam atrelados a um período específico, há uma série de fatores que contribuem para que ele fique para a história. No caso do Casablanca, você tem primeiro alguns dos maiores atores de todos os tempos : Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, que estão na lista respectivamente dos dez maiores atores e atrizes de todos os tempos, além do Claude Rains, o Peter Lorre, que era um ator muito emblemático do filme noir e o Conrad Veidt, de O Homem Que Ri. O Michael Curtiz, que era um diretor supercompetente, a trilha sonora, a música As Time Goes By, cenas marcantes. Então, o grande cinema é esse, é o que fica na mente das pessoas, que tem cenas que se tornam imortalizadas. Além de tudo isso, é um filme que fala sobre lidar com tempos extremos, de sacrifício, empatia… essas questões que os personagens trazem em épocas difíceis.
Adilson: Por que o público perdeu a sensação do cinema como experiência coletiva? André: Não é que o público perdeu a a experiência coletiva, Eu acho que tem filmes que ainda trazem, só que são os grandes blockbusters. Hoje as pessoas não têm dinheiro para ir toda semana ao cinema, por isso que eu falei que Mestres do Universo não ia dar lucro. Supergirl dificilmente vai, porque daí tem Toy Story no meio, que é um filme que reúne a família. Então, as pessoas para irem ao cinema, tipo, esposa, marido, filho, vai comprar combo, estacionamento… isso é um passeio que você vai gastar mais de R$ 200, R$ 250, R$ 300, dependendo do lugar, né? Eu acho que a a questão é de recuperar a experiência coletiva para além desses filmes, né? E do cinema da discussão, do gosto, do costume, de debater. O CineZenClub tem dois projetos nesse sentido, que são o Cine Comunidade, que tem uma pegada de formação de plateia — filmes infantis, animações, etc., para ir formando na molecadinha esse gosto, né? E aí é um projeto que vai para áreas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, né? Comunidades, ONGs, creches, associações de bairro, etc. — e o CineZenClub, com a questão dos clássicos e filmes brasileiros fora do circuito comercial. São duas frentes que a gente tem de de formação de plateia. O CineZenClub com o debate depois dos filmes, né? Então acho que é isso, a experiência coletiva na questão de você criar relações, debater, encontrar pessoas que pensem igual ou diferente, mas que tenham o prazer em debater o cinema.

Adilson: Alguns filmes são tão difícies de se encontrar no streaming, e outros são repetidos à exaustão oferecidos ora em uma plataforma, ora em outra. Por que as plataformas tem dificuldade de diversificar mais os títulos oferecidos? André: Então, acho que as plataformas de streaming visam o lucro e assim como o cinema é uma indústria e precisa ter lucro para sobreviver. É caro fazer cinema, é caro ir ao cinema. A questão é que nesses tempos de plataformas digitais, TikTok, Instagram, as pessoas passam muito tempo nas telas. E aí o algoritmo indica os filmes conforme os gostos dessas pessoas e nesse cenário todo maluco, a memória fica para trás assim como a preservação histórica, a informação. As pessoas estão lendo cada vez menos, pesquisando cada vez menos, se interessando cada vez menos pela história. A gente vive um período de pós-verdade, muita coisa ao mesmo tempo. Os streamings acabam deixando de lado filmes importantes, e não só os clássicos fundamentais mas os filmes de dos anos 40, 50, 60, 70 que eram filmes muito legais. Esses são esquecidos também. A Netflix dificilmente tem filmes dos anos 60 para trás. No YouTube tem o canal Cine Antiqua, que têm vários filmes clássicos e tal e em boa resolução, mas nem todo mundo conhece. Eu conheço porque eu vou atrás, a gente pesquisa, quem é da área, dá aula. Mas falta um pouco mais desse tato histórico para entender como o cinema chegou ao que ele é hoje.
Adilson: Como anda o cinema nacional nessa disputa por uma fatia de público? André. Então, eu acho que a questão do cinema nacional tem que vir de todos os lados. Precisa existir projetos de formação de público. Então, por exemplo, no Cine Comunidade nós exibimos sempre um curta-metragem infantil em animação, né, um desenho animado brasileiro, para depois passar um blockbuster que as crianças querem. E acho que é preciso também ter esse entendimento, de que filme é produto. É arte, mas é produto. Precisa vender, precisa aprender a ganhar dinheiro com isso também, precisa circular, é trabalho. Os festivais acabam sendo o grande gargalo da exibição, mas os filmes não podem ficar só nos festivais. Mas aí você precisa ter cota de tela, que é o que existe. E agora tá toda uma discussão porque descobriu-se que a Cinemark tava usando uma maneira… enfim, equivocada e tal. A Coreia do Sul fez cota de tela durante anos e hoje os coreanos veem mais filmes coreanos do que de fora. E culminou na vitória do Oscar com o Parasita. Agora as Guerreiras do K-pop ganhando dois Oscars também. Travando essa competição aí com os filmes dos Estados Unidos. E você precisa ter um trabalho também nos editais de fomentar gêneros diferentes: filmes de terror, de animação, de aventura, de ação, os dramas, documentários, comédias, etc. e de alguma maneira, ajudar as lotar as salas de cinema. Já que elas têm que cumprir a cota de tela, que elas também tenham algum tipo de incentivo para botar os filmes brasileiros em horários, que é horário nobre e tal. Porque também o cinema, para existir, é muito caro: lâmpada, projetor… centenas de milhares de reais. É… então o cinema precisa ter algum tipo de incentivo também. Porque não adianta você só obrigar o cinema a passar o cinema brasileiro sem o público tá indo. São casos esporádicos aí: O Auto da Compadecida, Agente Secreto, Tropa de Elite, Cidade de Deus, Minha Mãe É uma Peça, Dona Flor lá atrás. Mas… geralmente, as grandes bilheterias no ano são de filmes de fora.Para você modificar isso, é um trabalho conjunto de todos os lados, de formiguinha. Inclusive a sala de exibição, que precisa ter algum apoio, porque senão o cara vai ter prejuízo e uma hora fecha o cinema. E aí vão ficar só as grandes redes. E aí também, dependendo do governo, muda o governo, tira a cota de tela e aí acabou. Então não adianta só exigir das salas de cinema, tem que ser um trabalho conjunto de todo mundo para que o público brasileiro tenha prazer em ver filme brasileiro. Tenha interesse e tal.

Adilson: Quais os próximos filmes a serem oferecidos no CineZen Clube ? André: Então, agora em julho a gente vai fazer o Gilda, o clássico do filme noir, né, que fez 80 anos recentemente com a Rita Hayworth. Eh, em agosto não tem porque é o mês do Santos Film Fest e aí no Santos Film Fest nós passamos um monte de clássicos. Depois, ainda também, não pode se comprar meu amor com a Julie Andrews, vamos ter o O Pagador de Promessas. Eu tenho que ver de cabeça a programação, mas tem no release que eu mandei aí. Fora isso, a gente vai criar um… tá voltando com o projeto que é o Cine Rock Santos. Então, em julho, dia 10, nós vamos passar os documentários sobre a Plebe Rude e o Cazuza, o cantor, dois filmes aí de rock, além do Cinezen Club, vai er esse evento aí.”