DIA DO CINEMA NACIONAL | RETRATOS DE NOSSA ARTE

Adilson Santos

O nosso cinema é de riqueza admirável e há  128 anos esa semente germinou. Era 19 de junho de 1898, quase três anos depois da primeira exibição pública dos Irmãos Lumière na França, que a mágica da arte cinematográfica se fez em nosso país. Nessa data o italiano Afonso Segrero registrou a entrada de seu navio na Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro. De lá prá cá vivemos o Cinema Novo, o Cinema Boca de Lixo, as chanchadas da Atlântida, o Cinema de Retomada, o cinema popular, caminhando até  o reconhecimento internacional em Festivais e premiacoes. Falar de 10 filmes apenas é minimizar demais um acervo fabuloso composto de talentos que nos legaram sua arte em fotogramas e hoje em digitalização que gerações possam ver e rever. Como o espaço aqui é simbólico, fica aqui uma amostra de nossa arte que ainda precisa expandir suas fronteiras e alcançar o público em um brado retumbante que nos lembre que fazemos cinema e fazemos muito bem.

​O Pagador de Promessas (1962)

Dirigido por Anselmo Duarte, o filme acompanha Zé do Burro (Leonardo Vilar) , um homem simples do interior que, após ter sua promessa atendida para salvar seu burro de estimação, carrega uma enorme cruz de madeira até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. Ao chegar, ele enfrenta a intransigência de um padre que recusa sua entrada pelo fato de a promessa ter sido feita em um terreiro de candomblé, desencadeando um trágico embate entre a fé genuína e o preconceito institucional. Unico longa-metragem brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes.

​Eles Não Usam Black-Tie (1981)

Em meio ao movimento grevista do ABC paulista nos anos 1970, o jovem Tião (Carlos Alberto Riccelli) decide furar a greve operária liderada por seu próprio pai, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri)  para não comprometer seu casamento e o futuro com a namorada grávida (Bete Mendes) . O filme de Leon Hirszman tece um poderoso drama familiar que reflete as tensões políticas da época, o choque de gerações e os dilemas morais da classe trabalhadora frente à opressão social.

​Bye Bye Brasil (1979)

Dirigido por Caca Diegues, este clássico acompanha a Caravana Rolidei, um grupo de artistas ambulantes (Jose Wilker, Bette Faria e Fabio Junior), que viaja pelo interior do país fazendo espetáculos para populações que ainda não têm acesso à televisão. Cruzando estradas poeirentas e a Amazônia em plena transição social, o filme retrata com sensibilidade e melancolia um Brasil profundo que começa a ser engolido pela modernidade e pela eletrificação.

​Guerra de Canudos (1997)

Esta produção épica do excelente Sérgio Rezende reconstrói o sangrento conflito do final do século XIX no sertão baiano através dos olhos de uma família dividida. Enquanto acompanhamos a pregação mística de Antônio Conselheiro (José  Wilker) e a resistência da comunidade de Belo Monte contra a recém-criada República, o filme expõe o abismo de incompreensão e a violência avassaladora do exército brasileiro contra seu próprio povo.

Central do Brasil (1998)

Dora (Fernanda Montenegro), uma ex-professora amargurada, ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Quando uma de suas clientes é vítima de um atropelamento fatal, Dora acolhe relutantemente Josué, o filho órfão de nove anos, e parte em uma jornada pelo interior do Nordeste para encontrar o pai que o menino nunca conheceu, transformando a viagem em uma profunda redescoberta de si mesma.

​O Auto da Compadecida (2000)

No vilarejo de Taperoá, no sertão paraibano, os amigos João Grilo (Matheus Natchergaele) — um sertanejo pobre e extremamente astuto — e Chicó (Selton Mello) — o maior covarde e mentiroso da região — vivem de enganar os poderosos locais para garantir o pão de cada dia. A sorte deles muda quando a cidade é invadida por cangaceiros e todos acabam mortos, restando a João Grilo usar sua lábia afiada no Julgamento Final para convencer a Nossa Senhora (a Compadecida) a salvá-los do Inferno. Teve uma ótima sequencia em 2023.

​Se Eu Fosse Você (2006)

Comedia das melhores. Cláudio (Tony Ramos), um publicitário de sucesso, e Helena (Gloria Pires), uma dona de casa que coordena um coral infantil, enfrentam a rotina desgastante de um casamento de muitos anos. Após uma discussão acalorada sob um raro alinhamento planetário, eles acordam no dia seguinte com os corpos trocados, sendo obrigados a viver a vida um do outro e a aprender, na marra, a olhar o mundo pela perspectiva do parceiro. Já teve uma continuação e teremos esse ano um terceiro filme.

​Tropa de Elite (2007)

Ambientado no Rio de Janeiro de 1997, o longa de José Padilha narra a rotina brutal e os dilemas morais do Capitão Nascimento (Wagner Moura) comandante do BOPE, que deseja deixar a corporação antes do nascimento de seu filho. Enquanto busca um substituto ideal entre dois aspirantes honestos e idealistas, ele precisa comandar uma operação de pacificação violenta nas favelas para garantir a segurança da visita do Papa João Paulo II. Gerou uma continuação de igual impacto.

​Minha Mãe é uma Peça (2013)

Grande sucesso nas telas traz Dona Hermínia (Paulo Gustavo), uma mulher de meia-idade, hiperativa e divorciada, que não larga do pé dos filhos adultos, Marcelina (Mariana Xavier)  e Juliano (Rodrigo Pandolfo) . Ao descobrir que eles a acham chata e sufocante, ela decide fugir de casa para passar uns dias na casa da tia, deixando os dois entregues à própria sorte enquanto relembra, com muito humor e ironia, as dores e as delícias da maternidade. Gerou mais duas continuações e em suas reprises a saudade do talento de Paulo Gustavo.

Ainda Estou Aqui (2024)

No início da década de 1970, o Brasil enfrenta o endurecimento da ditadura militar. No Rio de Janeiro, a vida da família Paiva é tragada pelo regime quando o patriarca, o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello), é levado por militares para depor e desaparece. Sua esposa, Eunice (Fernanda Torres)  vê-se obrigada a se reinventar para proteger e criar seus cinco filhos, iniciando uma busca incansável pela verdade que durará décadas. Levou o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres e o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025.

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