Adilson Santos

Refilmado três vezes, Vampiros de Almas (Invasion of the body snatchers) constitui um dos melhores filmes da ficção-científica hollywoodiana dos anos 50. Expressando a paranóia americana dos tempos da guerra fria e do macartismo, a história do filme de Don Siegel se desenrola na pacata cidade sul-californiano de Santa Mira, onde o médico Miles Bennell (Kevin McCarthy) e sua namorada Becky Driscoll (Dana Wynter) fazem a estarecedora descoberta de que toda a população foi substituída por duplicatas criadas por gigantescos casulos vegetais de origem extraterrestre que vampirizam a alma das pessoas durante o sono — um plano sutil de invasão que guarda alegorias narrativas impressionantes até hoje.
Siegel e o roteirista Daniel Mainwaring procuraram retratar a crescente desumanização do indivíduo numa sociedade doente. Exibido em 1956 com um desfecho adulterado pelo estúdio, que nao aceitou um final por demais pessimista como planejado e fez de Kevin McCarthy o último remanescente humano a nos alertar do que estávamos nos tornando, um misto de pesadelo e realidade, angústia e delírio raramente igualados no gênero.
Quando lançou essa macabra advertência em romance publicada em capítulos na revista Collier’s, o autor Jack Finney quis arquitetar algo mais que uma trivial aventura de ficção-científica e horror. Afinal, no início dos anos 50, uma invasão arquitetada de forma tão subliminar serviu perfeitamente como metáfora à paranoia anticomunista que então estarrecia a América. “Eles” tanto seriam visitantes de outros mundos quanto agentes vermelhos a conquistar mentes pelo país, tornando-se incapazes de emoções ou sentimentos, autênticos humanoides em estado de estupor catatônico. Apesar da modéstia de produção (350 mil dólares, preto-e-branco), a obra dirigida por Don Siegel esbanja vitalidade narrativa além de expressar magnificamente as ansiedades sociais de sua época, e quem sabe ainda ser eco de nosso atual estado de desumanização dos valores básicos.

Na primeira refilmagem da história intitulada Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers), a United Artists não poupou esforços com dinheiro (3,5 milhões de dólares) para colher seus lucros e dividendos na epidemia de calafrios cósmicos disseminada pós Star Wars. O diretor Philip Kauffman explora o conceito da invasão, mas também se ocupa em mostrar a replicação humana de forma mais minuciosa. O médico provinciano de Kevin McCarthy é trocado pelo protagonismo de Matthew Bonnell, um inspetor de saúde interpretado por Donald Sutherland. O cenário muda para São Francisco onde Matthew percebe que algo está errado e logo alerta Elizabeth Driscoll (Brooke Addams) sua colega de trabalho. Em vez de paranoia macartista da era da guerra fria, o diretor Philip Kaufman achou mais oportuno detectar o perigo da poluição atmosférica e da contaminação de meio-ambiente. Essas preocupações ecológicas não são as únicas, sendo que a ameaça maior vem do principal cérebro pensante dos invasores, personificado na figura do Dr. David Kibney (Leonard Nimoy), um psiquiatra afamado por mudar a vida de seus pacientes e dos leitores de seus inúmeros “best-sellers”. Para os caçadores de referências, o filme ainda traz o diretor Don Siegel no papel de um motorista de táxi, e em outra, Kevin McCarthy, de cabelos grisalhos, reaparece como havia sido visto pela última vez em 1955: esquecido no meio de trânsito, gritando para uma multidão de surdos “eles já estão aqui!”.

A historia ainda ganharia mais duas refilmagens de impacto bem menor: Invasores de Corpos – A Invasão Continua (Invasion of the Body Snacthers, 1993) de Abel Ferrara – onde a ação se desenrola em uma base militar e Os Invasores (The Invasion, 2007) de Oliver Hirschbiegel, este estrelado por Nicole Kidman e Daniel Craig. Ambas, no entanto, são pálidos reflexos de uma história melhor contada e que revela que senão ficarmos alertas seremos derrotados pela escuridão de nossas almas, pela exaustão e pela diluição de nossa própria capacidade de sentir , de sermos humanos.
