ENTREVISTA | KARIN MEDEIROS : A VOZ BRASILEIRA DA SUPERGIRL

Adilson Santos

Adilson: Então, estou aqui eu com a sorte de conhecer uma super-heroína. Afinal de contas, Karin Medeiros é a dubladora da Supergirl, um filme da Warner que está chegando aos cinemas agora, nesta quinta-feira (25/06). Karin é atriz, dubladora, com um talento e uma carreira brilhante pela frente e já conseguiu vários papéis que assim vocês certamente vão lembrar na nossa entrevista como a Rainha Rhaenyra Targaryen jovem, papel também de Milly Alcock, em A Casa do Dragão, entre outros.

Adilson: Como começou o seu interesse por atuar? A dublagem é uma atuação, e não simplesmente por a voz em um ator estrangeiro como alguns podem pensar. Karin: A dublagem é uma forma da atuação. A pessoa tem que ser ator antes de ser dublador. Então, o primeiro trabalho que eu fiz assim, grande no meio artístico, foi em uma montagem teatral de A Noviça Rebelde, que é um musical, lá em 2008. Eu tinha cinco aninhos, e esse foi o meu primeiro trabalho. E é muito doido porque eu era muito pequena, e não tinha ninguém na minha família assim que era ator ou que era artista de alguma forma, seja dublador, dançarino, não. Então, os meus pais também ficaram meio perdidos quando descobriram que eu gostava muito de cantar, de dançar. Eles nem sabiam que eu cantava. E tudo começou na verdade com a Agência Cintra, que é uma agência de talentos que tem, existe até hoje. E eu me lembro que os meus pais me contam que eles entregavam cartãozinho no shopping: Ah, tira a foto da sua criança, do seu bebê, não sei quê. Aí eles foram, ligaram, falaram: Ah, vamos tirar foto, Aí quando chegou lá que eles descobriram que era para fazer testes, para tirar foto para aparecer em revista e coisas assim e falaram: Ah, tá, vamos ver no que dá, né? E eu me lembro que eu comecei tirando fotos para encarte, por exemplo, das Lojas Americanas, e coisinhas assim menores, desfiles… até que surgiu o primeiro teste, que foi para fazer a peça, A Noviça Rebelde. Meus pais me levaram e eles sempre me perguntavam antes: Você quer ir? Você quer fazer o teste? Tudo bem se não quiser, se quiser ir embora, porque eu era muito criança. Então, eu fui muito sortuda assim, né, nesse quesito de eles sempre respeitarem a minha vontade e sempre me apoiarem também nas coisas que eu queria fazer, mesmo eles também não entendendo muito. Quando cheguei lá, eu cantei uma música da Eliana [risos] que era Palavrinhas Mágicas, que eu adorava e fui passando de fase. Teve a fase de canto, a fase de dança, fase de interpretar que eles passavam um textinho. E nessa época eu nem sabia ler, então para decorar o texto da fala dos personagens a minha mãe lia para mim e eu repetia. Um dia meus pais receberam uma ligação falando: Ó, a Karen passou, né? Tá aqui os… o local onde a gente vai começar a ensaiar e tudo mais. Então foi uma surpresa assim. E eu acho que foi aí onde eu senti essa paixão pelo teatro. Eu era tão pequenininha, mas eu amava ir ensaiar, eu amava tá com aquelas pessoas ali do teatro, do elenco, da produção. Então foi uma coisa que eu não entendia ainda que era um trabalho, eu só ia por gostar muito. E eu nunca tive algum dia que eu falava: “Ah, amanhã eu não quero ir”. E que se criança tem esse, esse lugar, tudo bem também, porque a gente era muito pequeno, tinham outras crianças também. Então, eu me lembro de… desse sentimento, e isso eu lembro, de gostar muito de ir para lá. Inclusive, até hoje quando eu vejo as fotos de antigamente eu fico nostálgica, porque foi um lugar muito especial para mim, que eu amei muito. E desde lá eu continuei fazendo teatro, aula de canto, dança, até chegar no curso de dublagem e tá dublando aí até hoje.

Adilson: E começou, né, com o pé direito, porque A Noviça Rebelde é um texto maravilhoso. Teve aquele filme da Julie Andrews, então você deve ter feito uma das crianças da família Von Trapp, certo ? Karen: Isso mesmo, a Greta Von Trapp, a pequenininha, a menorzinha das sete crianças.

Adilson: Beleza. E qual foi o primeiro personagem que você dublou, que você pôs a sua voz e dublou mesmo? Você lembra qual foi o primeiro? Quantos anos você tinha? Karen: Eu lembro que o meu primeiro trabalho na dublagem, eu ainda não era dubladora porque o primeiro trabalho que eu fiz na verdade não foi dublando um personagem, foi cantando. Então, já já fazia aula de canto, já cantava, e aí eu recebi essa proposta de cantar para um desenho da Discovery Kids que se chama Herói da Cidade das Cores, ó, lembrei, achei que não ia lembrar. [risos] E tinha uma musiquinha que era quando sobe os créditos no final do filme, tem uma musiquinha de fundo, e aí eu cantei nessa musiquinha. Foi meu primeiro trabalho que foi num estúdio, e eu recebi o voucher de dublagem. E eu não lembro quem que dirigiu na época, não lembro mesmo porque eu não conhecia esse meio. Isso foi em 2015. Foi em 2015 e a partir daí que o diretor da época, que eu também não lembro quem era, falou assim: Ah, Karen, você é dubladora?, aí eu falei: Não. Aí ele: Ah, então vou conversar com a sua mãe. Aí falou com a minha mãe: “Olha, você devia colocar ela na dublagem porque é muito legal quando a criança ou qualquer pessoa, até adulto, canta e dubla, que já é assim uma coisa mais mais fácil, que tem vários filmes musicais que pedem para o dublador cantar. Se o dublador não canta, ou tem que colocar outro no lugar ou essas coisas, enfim. E a gente conhecia a Iara Riça... a Érika Menezes... a Evie Saide, que ela dava aula no colégio que eu estudava, que era o Nossa Senhora da Piedade. Ela dava aula de música lá e a gente já sabia que ela era dubladora. Então, eu acho que tudo foi destino. Aí a Evie veio a ser a minha professora de dublagem. E a partir daí eu comecei a fazer vários trabalhinhos. Mas depois do curso, tendo um personagem assim de fato, o primeiro personagem que eu fiz não tinha nem nome, porque quando a gente começa é personagens menores, né, e tudo mais. Mas era uma fadinha verde, o nome que vinha no roteiro era Fada Verde, de um desenho da Barbie. Aí eu aparecia só em um episódio rapidinho e foi isso. Mas eu fiquei tão feliz de fazer essa personagem, tão feliz, porque desde pequena eu era apaixonada nos filmes da Barbie, até hoje eu gosto. Eu tenho 23 anos [risos] mas eu ainda gosto de Barbie. Então eu fiquei muito feliz porque era… é, era uma personagem pequenininha, mas era num desenho da Barbie que eu amava assistir. Então foi isso, a Fadinha Verde foi a minha primeira personagem de fato na dublagem.

Adilson: Tive o prazer de trabalhar com a Evie, trabalho com ela até hoje, né? Lá no Colégio Imaculado Coração de Maria e, enfim, é uma profissional fabulosa, é minha amiga, e eu só tenho realmente a elogiar esse início de carreira Como foi dublar com a Evie É Assim que Acaba, em que vocês duas trabalharam juntas numa mesma personagem. É um filme que é baseado na obra da Colleen Hoover, estreou tem mais ou menos um ou dois anos. Como foi trabalhar com a Evie nesse filme? Karen: Foi muito legal porque a gente fez a mesma personagem, né? Só que ela é a versão adulta e eu era a versão adolescente. E foi muito legal para mim porque, é… se estou hoje trabalhando e fazendo os personagens que eu faço é graças à Evie, que me ensinou a dublar, que me ensinou tudo o que eu sei, e eu sou muito grata a ela, aos aprendizados dela, e as aulas… eu amava estar nas aulas do curso de dublagem. Enfim, então foi muito especial para mim. E também esse livro era um dos livros, assim, preferidos… ainda é um dos meus livros preferidos, que eu gosto muito de ler. E aí quando eu soube que ia ter o É Assim que Acaba, eu não sabia nem eu nem pensei nada de dublagem nem nada, Então eu fiquei feliz. A gente trocava mensagens, eu falava: Evie, não acredito, a gente é a mesma pessoa! Eu sou você mais nova, e você sou eu adulta! [risos] Então foi muito legal. Eu admiro muito o trabalho da Evie.

Adilson: Ah, somos dois então, né? Há atores que não gostam de se ver na tela. Você gosta de ver os filmes que você dublou ? Você gosta de ver a sua voz? Como você lida com isso? Karen: Essa pergunta é muito boa, porque eu acho que no início eu estranhava muito. Eu estranhava muito porque eu sempre vi tudo dublado, até hoje eu só vejo coisas dubladas. E tá tudo bem quem não vê, quem não gosta, não tem problema nenhum, porque tem gente que acha que: Nossa, dublador deve odiar porque eu vejo legendado. Não, gente, tá tudo bem, são opções e escolhas. Então eu sempre assistia tudo dublado. E aí quando eu fui assistir a minha primeira dublagem assim, tipo era essa da Fadinha Verde, ou até outros também que eu fui fazendo, eu achava muito estranho. Mas hoje em dia não, eu acho que a maioria dos dubladores deve ter passado por essa estranheza no início da carreira, né? Tipo: Caramba, é a minha voz na na TV, tipo, sei lá. Era meio estranho, mas hoje em dia eu amo, sou apaixonada. Eu gosto muito de cinema, né, de séries, eu adoro assistir conteúdos assim na TV, no cinema, no celular também nas streamings. Então eu acho que foi uma coisa que eu fui me acostumando, e hoje em dia eu adoro. Eu fui no outro dia no cinema com os amigos assistir… nem lembro, acho que foi Pânico, aí teve o trailer de Supergirl. Alguns dos meus amigos disseram: Meu Deus, é a Karen! Legal, sabe, poder assistir e comemorar aquela aquela conquista, né? Principalmente então agora com Supergirl, que é a minha primeira protagonista de cinema. Então eu não achei nada estranho e eu não fiquei tipo me julgando, eu só aproveitei e curti muito o resultado que foi dos trailers e tudo mais.

Karen: Sim, e além disso também a dublagem ela é democrática, né? Para as pessoas que têm alguma necessidade especial, por exemplo, dislexia, ou qualquer outra questão, até também é problema de visão e essas coisas, então… Ou então pessoas que não conseguem acompanhar a leitura ou entender outro idioma. Então além de preferência e de ser algo cultural, também é algo bem democrático e necessário. Tudo bem a pessoa não querer assistir dublado, não tem problema, mas a dublagem ela é importante, isso é inegável. Ela é muito importante para todo mundo, ainda mais assim o Brasil que vinha com uma taxa de analfabetismo gigante. E as e as crianças também, né, que aprendem lá quando elas são criancinhas a desenvolver a fala, o comportamento. Então eu acho que o desenho e o que que elas consomem é muito importante, e a dublagem ela ela leva isso, ela é acessível, né? Ela é a acessibilidade para as pessoas.

Adilson: Quando você bota a voz em uma animação ou no live-action, tem alguma coisa que diferencia ou é praticamente o mesmo trabalho? Como é isso? Karen: Então, diferencia porque geralmente na animação a boca do personagem, dependendo da animação, ela só abre e fecha. Então às vezes é mais tranquilo de você dublar porque você não tem que seguir muito uma bilabial que existe, por exemplo, quando eu falo palavras com B, com P, que a boca tá assim, e que em inglês ela tá fazendo isso aqui, mas em português é uma palavra que não tem nenhum P, nenhum B, nenhum M. Então você tem que adaptar algumas palavras para encaixar. No desenho, às vezes não tem, na maioria das vezes. Até que alguns até têm boquinha de U, né, não é só abrir e fechar. A boquinha faz assim e vai para frente às vezes. Então a gente ainda tem uma adaptação, mas eu pessoalmente, né, tem quem prefira outras coisas, eu gosto dos dois, mas eu acho que é mais difícil quando a gente dubla o live-action, né, que tem uma pessoa ali fazendo as palavras exatamente como elas são, e não um desenho que a boca abre, fecha e vai para frente e para trás e só, né? Então eu acho que é mais difícil quando a gente tá fazendo um live-action, a gente tem que mexer mais no texto para adaptar.

Adilson: Agora vamos ao questionário de Bernard Pivot: Qual é o barulho que você mais detesta? Karin: Eu acho que é o barulho de obra quando eu tô tentando fazer alguma coisa mais no silêncio, sabe? Fica aquele barulho de obra na minha cabeça. Às vezes é necessário, né, fazer obra. Todo… todo mundo faz obra em algum momento, mas às vezes… às vezes não tem condição. (risos)

Adilson: Qual o barulho que você mais ama? Karin: Eu amo o barulho do mar. Eu amo muito. Quando eu vou para a praia, às vezes eu até fecho o olho assim, só ouvindo o barulho do mar, aí junta com o barulho da gaivota, dos pássaros. Eu gosto muito de coisas assim relacionadas à natureza, então um barulho que eu gosto muito. E barulho de risada, é contagiante. Pode falar dois?

Adilson: Pode, claro! Maravilha, esses dois, então. Qual música faz a sua alma dançar? Karin: Então, recentemente, na verdade é uma música que eu gosto desde criancinha, mas recentemente ela voltou assim para para minha cabeça, que se chama Flying, que ela é da trilha sonora de Peter Pan. Ela nem tem ninguém cantando, ela é instrumental, mas ela toca no meu coração de um jeito… Até meio clichê falar isso, mas é verdade. Eu às vezes coloco ela, tipo, fecho o olho, apago a luz e só me concentro no que eu tô ouvindo e é mágico. A palavra é essa, essa música para mim ela é mágica. Eu amo.

Adilson: Que profissão você jamais, em hipótese alguma, teria? Caso não fosse dubladora, qual profissão você jamais, nunca teria? Karin: Nossa, essa pergunta é muito difícil. Porque eu acho que uma profissão que eu não me vejo exercendo é de ser médica. Embora seja uma das profissões mais lindas do universo todo, mas eu acho que eu não tenho essa capacidade emocional (risos) de de fazer parte dessa dessa doideira que é, né? Você já assistiu as séries de médico? Eles ficam plantão todo e às vezes têm que… Tem paciente que não aguenta ou que… É a mesma coisa com veterinário. Nossa senhora, eu acho que esse lugar, por exemplo, eu sou tão emotiva, eu acho que eu não ia dar conta, eu ia ficar me sentindo muito mal. Então é um lugar que eu não me vejo e admiro muito todos os médicos aí do mundo todo que exercem essa profissão tão linda e tão importante.

Adilson: Que profissão, além de atriz e dubladora… Faz de conta que é um universo paralelo, uma outra Karin Medeiros com uma outra profissão. Que profissão seria essa você teria? Karin: Então, eu vou excluir tudo que é artístico, porque eu acho que se eu não fosse atriz, eu seria cantora, eu seria pintora, eu seria dançarina e por aí vai. Mas tirando esse esse lado, eu me interesso muito assim… Eu gosto muito de coisas relacionadas a Direito, sabia? Então acho que talvez alguma coisa aí nessa área eu acho que… que seria legal. Não sei o que exatamente, mas eu gosto muito. (risos)

Adilson: Qual o filme da sua vida? Aquele que você vê, revê, vai revê de novo e vai rever repetidas vezes, porque é o filme que… que te toca. Seja pela história, pelo ator ou qualquer coisa que seja. Qual o filme da sua vida? Karin: Eu sou um pouco suspeita, mas eu diria A Noviça Rebelde, que foi onde tudo começou. Se não fosse A Noviça Rebelde, eu não seria atriz, eu não seria cantora, dançarina, dubladora. Então, com certeza, sempre que eu assisto eu me emociono, tanto pela história quanto pelo que o filme significa para mim.

Adilson: Ah, aquilo é maravilhoso, é fabuloso, né? E a última pergunta, tá?, do questionário, da nossa entrevista… é bem filosófica. Então pense bem antes de responder. O que você gostaria de ouvir de Deus quando você entrasse no Paraíso? Karin: Caramba, eu nunca pensei nisso. Eu acho que… eu vou até me emocionar. (pausa) Mas eu acho que eu gostaria de ouvir nada sobre mim assim, mas tipo: “Agora você pode reencontrar com as pessoas que se foram e estavam aqui olhando por você”. (risos) Me emocionei.

Adilson: É engraçado, porque eu responderia a mesma coisa se fosse você no meu lugar.

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