CLASSICO NA NETFLIX | GOLPE DE MESTRE

Marcelo Kricheldorf

No início da década de 1970, a chamada Nova Hollywood revolucionava o cinema norte-americano com produções sombrias, realistas e imbuídas de pessimismo político. Foi nesse cenário que o diretor George Roy Hill operou um verdadeiro milagre estético com Golpe de Mestre (The Sting, 1973). Longe de se render ao niilismo da época, o cineasta entregou uma obra-prima de escapismo sofisticado, revivendo a era de ouro das narrativas clássicas. O longa-metragem não apenas consolidou a cartilha do “filme de assalto ou trapaça”, mas também demonstrou como o cinema pode transformar a falsidade e o crime em manifestações puras de inteligência, elegância e arte.
A narrativa é movida por uma clássica história de vingança, ambientada na decadente e vibrante Chicago de 1936. Após o jovem trapaceiro de rua Johnny Hooker (Robert Redford) aplicar um golpe acidental em um capanga do implacável mafioso Doyle Lonnegan (Robert Shaw), seu mentor e figura paterna, Luther Coleman (Robert Earl Jones) é assassinado como retaliação. Buscando justiça e sobrevivência, Hooker viaja para a cidade grande em busca do único homem capaz de derrubar um império: Henry Gondorff (Paul Newman), um mestre dos disfarces decaído que vive escondido do FBI. A genialidade do roteiro de David S. Ward reside em converter o desejo de sangue de Hooker em um elaborado jogo intelectual. Em vez de balas, as armas utilizadas são a psicologia e o teatro. Gondorff elabora o ” grande golpe”, estruturando uma falsa agência de apostas de corrida de cavalos destinada unicamente a esvaziar os bolsos de Lonnegan, sem que ele jamais perceba que foi enganado.

A construção da narrativa do filme se destaca pela escolha ousada de George Roy Hill de dividir o enredo em capítulos bem definidos. Utilizando cartões de transição adornados com ilustrações, o diretor dita um ritmo pausado, quase literário, à trama. Essa estrutura fragmentada é fundamental para manter o espectador engajado no processo de planejamento. O mais notável, contudo, é a total ausência de violência gratuita. Diferente de obras contemporâneas como O Poderoso Chefão (1972), Golpe de Mestre rejeita o banho de sangue. A tensão dramática não emana do cano de um revólver, mas sim do risco iminente de desmascaramento. O perigo real reside no intelecto: o espectador prende a respiração torcendo para que Lonnegan não note as falhas na encenação dos golpistas.
Outro grande trunfo da obra reside na extraordinária química entre Paul Newman e Robert Redford, reunidos pela segunda vez após o estrondoso sucesso de Butch Cassidy (1969). Sob a batuta de Hill, a dupla atinge o ápice do carisma cinematográfico, estabelecendo um padrão onde o charme se sobrepõe ao heroísmo tradicional. Gondorff e Hooker são criminosos e trapaceiros movidos por interesses próprios; no entanto, a audiência é irremediavelmente seduzida a torcer por eles. Visualmente, a produção opera o conceito de “nostalgia estilizada”. A Chicago de 1936, durante a Grande Depressão é recriada de forma idealizada e romântica. Esse universo ganha vida através do design de figurinos de Theadora Van Runkle, cujos ternos risca-de-giz impecáveis, chapéus fedora milimetricamente posicionados e suspensórios desenham a silhueta clássica do gângster elegante.

A direção de fotografia de Robert Surtees complementa essa atmosfera ao utilizar lentes especiais e uma paleta de cores em tons pastéis e envelhecidos, que evocam o visual do Technicolor da antiga Hollywood. Os cenários, que variam de trens de luxo a galpões clandestinos enfumaçados, possuem uma qualidade deliberadamente cenográfica, reforçando a ideia de que todo aquele mundo é um grande palco onde os personagens encenam suas farsas. Esse espetáculo visual e narrativo encontrou seu ritmo definitivo na trilha sonora de Marvin Hamlisch. O compositor tomou a decisão anacrônica de resgatar o gênero musical ragtime do início do século XX, especificamente as composições de Scott Joplin escritas por volta de 1902. A faixa “The Entertainer”, executada ao piano, transformou-se no tema onipresente do longa. Embora a música pertença a uma geração anterior à ambientação do filme, seu ritmo saltitante, lúdico e malicioso capturou com perfeição o espírito da malandragem urbana. A trilha funciona como um maestro invisível, ditando o andamento das trapaças e desarmando o peso dramático do crime, transformando as infrações legais dos protagonistas em uma coreografia divertida e altamente artística.
O impacto cultural e técnico dessa obra-prima foi definitivamente coroado no Oscar de 1974. Em uma das disputas mais emblemáticas da história da Academia, o escapismo luminoso e impecável de George Roy Hill enfrentou o terror visceral, sombrio e revolucionário de O Exorcista. O triunfo de Golpe de Mestre, que recebeu dez indicações e conquistou sete estatuetas, incluindo as principais de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original; sinalizou a reverência da indústria pela perfeição artesanal da Hollywood clássica. Por fim, o longa estabeleceu o molde definitivo para o cinema de assalto moderno, servindo como matriz genética para produções contemporâneas como a franquia Onze Homens e um Segredo.

Ficha Técnica

Título Original: The Sting
Título no Brasil: Golpe de Mestre

Produção

  • Direção: George Roy Hill
  • Roteiro: David S. Ward
  • Produção: Tony Bill, Michael Phillips, Julia Phillips
  • Estúdio/Distribuição: Universal Pictures
  • País: Estados Unidos
  • Idioma Original: Inglês
  • Duração: 129 minutos Elenco Principal
  • Paul Newman Henry Gondorff
  • Robert Redford – Johnny Hooker
  • Robert Shaw – Doyle Lonnegan
  • Charles Durning – Tenente William Snyder
  • Eileen Brennan – Billie
  • Harold Gould – Kid Twist
  • Ray Walston – J.J. Singleton
  • Dana Elcar – Fred Niles

Equipe Técnica

  • Fotografia: Robert L. Surtees
  • Montagem: William Reynolds
  • Direção de Arte: Henry Bumstead, James W. Payne
  • Figurino: Edith Head, Theadora Van Runkle
  • Trilha Sonora: Marvin Hamlisch | Baseado em músicas de Scott Joplin, como “The Entertainer” e “Solace”

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