Adilson Santos

Certamente que algumas vozes atravessam gerações encantando a infância de todos. Assim podemos nos referir à lembrança do talento de Orlando Drummond Cardoso (1919–2021), um dos maiores expoentes da dublagem e da dramaturgia brasileira. Sua trajetória é marcada por uma longevidade rara e uma versatilidade que atravessou gerações, tornando-se uma figura onipresente na cultura popular do Brasil. Com um domínio técnico impecável e uma capacidade de interpretação única, ele deu vida a personagens que moldaram a infância de milhões. Sua voz está intrinsecamente ligada a personagens inesquecíveis como Scooby-Doo, o marunheiro Popeye, e o Alf, o ETeimoso so para citar alguns. Cada interpretação trazia uma camada de humor e carisma que elevava o material original, consolidando a “Escola Brasileira de Dublagem” como uma das melhores do mundo. Além da dublagem, Orlando teve uma carreira sólida na televisão e no rádio. Sua atuação mais icônica na frente das câmeras foi o personagem Seu Peru, na Escolinha do Professor Raimundo. Com seu jeito extravagante, bordões memoráveis e uma energia contagiante, ele trouxe leveza e humor à televisão brasileira durante décadas.

Ainda podemos ouvir sua voz como o maléfico vilão Vingador da animação Caverna do Dragão (1985), o bonachao Sargento Garcia da serie Zorro (1957/1959) ou o heroísmo e determinação do Comissário Odo em Star Trek Deep Space Nine (1994/2001). Cada um desses trabalhos atestam a versatilidadr e a plasticidade de Orlando de transmitir emoção tornando o microfone um canal para acessar nossa memória afetiva. Orlando fez o desenho do Hong Kong Fu (1974), Oliver Hardy de O Gordo & O Magro (Vários filmes), George Gaynes (Loucademia de Policia), Bionicao, Gene Hackman em O Destino do Poseidon (1972), o mordomo Max (Lionel Stander) em Casal 20 (1979/1984), o engenheiro Scottty (James Doohan) em quatro dos seis filmes da franquia Star Trek, o inventor Q (Desmond Lewelyn) em vários filmes da franquia 007, Pacato / Gato Guerreiro em He Man & Os Mestres do Universo (1985), e muito muito mais. Drummond começou sua trajetória artística no rádio, veículo fundamental para o desenvolvimento de sua técnica vocal. Sua transição para o teatro e posteriormente para a TV demonstrou a amplitude de seu talento, sempre mantendo a simplicidade e a dedicação ao ofício.

O legado de Orlando Drummond vai muito além de seus personagens. Ele representou o profissionalismo, a resiliência e a paixão pelo ato de comunicar. Em seus últimos anos, recebeu inúmeras homenagens, inclusive a nomeação como cidadão carioca e homenagens emocionantes de colegas de profissão que o viam como uma verdadeira enciclopédia viva da dublagem nacional. Ele nos deixou em 2021, aos 101 anos, mas sua voz continua a ecoar nas memórias afetivas de todo o país, provando que o talento, quando aliado ao carisma, é imortal.
