Marcelo Kricheldorf

O lançamento de Creed: Nascido para Lutar (2015), dirigido por Ryan Coogler, representou um marco na história recente do cinema de entretenimento e, especificamente, na épica franquia iniciada por Sylvester Stallone em 1976. Longe de ser apenas mais uma sequência caça-níqueis ou um exercício de nostalgia, o longa-metragem alcançou o que muitos críticos julgavam impossível: dar novos ares a uma narrativa de quatro décadas sem sacrificar a sua essência dramática. Sob o comando de Coogler, o arquétipo do herói que luta contra o sistema e contra as próprias limitações; foi profundamente atualizado para refletir as complexidades socioeconômicas, culturais e existenciais de uma nova geração. O filme estabelece um diálogo maduro entre o passado cinematográfico e a urgência do cinema contemporâneo, provando que a reiteração de um mito pode caminhar de mãos dadas com a inovação estética.
A estrutura narrativa do longa baseia-se em uma busca por origens que se desdobra em uma jornada de autoafirmação. A trama acompanha Adonis Johnson, interpretado com intensidade por Michael B. Jordan, um jovem que carrega o DNA de Apollo Creed, o lendário campeão dos pesos-pesados e antigo rival e amigo de Rocky Balboa. Fruto de um relacionamento extraconjugal, Adonis passa a infância entre lares adotivos e reformatórios até ser resgatado por Mary Anne Creed, a viúva de seu pai. Criado em um ambiente de extremo luxo em Los Angeles, o jovem é assombrado por um vazio existencial e por uma inclinação incontrolável para o boxe. Ao abandonar um emprego promissor no mercado financeiro, Adonis rompe com o conforto e viaja para a Filadélfia. O objetivo não é apenas aprender a boxear, mas recrutar Rocky Balboa como seu mentor. A narrativa assume, então, uma estrutura de espelhamento: enquanto o jovem pugilista luta para construir um futuro nos ringues, o velho campeão enfrenta uma batalha silenciosa e biológica contra um câncer, unindo as duas gerações na mesma lona do sofrimento e da superação.
Essa premissa estabelece o conflito central do filme, focado no peso do legado e na construção da identidade através do nome “Creed”. Durante a maior parte do filme, o protagonista rejeita o sobrenome paterno, preferindo lutar sob a identidade de Adonis Johnson. Essa escolha revela um profundo trauma psicológico; para ele, o nome Creed não representa glória, mas sim o fantasma de um pai ausente que morreu no ringue antes de seu nascimento e o estigma de que qualquer sucesso seu seria fruto de privilégio ou jogada de marketing. O sobrenome é um fardo que o sufoca. A jornada do herói consiste, portanto, na transição do medo da fraude para a apropriação legítima de sua linhagem. Quando Adonis finalmente aceita vestir o calção com as cores da bandeira americana, marca registrada de Apollo; ele não está se submetendo passivamente ao passado, mas reescrevendo o significado daquele nome sob os seus próprios termos, transformando a herança de sangue em uma conquista individual.

No coração emocional dessa trajetória está a dinâmica de mentoria entre Rocky Balboa e Adonis, que subverte os tropos tradicionais do gênero ao introduzir a vulnerabilidade mútua. O Rocky que Coogler nos apresenta é uma figura melancólica e crepuscular, um homem que já sepultou sua esposa Adrian, seu cunhado Paulie e seu grande amigo Apollo, vivendo na rotina do cotidiano e gerenciando seu pequeno restaurante. A chegada de Adonis funciona como um catalisador de vitalidade para o velho lutador. Há uma passagem de bastão que transcende o ensinamento técnico do passado; trata-se de uma transferência de razões para viver. Quando Rocky adoece, o filme opera uma inversão crucial de papéis: o jovem pupilo assume o papel de sustentáculo emocional do mentor debilitado. O ringue expande seus limites metafóricos e o câncer se torna o oponente mais implacável da vida de Rocky. Ao mostrar o “Garanhão Italiano” desprovido de sua indestrutibilidade física, o roteiro humaniza o mito, ancorando a força de Rocky não mais nos seus punhos, mas na sua capacidade de demonstrar afeto e resiliência diante da finitude.
Essa profundidade dramática ganha suporte em uma revolução da linguagem visual do boxe, orquestrada por Ryan Coogler e pela diretora de fotografia Maryse Alberti. O filme afasta-se dos clichês estéticos do gênero, caracterizados por cortes rápidos, câmeras tremidas e uma montagem que emula transmissões televisivas de Las Vegas. Em vez disso, a direção adota uma abordagem de intimidade visceral. O ápice técnico e narrativo dessa escolha manifesta-se na primeira luta profissional de Adonis na Filadélfia, filmada inteiramente em um único plano-sequência que abrange dois assaltos completos. Sem cortes visíveis, a câmera flutua ao redor dos atletas, penetra na guarda dos lutadores e capta cada gota de suor, sangue e respiração ofegante. Essa proeza técnica remove a distância segura entre o espectador e a violência do ringue, imergindo o público na claustrofobia, no cansaço extremo e no perigo iminente de cada golpe. O plano-sequência deixa de ser um mero exibicionismo estético e torna-se uma ferramenta de empatia sensorial.
Além da inovação técnica, Creed se destaca pela agudeza com que aborda questões de raça, classe e representatividade urbana contemporânea.
A música, tradicionalmente um pilar fundamental da franquia, é ressignificada por Ludwig Göransson para atuar como uma verdadeira personagem que traduz esse choque e fusão geracional. Coogler toma a decisão corajosa e calculada de poupar o tema clássico de Bill Conti, “Gonna Fly Now”, durante quase toda a projeção. Evitando o tradicional, o filme embala a solidão e o esforço de Adonis nas batidas pesadas do hip-hop e do R&B contemporâneos. A identidade sonora do jovem é construída de forma independente. No entanto, no clímax da luta final em Liverpool, quando Adonis precisa buscar forças no fundo de sua alma, a trilha sonora opera uma simbiose magistral: os arranjos modernos de rap entrelaçam-se sutilmente com os metais triunfantes da fanfarra original de 1976. Esse encontro musical espelha o ápice da própria narrativa, onde o novo absorve o velho, não por destruição, mas por incorporação respeitosa.
O equilíbrio entre reinventar a franquia e honrar o seu passado é o maior trunfo do roteiro escrito por Coogler e Aaron Covington. O universo clássico está presente em cada esquina; na fachada desgastada da academia Mighty Mick’s, na estátua de bronze nos degraus do Museu de Arte da Filadélfia e na clássica e cômica perseguição às galinhas como método de treino. Contudo, nenhum desses elementos surge de forma gratuita. Eles são ressignificados para servir ao arco dramático de Adonis. Coogler demonstra uma compreensão profunda de que, para manter uma franquia viva após quarenta anos, é necessário abandonar o apego à repetição de fórmulas e focar na manutenção da verdade emocional dos personagens. O filme não tenta emular a glória de Rocky; ele utiliza a projeção da sombra dessa glória para iluminar o nascimento de um novo ícone cultural.
No aspecto temático, o longa-metragem propõe uma oportuna desconstrução do mito do herói infalível, frequentemente associados aos filmes de ação e esportes. A relação estabelecida entre Adonis e Rocky fundamenta-se no afeto, no cuidado mútuo e na aceitação da vulnerabilidade; seja a fragilidade de um jovem que clama pelo amor de um pai que nunca conheceu, seja a decadência física de um idoso que encara a proximidade da morte.
Por fim, o clímax e o desfecho de Creed consolidam sua grandeza ao abraçar um final onde a derrota esportiva se converte em vitória existencial. Na disputa pelo título mundial contra o campeão ‘Pretty’ Ricky Conlan, Adonis é castigado fisicamente, sofre cortes profundos e é levado ao limite do nocaute. Em uma rima narrativa perfeita com o filme de 1976, Adonis resiste até o décimo segundo assalto, deixando a decisão nas mãos dos juízes, que concedem a vitória a Conlan por pontos. A aparente derrota no papel, contudo, é insignificante diante do triunfo humano que ocorre no ringue. Ao se levantar da lona após um nocaute quase definitivo no último assalto, Adonis responde à dúvida metafísica que o consumia desde a infância: ele prova a si mesmo, ao mundo e à memória de seu pai que ele não é um erro ou um acidente da história. Ele conquista o direito de ocupar aquele espaço e de carregar o nome Creed. O plano final do filme, que mostra Rocky e Adonis subindo juntos as escadarias da Filadélfia, com o velho campeão agora debilitado e apoiando-se no vigor do jovem para contemplar o horizonte; sela de forma definitiva a passagem de bastão. O título mundial não veio, mas a identidade e a dignidade foram plenamente conquistadas.
Ficha Técnica: Creed.(2015)
Produção
- Título Original: Creed
- Título no Brasil: Creed: Nascido para Lutar
- Direção: Ryan Coogler
- Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington
- História: Baseada nos personagens criados por Sylvester Stallone
- Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff, Sylvester Stallone, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Kevin King Templeton
- Estúdio/Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer / Warner Bros. Pictures
- País: Estados Unidos
- Idioma Original: Inglês
- Duração: 133 minutos | 2h13min
Elenco Principal
- Michael B. Jordan – Adonis “Donnie” Creed
- Sylvester Stallone – Rocky Balboa
- Tessa Thompson – Bianca
- Phylicia Rashad – Mary Anne Creed
- Tony Bellew – Ricky Conlan
- Graham McTavish – Tommy Holiday
Equipe Técnica
- Fotografia: Maryse Alberti
- Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver
- Direção de Arte: Clay A. Griffith
- Figurino: Leah Butler
- Trilha Sonora: Ludwig Göransson | Tema principal: “Mountains”
- Canção Tema: “Last King” – Future