CLÁSSICO REVISITADO | MOBY DICK – 70 ANOS

Paulo Telles

Em 1851, o escritor e dramaturgo Herman Melville (1819-1891) publicou um dos romances mais famosos de todos os tempos, Moby Dick. Em 1926, surgiu a primeira versão cinematográfica do livro, com o título de A Fera do Mar (The Sea Beast), dirigido por Millard Webb (1893-1935) e com John Barrymore (1882-1942) como o atormentado Capitão Ahab, ainda na fase do cinema mudo. Quatro anos depois, em 1930, o mesmo Barrymore repetiria o papel em outra versão da história, agora com o título fiel ao romance, Moby Dick (Moby Dick), dirigido por Lloyd Bacon (1889-1955). Porém,  em 1943, a Warner, produtora das duas adaptações com Barrymore, queria produzir uma nova versão, com direção de Lewis Millestone, e com Errol Flynn como Ahab, mas o projeto não andou. Entretanto, o gigantesco cetáceo albino foi o “pesadelo” de muito tempo para o cineasta John Huston (1908-1987) desde que leu o livro na juventude. A obsessão de Ahab em capturar a baleia parece encontrar paralelo com a do diretor, que sonhou em levar sua versão cinematográfica e colocar seu pai, o ator Walter Huston, (1884-1950) no papel do insensato capitão dos mares. Em 1953, John Huston convenceu a mesma Warner a bancar sua superprodução. Como Walter Huston já havia falecido, o cineasta pensou em seu velho amigo e colaborador Humphrey Bogart para interpretar Ahab, mas Boggie estava sob contrato com a Paramount e não poderia estrelar o filme.

Leo Genn e Gregory Peck

Desta forma, o escolhido foi o galã Gregory Peck (1916-2003) para desempenhar uma figura atormentada, amargurada, e psicótica, e Huston aprovou esta escolha por conta própria. Peck deixou a barba crescer, para interpretar uma figura grotesca, contrastando com o bom moço apresentado nas telas. Além de ser um grande épico de aventuras, a versão de MOBY DICK (Moby Dick, 1956) de John Huston, assim como o romance original, é uma metáfora da luta do homem contra o imponderável, ou como alguns creem e dizem, contra Deus… ou o desconhecido. Huston se encarregou do próprio roteiro junto ao escritor de ficção-científica Ray Bradbury (1920-2012), onde ao longo da narrativa se abusa de símbolos e monólogos, revelando aos poucos a personalidade obsessiva de Ahab, compartilhada por experiências cromáticas do diretor e do fotógrafo Oswald Morris (1915-2014).

Richard Basehart (Almirante Nelson de Viagem ao Fundo do Mar) como Ishmael, o sobrevivente da tripulação

O cineasta e ator Orson Welles (1915-1985) manifestou desejo de interpretar o personagem central para Huston, mas este recusou a ceder o papel que já era de Gregory Peck. Em tom de brincadeira, alegou para Welles, já acima do peso, que não haveria espaço para “duas baleias em seu filme”. Sem querer ser descortês para com o amigo, Huston deu ao cineasta a parte do Reverendo Mapple, com breve participação. A dramatização descreve a odisseia do navio “Pequod”, que deixa em 1841 o porto de New Bedford, Massachusetts, sob o comando de Ahab, uma figura titânica que obstinadamente se entrega a busca da baleia branca de nome Moby Dick, que lhe “roubou uma perna”, símbolo metafísico da divindade, força onipresente e escravizam-te, em que o capitão vê um maligno ser racional a atormentar a raça humana. O duelo maniqueísta da novela original, redigida em prosa bíblica- Shakespeariana, é transposto para o cinema em todas as suas nuances de blasfêmias e tragédias. Richard Basehart (1914-1984) interpreta Ishmael, o marinheiro do “Pequod” que acabou afundado e único sobrevivente do ataque da baleia a embarcação, sendo ele o narrador dos fatos. O maravilhoso Leo Genn (1905-1978) é o imediato Starbuck, que receia pelo comportamento de Ahab e teme pela vida de seus marinheiros.

Reunião de bastidores: Gregory Peck entre Richard Basehart, Harry Andrews e Edric Connors

A TRAMA. No ano de 1841, em New Bedford, Massachusetts, Ishmael (Richard Basehart, em papel planejado para Montgomery Clift) chega ao ancoradouro com o objetivo de embarcar num baleeiro. Numa estalagem, encontra alguns membros da tripulação do “Pequod“, e reparte seu quarto com um selvagem, Queequeg (Friedrich Ledebur, 1900-1986). Os dois ficam amigos e decidem se engajar na embarcação. No domingo antes da partida, os marujos ouvem o sermão do reverendo Mapple (Orson Welles), comentando a história bíblica de Jonas. Após o culto, Ishmael e Queequeg deparam com um estranho homem (Royal Dano, 1922-1994) que se intitula “Elias”, uma alusão ao profeta do Antigo Testamento; que em tom apocalíptico alerta aos dois sobre um titânico monstro dos mares.

Gregory Peck, Leo Genn e o fotógrafo Oswald Morris

Na manhã seguinte, o Capitão do “Pequod”, Ahab (Gregory Peck), manda seu primeiro imediato, Starbuck (Leo Genn), reunir a equipagem e comunica a todos que procura uma baleia branca chamada Moby Dick, oferecendo ouro ao primeiro homem a avistá-la. Após matarem um cardume, Ahab diz a Starbuck ter certeza de que Moby Dick aparecerá perto do arquipélago de Cabo Verde. Starbuck percebe que o Capitão somente está interessado em se vingar da baleia que o aleijara de uma perna, prevenindo-o contra seu ódio desmesurado. Queequeg tem uma premonição de morte e pede ao carpinteiro de bordo que lhe faça um caixão. Seguindo as pistas fornecidas por Moby Dick, de outros navios, Ahab depara com Moby Dick, e quatro botes saem em sua perseguição. A baleia os ataca, estraçalhando-os. Ahab consegue ferir Moby Dick, mas as cordas do arpão enroscam-se no seu corpo e ele mergulha e volta à superfície sucessivas vezes, preso à baleia. Starbuck ordena aos homens dos botes remanescentes que continuem a luta, porém o animal vem de novo à tona, destrói os pequenos barcos e sobre o “Pequod“, afundando-o. Apenas Ishmael sobrevive, nadando para longe do imenso redemoinho, agarrado ao caixão de Queequeg.

Orson Welles como o Reverendo Maple

Rodado ao longo de 8 meses em Youghal (passando por New Bedford), na Irlanda, País de Gales e fora da costa do arquipélago das Canárias e da ilha da Madeira, o filme evoca o estilo das antigas estampas românticas com motivos marítimos. Estendendo as experiências cromáticas de Moulin Rouge(1952), Huston e Oswald Morris matizaram deliberadamente a cor, por meio de um processo novo no Cinema. Tempos depois, o o cineasta declarou: “Morris e eu encaramos três problemas — 1) queríamos realismo, mas a atmosfera geral teria de ser algo próximo da fantasia; 2) como o enredo era uma história de aventura sobre homens que levam uma vida árdua em minúsculos veleiros combatendo baleias gigantescas, nosso enfoque fotográfico não poderia ser “suave”; 3) queríamos sugerir a época. A solução residia no uso de tons — a cor estaria presente, mas esperávamos que tons contrastantes resolvessem nos três problemas, especialmente se conseguíssemos usar a cor para acentuar os tons. Filmamos Moby Dick em Technicolor. Do filme colorido tiramos dois jogos de negativos — um a cores, como normalmente; e um em preto e branco. Os dois negativos foram sobrepostos e fundidos. O acréscimo do preto e branco à cor primária é um processo conhecido de todos os impressores de livros e revistas, mas nunca havia sido utilizado em filmes“.

Herman Melville, o autor da obra, e Gregory Peck como Capitão Ahab

Para alcançar o efeito desejado, Huston e Morris trancaram-se meses nos laboratórios, o que retardou bastante o lançamento. A incorporação dos elementos fantásticos por via dos truques fotográficos assume incomparável eloquência na maravilhosa cena em que Ahab acalma uma borrasca. (Professor A. C. Gomes de Mattos e Sérgio Leemann.  Huston – Lubistich – Zinnemann. Editora Brasil – América EBAL. 1985) Outro ponto triunfante do filme é o script que o diretor Huston redigiu com o escritor e roteirista de ficção científica Ray Bradury, que deu a adaptação uma atmosfera anárquica e apocalíptica, isentando completamente toda humanidade de Ahab, fugindo dos propostos do romance original. John Huston sempre frisou ao longo da carreira gostar muito do filme e de figurar entre suas obras mais magistrais, assim como também sempre considerou uma injustiça as críticas à atuação de Gregory Peck. “Pessoalmente, acho que Peck deu uma dignidade soberba ao personagem. Ele revelou a obsessão de Ahab através de palavras ditas suavemente, numa perturbadora, controlada intensidade de pensamento e ação, como se sua alma tivesse sido trespassada por um relâmpago. Nada tem a ver com o bombástico e desvairado psicótico do livro nem com o retrato eternamente lembrado pelos fãs de John Barrymore“. Independendo de qualquer crítica a sua interpretação, o fato é que Peck demonstrou grande coragem, pois as sequências mais perigosas deveriam ser feitas sem recursos de dublês por causa dos Close-Ups. A baleia era, na verdade, um enorme cilindro, ajustado para girar numa marcha continua e havia o perigo da engrenagem parar enquanto o ator tivesse submerso.

Gregory Peck arriscando a vida sem dublês no climax da história

MOBY DICK foi rodado durante oito meses em 1954 nas costas irlandesas de Youghal e Fishguard, na Ilha da Madeira e nos Açores, estreando apenas dois anos depois, isto porque Huston e o fotógrafo Oswald Morris (que também colaborou para o diretor em Moulin Rouge, em 1952) pesquisaram um novo estilo cromático de fotografia, mesclando negativos coloridos e em preto & branco, gastando meses nesse trabalho até obter um efeito pictórico, então inédito na época. MOBY DICK é o relato de uma espantosa caçada a uma fera do mar e um estudo áspero dos abismos profundos que a mente humana pode abrigar. Cheia de labirintos filosóficos, recordações históricas, arcaísmos e ensinamentos citológicos, trazidos do próprio livro de Melville. A princípio, esta obra prima do Mestre John Huston provoca aquela reação de enfadonho no espectador justamente pele mensagem um tanto filosófica, espectador este que busca apenas aventura e diversão. No entanto, seu impacto pictórico é tremendo e absorvente, quase superando o fator negativo que é o diálogo difícil.

Royal Dano – O fanático Elias

Mas MOBY DICK de 1956 tem passagens antológicas que devem ser destacadas, entre elas a morte de Ahab, emaranhado nas costas dos arpões que penetravam nas carnes do gigantesco cetáceo. O filme é uma realização de extraordinária beleza fotográfica e sucesso de público e bilheteria, que o espectador comum possa achar cansativo, mas que é imperativo para uma elite cultural relevante, que vê no cinema além de ação e aventura: a pura arte do entretenimento. A Título de curiosidade, o livro de Melville teve uma adaptação para a TV em forma de minissérie em 1998, dirigido por Franc Roddam, tendo participação de Gregory Peck como o Reverendo Mapple, papel de Orson Welles na versão cinematográfica de 1956.

Divulgação do filme nos cinemas do Rio de Janeiro exibido na cidade por volta de 1957

FICHA TÉCNICA (Moby Dick)
País – Inglaterra/Irlanda
Ano – 1956
Gênero – Drama/Aventura
Direção – John Huston
Produção – John Huston e Vaughan N. Dean para a Warner Brothers
Roteiro – John Huston e Ray Bradbury
Música – Philip Sainton
Fotografia – John Huston e Oswald Morris, em Cores
Metragem – 116 minutos.
ELENCO
Gregory Peck – Capitão Ahab
Richard Basehart – Ishmael
Leo Genn – Starbuck, o imediato
James Robertson Justice – Capitão Boomer
Orson Welles – Reverendo Mapple
Harry Andrews – Stubb
Bernard Milles – Manxman
Royal Dano – Elias
Noel Purcell – Carpinteiro
Edric Connor – Dubb
Melvyn Johns – Peleg
Friedrich Ledebur – Queequeg
Joseph Tomelty – Peter Coffin
Francis De Wolff – Capitão Gardiner
Seamus Kelly – Flask

Gregory Peck como o Reverendo Maple no remake pata TV de 1998

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