HQ TERRITÓRIO NEUTRO | OMNIBUS CONAN O BÁRBARO : ERA MARVEL #1

Leandro Banner

Quando a Panini Comics finalmente anunciou o lançamento do omnibus de CONAN, O BÁRBARO no Brasil, muita gente viu ali uma mudança histórica de postura da editora. Durante anos, a Panini repetiu que o formato omnibus era inviável para o mercado brasileiro — fosse pelo custo de produção, pelo preço final ou pelo suposto público limitado. No entanto, o sucesso crescente de edições de luxo e a insistência dos leitores acabaram provando justamente o contrário. Assim, a chegada do Omnibus CONAN, O BÁRBARO – A ERA MARVEL #1, em 2020, representou não apenas a publicação de um clássico absoluto dos quadrinhos, mas também a consolidação definitiva do formato no país. A edição brasileira impressiona logo de início pelo acabamento. O volume robusto, capa dura resistente e, principalmente, o uso de papel offset de boa gramatura demonstram um cuidado muito superior ao que normalmente se vê em materiais extensos. A escolha do offset foi particularmente acertada, preservando melhor os traços clássicos e evitando o brilho excessivo do papel couché, que frequentemente prejudica a reprodução de artes mais antigas. O preto ganha profundidade, as texturas aparecem com maior naturalidade e a leitura se torna visualmente mais confortável. Mas o grande mérito da obra está no conteúdo histórico e artístico. O omnibus reúne a fase inicial de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith nessa primeira leva de títulos logo após a Marvel conseguir adquirir os direitos de publicação do personagem criado por Robert E. Howard (a história da obtenção dos direitos de publicação – que não foi tão simples – é detalhada pelo próprio Thomas na introdução do volume), uma parceria fundamental não apenas para o sucesso de Conan nos quadrinhos, mas para a própria consolidação da fantasia heroica nas HQs americanas no começo dos anos 1970.

Roy Thomas compreendeu algo essencial sobre o bárbaro surgido na pulp Weird Tales em 1932: Conan jamais poderia funcionar apenas como um bárbaro brutal e genérico. Howard havia criado um protagonista complexo, selvagem, mas inteligente, melancólico, astuto e movido por um código moral muito próprio. Thomas captou perfeitamente essa essência e expandiu o universo hiboriano de forma respeitosa e ambiciosa. Um dos aspectos mais fascinantes dessa fase é justamente a tentativa de organizar cronologicamente a vida de Conan. Como Howard escreveu contos espalhados em diferentes períodos da trajetória do personagem, havia inúmeras lacunas narrativas, e Roy Thomas utiliza essas brechas para criar aventuras inéditas que conectam os eventos originais, oferecendo uma sensação de continuidade épica quase inédita para a época. O resultado é um grande mosaico da vida do cimério: ladrão, mercenário, pirata, guerreiro e, futuramente, rei. Essa construção cronológica dá ao leitor a impressão de acompanhar verdadeiramente o amadurecimento de Conan. Diferente de muitos heróis estáticos dos quadrinhos americanos, Conan evolui constantemente. Cada aventura acrescenta cicatrizes físicas e emocionais, ampliando a dimensão mitológica do personagem. Desta feita, Roy Thomas, que nunca foi nada além de um roteirista mediano (ainda que pertença a uma época em que possa ser classificado como uma “lenda viva”), tem aqui o melhor momento de sua carreira, criando histórias interessantes e boas adaptações dos contos de Howard em ordem cronológica. Visualmente, Barry Windsor-Smith entrega um trabalho monumental. Nos primeiros números, sua arte ainda demonstra forte influência de Jack Kirby, algo bastante perceptível nas anatomias exageradas e na narrativa dinâmica. Porém, rapidamente Windsor-Smith desenvolve identidade própria em sua arte, que vai experimentando uma gradativa e substancial evolução ao longo das edições, acompanhado predominantemente por Sal Buscema na arte-final e também por outros grandes nomes dos quadrinhos na época, e alça o desenhista britânico ao patamar de um dos artistas mais sofisticados da história das HQs. Seu Conan é menos um brutamontes super-heroico e mais uma figura quase selvagem, magra, perigosa e animalística. Os cenários possuem riqueza ornamental impressionante, enquanto as composições evocam ilustrações clássicas de fantasia e literatura pulp. Há uma preocupação estética muito acima da média das HQs comerciais da época. Em vários momentos, as páginas parecem verdadeiras gravuras medievais misturadas com arte psicodélica setentista.

Além disso, Windsor-Smith entende perfeitamente a atmosfera de espada e feitiçaria. Seus monstros parecem grotescos e ancestrais; as ruínas carregam sensação de decadência histórica; as batalhas possuem brutalidade seca e física. Existe um senso constante de aventura sombria que diferencia Conan de praticamente qualquer título da Marvel daquele período. A edição brasileira também merece elogios pelos extras abundantes. Há capas clássicas, textos históricos, materiais promocionais e conteúdos editoriais importantes para contextualizar a importância da série. Contudo, é justamente aí que surge a principal controvérsia do lançamento: parte significativa desses extras veio sem tradução.😖🤬😡 A decisão provocou enorme revolta entre os leitores brasileiros — e com razão. Em uma edição premium, cara e vendida como produto definitivo, espera-se tratamento editorial completo e adequado. Muitos compradores consideraram desrespeitoso pagar por um material de luxo contendo textos extensos inacessíveis para quem não domina inglês. O problema se tornou ainda mais evidente porque os extras possuem enorme valor histórico, trazendo comentários editoriais, bastidores e análises fundamentais para compreender o impacto cultural da obra. Isso em si não destrói a qualidade da edição, mas representa uma importante e considerável falha editorial, especialmente porque o público de omnibus costuma valorizar profundamente contextualização histórica e material complementar. Traduzir integralmente esses conteúdos teria transformado a publicação em algo praticamente definitivo e irretocável, além de qualquer reproche. Não obstante o tremendo vacilo do material extra não traduzido, o saldo final permanece extremamente positivo. O omnibus CONAN, O BÁRBARO – A ERA MARVEL é uma celebração de uma era criativa extraordinária da Casa das Ideias, quando experimentação artística e narrativa conviviam dentro do mercado mainstream. É também uma homenagem à força duradoura do personagem de Robert E. Howard, cuja influência atravessa literatura, cinema, RPGs, games e quadrinhos há quase um século.

Esse volume do Omnibus CONAN, O BÁRBARO – A ERA MARVEL #1 reúne as seguintes adaptações da obra de Robert E. Howard:

A Filha do Gigante de Gelo (The Frost-Giant’s Daughter), adaptada em Conan The Barbarian #1. Esta história teria uma republicação da forma como fora originalmente concebida (sem as amarras do famigerado Comics Code Authority), em THE SAVAGE SWORD OF CONAN, o outro título do bárbaro de bronze com formato maior (magazine) e histórias mais adultas em preto e branco;

O Deus na Urna (The God in the Bowl), adaptada em Conan The Barbarian #7.

A Torre do Elefante (The Tower of the Elephant), adaptada em Conan The Barbarian #4. Essa história também seria recontada por Roy Thomas em THE SAVAGE SWORD OF CONAN, dessa vez com desenhos de John Buscema, porque Thomas não havia ficado satisfeito com essa sua primeira adaptação do conto no título de linha de Conan;

O Colosso Negro (Black Colossus), adaptada em Conan The Barbarian #2 e #3.

Sombras ao Luar (Shadows in the Moonlight), adaptada em Conan The Barbarian #20 e #21.

O Vale das Mulheres Perdidas (The Vale of Lost Women), adaptada em Savage Tales #4

Na história A Sombra do Abutre (The Shadow of the Vulture), adaptada em Conan The Barbarian #23, tem-se a primeira aparição de RED SONJA nos quadrinhos, uma personagem que não existia na Era Hiboriana de Robert E. Howard. Entretanto, com o intuito de criar uma contraparte feminina de Conan, Thomas e Windsor-Smith transformaram a guerreira ucraniana renascentista do século XVI RED SONYA OF ROGATINO, do conto homônimo escrito por Howard, em RED SONJA, guerreira originária da Hirkânia, que no início cruzava eventualmente o caminho do Bárbaro de Bronze, e depois acabou ganhando título próprio em função do seu sucesso. Em Conan The Barbarian #25, já no final da edição, temos a estreia de JOHN BUSCEMA como desenhista regular da série, iniciando assim sua jornada naquele que se tornou seu trabalho favorito nas HQs, e falaremos mais disso oportunamente!😉 Ao fim e ao cabo, mais do que apenas republicar histórias antigas, o primeiro volume do omnibus de Conan da era Marvel resgata um momento em que fantasia heroica possuía senso genuíno de maravilhamento, perigo e brutalidade. E talvez seja exatamente isso que torna Conan eterno, uma vez que o personagem representa um mundo selvagem, cruel e misterioso, onde civilizações caem, monstros espreitam nas sombras e a sobrevivência depende tanto da espada quanto da astúcia. Uma material muito bom e que vale o investimento!

Vida longa e próspera e até a próxima!

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