CINE BRASIL | BAIXIO DAS BESTAS VOLTA AS TELAS 20 ANOS DEPOIS

Adilson Santos

Algumas histórias não têm como ser contadas suavizando seu teor pois o único jeito de fazer do filme um alerta ou crítica ácida no ponto é mostrando o amargo, o desesperançoso e o desumano escondido dos olhos. Assim o diretor pernambucano Claudio Assis optou ao decidir retratar a realidade dura do interior de Pernambuco onde a miséria e a violência não fazem concessões e a prostituição vira comércio. Depois do curta Texas Hotel (1999) e do longa Amarelo Manga (2002), o diretor deixava claro sua intenção de mostrar um espaço de classe baixa onde registram-se comportamentos bizarros, que permitem um vislumbre no ladro podre da alma humana. Baixio das Bestas, segundo longa de Assis, foi eleito melhor filme no Festival de Brasília, completando 20 anos de seu lançamento com sua volta às telas em circuito restrito mas importante para que a obra possa ser redescoberta pelo público de hoje. O drama pernambucano voltou às telonas como parte de uma mostra comemorativa de clássicos do cinema nordestino promovida pela distribuidora Imovision. Na história, Seu Heitor (Fernando Teixeira) explora a neta Auxiliadora (Mariah Teixeira) em um posto abandonado, prostituindo-a entre os caminhoneiros da região. Cícero (Caio Blat) nutre uma paixão protetora pela jovem e decide enfrentar o avô dela para mudar seu destino. O filme não poupa o publico da violência contra o corpo feminino, seja os de prostitutas avacalhadas, seja os de uma ninfeta convertida em objeto para voyeurs. Com essa visão da degradação das pessoas em um ambiente social marcado pela estagnação, Assis cria uma narrativa forte e indigesta proposital para expor a terrível constatação da desumanização em situações sociais complexas. Matheus Natchergale e Marcelia Cartaxo completam o elenco que se entrega a seus papeis de forma corajosa, mesmo que a confrontação seja desconfortável e inevitável.

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