Leandro Banner

A saída prematura de John Byrne do título THE INCREDIBLE HULK deixou a revista em uma posição bem delicada. Byrne havia iniciado uma série de mudanças na mitologia do Hulk, resgatando conceitos e personagens clássicos e propondo uma nova abordagem para Bruce Banner e seu alter ego. Coube então a AL MILGROM assumir a difícil tarefa de dar continuidade ao título a partir de THE INCREDIBLE HULK #320, acumulando as funções de roteirista e desenhista e, ao que tudo indica, aproveitando diversas ideias que já estavam planejadas por seu antecessor. Tempos depois da separação, Hulk e Banner começam a sofrer as consequências do procedimento criado pelo Doutor Samsom e precisam ser reintegrados para viverem. Com isso, tem-se o principal acontecimento dessa fase, que ocorre em IHK #324, quando o Hulk abandona sua aparência verde tradicional e volta a ser cinza. Menor, menos poderoso, surgindo apenas ao anoitecer e, de certa forma, mais selvagem, o Hulk recupera características de suas primeiras aventuras publicadas em 1962, alterando completamente a dinâmica da série. A mudança não apenas diferenciava o personagem visualmente, mas também abria espaço para uma exploração mais efetiva da personalidade fragmentada de Bruce Banner (esclarecendo de antemão que isso NÃO ocorre sob a pena de Milgrom).

Essa nova configuração é logo colocada à prova em THE INCREDIBLE HULK ANNUAL #15, edição escrita por Danny Fingeroth e ilustrada (mais uma vez) por SAL BUSCEMA (sim, ele mesmo😝). O confronto contra o Abominável evidencia de cara as limitações do Hulk cinza, que passa a depender menos da força bruta e mais da inteligência e da estratégia para sobreviver diante de um adversário fisicamente superior. Milgrom permanece nos roteiros em IHK #325, agora acompanhado pelo competente Steve Geiger na arte, parceria que se estende até a edição #327. Nesse pequeno arco de três partes surge um novo Hulk verde, mais alto e magro, que enfrenta o Hulk cinza ainda existente dentro da mente e do corpo de Bruce Banner. Embora a execução seja confusa e abaixo da média, apresenta uma situação intrigante que tenta manter a revista interessante.A edição #328 marca a estreia de PETER DAVID como roteirista da revista, com desenhos de Dwayne Turner. Em uma história autocontida e intimista, Banner enfrenta seus próprios medos e traumas psicológicos, numa narrativa que hoje pode ser vista como um ensaio da abordagem que transformaria o personagem em um dos mais ricos e complexos do universo Marvel. Mesmo sendo apenas uma participação isolada naquele momento, já era possível perceber um olhar muito mais interessado na mente de Banner do que simplesmente em suas explosões de fúria.

Infelizmente, o retorno de Al Milgrom para escrever IHK #329 e #330 evidencia novamente os problemas de sua passagem pelo título. Se no início ainda era possível identificar uma direção herdada de John Byrne, suas últimas histórias transmitem a sensação de um autor sem um planejamento definido e completamente perdido. Os roteiros são fracos e desinteressantes, os conflitos carecem de impacto dramático e as soluções narrativas são frequentemente simplistas, comprometendo o potencial das boas ideias apresentadas anteriormente. Milgrom também não consegue compensar essas limitações com sua arte. Seu traço pode ser algo funcional, mas, mesmo acompanhado de bons arte-finalistas, o resultado é pouco expressivo, com composições ruins, incapaz de transmitir a imponência, o dinamismo e a dramaticidade que sempre caracterizaram as melhores histórias do Gigante Esmeralda. Assim, forma-se uma sequência de aventuras que pode ser considerada uma das mais fracas da história editorial do personagem, ainda que seja responsável por alterações importantes em sua cronologia.Curiosamente, o maior acontecimento da edição #330 não está em seu péssimo roteiro, mas sim na chegada do novo desenhista regular da revista, o então jovem e promissor TODD McFARLANE. Ainda desenvolvendo seu estilo e identidade artística característica, distante do status de superstar que conquistaria poucos anos depois em títulos como The Amazing Spider-Man (principal título do Homem-Aranha) e na criação de Spawn, McFarlane – nesta edição com seu lápis finalizado por Milgrom – já demonstrava um estilo vibrante, cheio de energia, exagero e personalidade(ainda que com uma considerável limitação narrativa em algumas composições), anunciando uma mudança visual significativa para a série.

No Brasil, esse material foi publicado originalmente pela Editora Abril no final da década de 1980 e início dos anos 1990, período em que os leitores acompanharam uma fase de constantes transformações do Hulk. Durante muitos anos essas histórias, que funcionam como transição para a fase de Peter David, permaneceram praticamente esquecidas, até serem finalmente reunidas em formato americano pela Panini Comics no especial HULK: DE VOLTA AO CINZA, lançado em outubro de 2022. Relidas hoje, essas aventuras continuam sofrendo com roteiros inconsistentes, diálogos pouco inspirados e uma condução narrativa irregular. Entretanto, sua importância histórica é inegável pois foi nesse período de transição que nasceram conceitos fundamentais e elementos que seriam refinados e elevados à excelência por Peter David em uma das mais celebradas fases da história do personagem. Em outras palavras, trata-se de uma sequência de histórias artisticamente modesta, mas essencial para compreender a evolução do Hulk, sendo HQs essenciais do personagem não necessariamente por sua qualidade, mas, sim pela ponte estabelecida para o que viria a seguir. No próximo post da série dedicada ao Hulk: o início da fase de Peter David à frente do título do Gigante Cinza ao lado de Todd McFarlane. Não percam! 😁
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻