CLÁSSICO REVISITADO | UMA CILADA PARA ROGER RABBIT

Adilson Santos

Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit?) certamente é um triunfo da sinestésica mistura de live action e animação que impactou a indústria do entretenimento em seu lançamento em 1988. A produção não foi apenas um triunfo técnico, mas também uma reunião então inédita de vários estúdios, Disney, Warner, Paramount e Amblin promovendo uma aventura capaz de mexer com adultos e crianças. Baseado no romance Who Censored Roger Rabbit?, de Gary K. Wolf, a história gira em torno do assassinato de Roger Rabbit, logo no início da história. No livro, Roger Rabbit não trabalha em desenhos animados de cinema, mas é um personagem de tirinhas de jornal (comic strip) com cerca de 1,80m de altura. O detetive Eddie Valiant é contratado para descobrir quem o matou, descobrindo que Jessica Rabbit, uma ex-atriz de tirinhas com um passado complexo que planejava ela própria matar Roger, mas desiste ao ouvir o tiro fatal. No final, o Roger que aparece morto no início era, na verdade, uma cópia/duplicata (doppelgänger) gerada pelo próprio coelho. O verdadeiro Roger cometeu assassinato e planejava incriminar o detetive Eddie Valiant pelo crime. Na adaptação cinematográfica de Jeffrey Price e Peter Seaman, os personagens de quadrinhos transformaram-se em personagens de desenho animado. Roger tornou-se uma vítima inocente de uma trama maior, não morre e forma uma dupla atrapalhada com o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins). O grande vilão do filme é o juiz Doom (Christopher Lloyd) que patrulha a Desenholândia, lar de todos os personagens animados, localizada em uma área da Los Angeles de 1947. O primeiro script data de 1982; só três anos mais tarde, quando os estúdios Disney conseguiram reerguer-se, sob a presidência de Jeffrey Katzenberg, é que o projeto saiu da gaveta, num empreendimento comum da Touchstone/Walt Disney Co. e da Amblin Entertainment/Steven Spielberg.

​Na história, Betty Boop vende cigarros — a ex-estrela está desempregada por ter sido originalmente desenhada em preto-e-branco —; os patos Donald e Patolino duelam ao piano; Dumbo trabalha para ganhar amendoins; Mickey, Pinocchio, Grilo Falante, vaca Clarabela, Pernalonga, Hortelino Trocaletra, Piu Piu e Wile E. Coyote convivem, como astros do cartoon, com os seres de carne e osso que exploram seus talentos. Roger Rabbit é explorado por Marvin Acme (Stubby Kaye), chefe da Maroon Cartoon. Roger é o popular stuntclown, que contracena com o irascível Baby Herman nos violentos desenhos produzidos pela Maroon. Quando Roger começa a dar mostras de distração durante as filmagens, o chefe da Maroon contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins) para vigiá-lo. Eddie segue Jessica Rabbit (Katheleen Turner), a sexy esposa de Roger até o Ink and Paint Club, onde tira fotos comprometedoras de Jessica com Marvin Acme.

​O assassinato de Marvin joga as suspeitas sobre Roger, que persuade Eddie a ajudá-lo, enfrentando a perseguição do Juiz Doom (Christopher Lloyd), que descobriu que o único jeito de destruir um desenho é mergulhá-lo numa mistura chamada “O Caldo”, e pretende usá-lo não apenas contra Roger, mas contra todo desenho que se opõe a seus planos. Para este filme, Richard Williams, o diretor de animação, decidiu quebrar três convenções estabelecidas para combinar ação ao vivo e animação. Ele moveu a câmera o máximo possível para que os Toons não parecessem colados em fundos planos. Ele usou a iluminação e as sombras ao extremo que nunca havia tentado antes. Enfim, ele fez com que os Toons interagissem com objetos e pessoas do mundo real o máximo possível. Mas foi Steven Spielberg quem conseguiu convencer os estúdios da Warner Bros. a deixar Robert Zemeckis incluir vários de seus personagens Looney Tunes neste filme, uma produção da Disney. A Warner Bros. concordou que certas condições de controle de qualidade e tempo de tela iguais para os personagens de ambos os estúdios, razão pela qual Pernalonga e Mickey saltam juntos de paraquedas e Donald e Patolino tocam piano juntosfossem atendidas e que seus personagens fossem tratados com respeito pelos animadores. Vários anos depois, a Warner Bros. estava nos estágios de planejamento de pré-produção Space Jam – O Jogo do Século (1996), uma nova mistura de live action com animação, e perguntou à Disney se eles retribuiriam o favor permitindo que incluíssem um personagem importante da Disney no jogo final do filme como “convidado especial”. A Disney, agora sob uma nova gestão, recusou categoricamente. Isso resultou em Warner Bros. que acusou furiosamente a Disney de quebrar um acordo de cavalheiros de quase uma década e dizer que nunca mais cooperaria com a Disney. Como resultado, e apesar das ameaças iniciais de ação legal, Space Jam – O Jogo do Século teve várias piadas afiadas escritas no roteiro, desferidas diretamente contra a The Walt Disney Company. Uma Cilada para Roger Rabbit conseguiu o que parecia impossível, recriar o clima das animações de Tex Avery, homenagear os desenhos que acompanharam a infância de todos e mostrar que o único limite para a fantasia é a imaginação.

Deixe um comentário