Adilson Santos

Três anos depois que a tripulação original da Enterprise se reuniu para enfrentar a ameaça de V’Ger, a Paramount decidiu dar sequência ainda que as dúvidas fossem muitas. O primeiro filme teve um orçamento alto demais e os lucros estavam longe do esperado levando-se em conta os gastos feitos anteriormente com o cancelado projeto Star Trek Phase II. Além disso os bastidores haviam sido atribulados com constantes desentendimentos com Gene Roddenberry e a as duras críticas feitas ao filme por seu tom solene demais e premissa não só pretensiosa como filosofica demais. Mudanças precisavam ser feitas e foram : O orçamento ficou restrito a apenas US$ 11 milhões e Gene Roddenberry foi removido de sua posição de produtor executivo, ficando como consultor criativo, o que na prática significou que todas as decisões seriam tomadas ignorando Roddenberry. A posição de produtor ficou com Harve Bennet, vindo da Tv onde realizou O Homem de Seis Milhões de Dólares e A Mulhet Biônica. Bennet, que nunca havia visto a série original assistiu a todos os 79 episódios a procura de um ponto de partida para um roteiro que trouxesse de volta todo o esplendor de Jornada nas Estrelas. O episodio escolhido era Semente do Espaço (Space Seed) que trazia o antagonista perfeito para os heróis, o super humano engendrado geneticamente Khan Noonian Sing, interpretado por Ricardo Montalban. Khan havia sido exilado em um planeta inóspito ao final de Semente do Espaço e teria todos os motivos para odiar Kirk e buscar sua vinagança. O roteiro era apenas uma colcha de retalhos que incluia a morte de Spock, condição que trouxe Leonard Nimoy de volta depois de declarar que não queria voltar ao personagem. Foi quando chegou Nicholas Meyer, diretor e roteirista que se encarregou de enxugar as diversas ideias e driblar as interferências de Gene Roddenberry, que não concordava com nada.

Segundo o livro Memorias de Star Trek – Os Filmes de William Shatner , Roddenberry repudiava a abordagem militarista da Frota Estelar, ainda que Nicholas Meyer concordasse em retratar esta como uma Marinha futurista evocando o personagem Horatio Hornblower da literatura de C.S.Forrester. Ainda segundo o livro teria sido Roddeberry a deixar vazar a noticia da morte de Spock irritando os fãs que se mobilizavam contra o filme. Inicialmente a cena da morte ocorreria no inicio do filme assim como em Psicose (1960). Meyer conseguiu ludibriar a todos mostrando a morte de Spock na sequência de abertura como parte do simulador Kobayashi Maru. Ao final do filme o sacrifício de Spock ganharia dramaticidade inesperada e tocante com William Shatner e Leonard Nimoy separados por uma parede de vidro e encarando a mortalidade indesejada, totalmente em sintonia com o roteiro desenvolvido para que lendas encarassem o envelhecimento e o fim de tudo que é mais caro.

Foi esse o tom assumido pelo roteiro, incorporar o envelhecimento dos personagens e confrontá-los com a brevidade da vida. Kirk seria nesse sentido o foco de tudo, além de travar com Khan um acirrado jogo de gato e rato que remete inclusive ao episodio Equilibrio de Poder (Balance of Power) da série clássica. Embora Khan e Kirk não tenham um embate físico (a principio haveria, mas as limitações de orçamento a removeu do roteiro), sua luta é envolvente e enervante causando danos extremos à Enterprise e sua tripulação. As falas de Khan remetem à Moby Dick seja através do paralelo Ahab / Khan ou das falas do vilão ao final que parafraseam a obra de Herman Melville. A persoangem da tenente Saavik ficou com a estreante Kirstie Alley cuja personagem foi imaginada como uma substituta para Spock, e a princípio previa-se que ela se envolveria com David (Merrit Butrick), o filho de Kirk cuja presença reinforça o sentimento do personagem diante da passagem de tempo.


O filme seria sub entitulado A Terra Desconhecida, mas a Paramount decidiu rebatizar o filme como A Vingança de Khan, contrariando a vontade de Nicholas Meyer. Na época, inclusive, George Lucas preparava o episodio VI de Star Wars anunciado como A Vingança de Jedi. No final das contas, Lucas rebatizou seu filme de O Retorno de Jedi e a Paramount trocou o sub título de Star Trek para A Ira de Khan. O epilogo do filme com Kirk observando o recem formado planeta Genesis onde pousa o caixão de Spock foi acrescentado depois da exibição teste do filme assim como o momento em que Spock transfere seu katra para a mente do Dr.McCoy como um gatilho a ser explorado em um terceiro filme. O resultado foi extremamente satisfatorio, superando o primeiro filme e conquistando tanto crítica quanto público, sendo o filme mais rentavel da franquia até seu reboot por J.J.Abrams em 2008. Este reimaginou A Ira de Khan quando fez Star Trek Alem da Escuridão (Star Trek Into Darkness) em 2010 com Benedict Cumberbatch repetindo o papel feito magistralmente por Ricardo Montalban. Certamente que tanto sucesso asseguraria a continuidade da franquia e a certeza de que o espaço continuaria sendo a fronteira final.
