Adilson Santos

Quando Neil Jordan dirigiu Não Somos Anjos (We’re No Angels, 1989) para um estúdio de Hollywood no final da década de 1980, ele percebeu que precisava lidar com muito mais interferências do que em filmes anteriores, como Mona Lisa (1986) e A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves, 1984). Jordan achou que isso fosse simplesmente o preço a pagar por trabalhar em Hollywood e não tinha certeza se aquilo era para ele, mas quando o produtor David Geffen ofereceu a Jordan Entrevista com o Vampiro (Interview With The Vampire, 1995) — depois que o sucesso de Traídos Pelo Desejo (The Crying Game, 1992) o transformou em um nome em alta —, o diretor decidiu arriscar. “Eu disse: ‘Olha, vou fazer esse filme se você organizar tudo de forma que eu possa fazê-lo do jeito que faço filmes independentes’”, disse Jordan em entrevista ao IndieWire. O diretor estava ansioso para adaptar o romance de Anne Rice sobre vampiros (interpretados por Tom Cruise e Brad Pitt no filme) e seu relacionamento homoerótico disfuncional, então ficou feliz quando Geffen possibilitou que ele trabalhasse com total liberdade criativa. “Ele tinha um acordo com a Warner Bros. que lhe dava poder suficiente para me permitir fazer isso.” Jordan se sentiu atraído por Entrevista com o Vampiro porque, segundo o diretor, ele estava “procurando viver no mesmo mundo de Companhia de Lobos.” Neil Jordan admitiu adorar o cenário de fantasia, e criar mundos imaginários. Para Entrevista com o Vampiro, o diretor acompanhou os vampiros Lestat (Cruise) e Louis (Pitt) ao longo de cerca de 200 anos, Jordan se deleitou em criar ambientes detalhados de Nova Orleans, Londres e Paris, que se tornaram ao mesmo tempo sensuais e assombrosos nas mãos do diretor. Para colaboradores como o designer de produção Dante Ferretti e o diretor de fotografia Philippe Rousselot, Jordan tinha uma orientação clara. O diretor decidiu filmar o filme inteiro à noite, embora fosse difícil para os atores, o que permitiu que ele impusesse uma precisão ao estilo que ele realmente apreciava. Filmar à noite e em sets de estúdio também ajudou a manter os paparazzi afastados, uma necessidade diante do alvoroço que surgiu em torno da escolha de Tom Cruise para o papel de Lestat. Os fãs mais fervorosos do livro de Rice não ficaram satisfeitos, especialmente quando a própria Rice criticou a escolha do elenco (ela mudou de opinião depois de ver o filme pronto). Jordan disse que ele e os atores simplesmente tentaram criar uma bolha ao redor deles e seguir em frente com o trabalho, enquanto Jordan arriscava e partia do princípio de que o “sinistro senso de controle” de Cruise funcionaria para o Lestat. Visto hoje, a sensualidade e o homoerotismo que permeiam o filme são ainda mais impressionantes e cativantes do que eram quando Entrevista com o Vampiro foi lançado em 1994; é difícil imaginar astros de cinema do calibre de Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas fazendo um filme assim hoje em dia dentro do sistema dos estúdios. Jordan diz que os atores estavam todos mais do que dispostos, no entanto, sem nenhum receio. “Eles tinham lido o livro, e Antonio já havia trabalhado com Almodóvar e interpretado o objeto de desejo de muitos homens lascivos. Brad já havia interpretado o objeto de desejo de um monte de mulheres lascivas. E Tom é Tom. Ele existe em seu próprio universo.”