HQ |  STAR TREK 60 ANOS: AUDACIOSAMENTE INDO ONDE MUITAS EDITORAS JÁ FORAM ANTES – PARTE I

Leandro Banner

Como um verdadeiro apaixonado por STAR TREK – JORNADA NAS ESTRELAS, decidi aproveitar a celebração dos seus 60 anos para um breve resumo de suas aventuras nos quadrinhos, e particularmente da sua atribulada jornada no mercado quadrinístico nacional. As histórias em quadrinhos de STAR TREK constituem um daqueles curiosos capítulos da cultura pop em que a franquia parece ter passado por quase todas as grandes editoras americanas — e também por uma boa quantidade de editoras brasileiras — sem jamais conseguir estabelecer uma presença realmente estável nas bancas. No Brasil, Jornada nas Estrelas em quadrinhos sempre teve algo de missão da Frota Estelar: longos períodos de exploração, algumas descobertas fascinantes e, de tempos em tempos, uma inexplicável ordem de retirada. Quando Gene Roddenberry colocou a USS Enterprise para viajar “onde ninguém jamais esteve”, provavelmente não imaginava que, algumas décadas depois, sua criação estaria percorrendo não apenas galáxias, linhas temporais e universos paralelos, mas também os catálogos de Gold Key, Marvel, DC, Malibu, WildStorm, IDW e outras editoras. E, no Brasil, a situação seria ainda mais curiosa: EBAL, Abril, Brainstore, Devir, Mythos e Geektopia, entre outras, tentariam colocar Kirk, Spock, Picard e companhia nas bancas e livrarias.

A trajetória dos quadrinhos de STAR TREK é, portanto, quase uma história paralela da própria franquia. Algumas fases são bastante respeitáveis; outras são deliciosamente estranhas; e algumas parecem ter sido produzidas por pessoas que receberam a missão de “fazer uma HQ de Jornada nas Estrelas” sem necessariamente receber o manual de instruções para tal. A estreia aconteceu em 1967, ainda durante a exibição original da série, quando a Gold Key Comics obteve a licença para produzir histórias da tripulação da Enterprise. A série chegaria a 61 edições, permanecendo até 1979. O problema é que a Gold Key começou sua jornada com uma interpretação bastante particular da série. O desenhista italiano ALBERTO GIOLITTI , responsável por boa parte da fase inicial, sequer havia assistido aos episódios de televisão. Como trabalhava na Itália, dependia de fotografias promocionais para reproduzir Kirk, Spock, McCoy e companhia. O resultado é historicamente curioso: os personagens são reconhecíveis, mas frequentemente parecem parentes distantes dos atores. E há ainda o famoso detalhe dos uniformes. Em diversas histórias, a tripulação aparece usando aquele verde-limão (lembram do uniforme alternativo de Kirk????) que faria qualquer departamento de figurino da Frota Estelar pedir baixa imediatamente. Há quem diga que esse verde-limão era a cor “dourada” original dos oficiais de comando, que tinha esse aspecto (dourado) por conta da iluminação nos sets de filmagem, mas isso é assunto para outro momento…

Os roteiros também não tinham grande preocupação em reproduzir fielmente o espírito científico da série. Monstros gigantes, civilizações estranhas, fenômenos cósmicos e ameaças capazes de destruir planetas aparecem com generosidade. Era uma espécie de Star Trek filtrada pela lógica das HQs infantojuvenis dos anos 1960: se a Enterprise encontrou um planeta misterioso, evidentemente existe uma criatura gigantesca esperando atrás da primeira montanha. Com o tempo, entretanto, a qualidade melhorou. Escritores como ARNOLD DRAKE e um jovem LEN WEIN passaram pela série, enquanto artistas como AL McWILLIAMS contribuíram para elevar o padrão visual e artístico. As histórias começaram também a dialogar mais diretamente com episódios da televisão, incluindo continuações de aventuras clássicas É uma fase irregular, mas extremamente importante: foi a primeira tentativa de transformar STAR TREK em uma franquia de quadrinhos permanente. Com o lançamento de STAR TREK: THE MOTION PICTURE, em 1979, a licença passou para a Marvel Comics. A Marvel começou pelo caminho mais lógico: a adaptação do filme para os quadrinhos. E quem aparece envolvido no projeto? STAN LEE, com arte de DAVE COCKRUM. Posteriormente, a revista ganhou uma equipe que incluía MARV WOLFMAN, outro nome de enorme importância na história da Marvel e da DC. A série chegou a 18 números antes de ser cancelada em 1982. A adaptação de The Motion Picture é particularmente interessante porque transforma aquele gigantesco espetáculo contemplativo de 1979 — famoso por fazer a Enterprise passar minutos e minutos viajando pelo espaço enquanto a plateia se pergunta se aquilo era uma experiência cinematográfica ou um teste de resistência — em uma narrativa gráfica.

A Marvel tentou então produzir histórias próprias, mas a série não encontrou público suficiente. E aqui começa uma característica recorrente dos quadrinhos de STAR TREK: a televisão e o cinema conseguem transformar a franquia em fenômeno; os quadrinhos frequentemente precisam lutar pela própria sobrevivência. Em 1984, STAR TREK chegou à DC Comics, e a situação melhorou bastante. A primeira fase da DC durou até 1988 e produziu 56 edições mensais e cinco especiais. Foi justamente nesse período que os quadrinhos passaram a trabalhar com maior liberdade narrativa, mas sem abandonar a mitologia construída pelos filmes e pela série. A DC encontrou uma solução interessante: em vez de simplesmente reproduzir episódios televisivos, passou a explorar os espaços que o cinema deixava em aberto. Isso permitia histórias envolvendo novos planetas, conflitos diplomáticos, ameaças alienígenas, Klingons, Romulanos e situações que poderiam acontecer entre um filme e outro. A revista também teve a vantagem de contar com uma casa editorial acostumada a trabalhar com personagens recorrentes e universos compartilhados. STAR TREK não virou super-herói — felizmente ninguém teve a ideia de colocar uma capa no Spock —, mas ganhou uma estrutura narrativa mais sofisticada. Depois viria uma segunda fase da DC, iniciada em 1989 e prolongada até meados dos anos 1990, período em que a franquia já estava vivendo a expansão provocada por JORNADA NAS ESTRELAS – A NOVA GERAÇÃO (STAR TREK – THE NEXT GENERATION). Foi uma época particularmente fértil para os quadrinhos, porque a televisão estava ampliando o universo Trek de maneira acelerada e consistente.

Com Star Trek – The Next Generation, a franquia ganhou um novo elenco e uma nova possibilidade editorial. Picard, Riker, Data, Worf, Geordi, Troi e companhia passaram a ocupar também as páginas dos quadrinhos, permitindo histórias que funcionavam como verdadeiros “episódios perdidos”. É justamente essa abordagem que aparece em materiais posteriormente publicados no Brasil pela DEVIR, como Star Trek: A Nova Geração – Interlúdios. O álbum reúne aventuras ambientadas entre períodos da série televisiva, com roteiro de DAVID TISCHMAN , arte de CASEY MALONEY e outros profissionais. Essa estratégia é perfeita para Star Trek: em vez de reinventar personagens que já possuem décadas de história de alguma forma absurda, os quadrinhos podem simplesmente perguntar: “O que aconteceu durante aquela semana em que a televisão não mostrou nada?” E pronto. Temos uma nova aventura. Durante os anos 1990, o universo Trek continuou sua peregrinação editorial. A Malibu Comics ficou responsável pelas histórias de DEEP SPACE NINE entre 1993 e 1995, enquanto a Marvel retomou a franquia entre 1996 e 1998. Posteriormente, a WildStorm assumiu títulos entre 1999 e 2001. Essa multiplicação de editoras acompanha a própria expansão televisiva da franquia. Já não existia apenas a Enterprise original. Havia The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager e os filmes. Os quadrinhos passaram a funcionar quase como uma extensão do gigantesco universo audiovisual. A partir de 2007, a IDW Publishing assumiu a licença e começou uma das fases mais produtivas e profícuas da história dos quadrinhos de Star Trek. A editora continua sendo a principal casa dos quadrinhos da franquia e publicou mais material Trek do que qualquer editora anterior. A IDW teve uma vantagem enorme: já não precisava tratar Star Trek simplesmente como adaptação de uma série de televisão. Podia trabalhar com:• histórias da Série Clássica; • The Next Generation; • Deep Space Nine; • Voyager; • novas séries; • adaptações de filmes; • universos alternativos; • histórias originais; • versões de roteiros que nunca chegaram à televisão e um longo etc. Um exemplo particularmente interessante é Star Trek: Year Four, de David Tischman, que imagina uma espécie de “quarto ano” para a série clássica — justamente aquilo que a televisão nunca produziu, embora a animação feita pela Filmation na primeira metade da década de 1970 possa ser considerada como algo nesse sentido, mas podemos retomar essa discussão outra hora! A ideia é deliciosa: pegar Kirk, Spock, McCoy e companhia e simplesmente continuar a viagem como se a série não tivesse acabado.

AMANHÃ A SEGUNDA PARTE DESTA MATÉRIA

Deixe um comentário