HQ |  STAR TREK 60 ANOS: AUDACIOSAMENTE INDO ONDE MUITAS EDITORAS JÁ FORAM ANTES – PARTE II

Leandro Banner

Outra iniciativa interessante foi Star Trek: Alien Spotlight, publicada aqui como STAR TREK: RAÇAS ALIENÍGENAS, também pela Devir. A coletânea apresenta histórias concentradas em diferentes povos e criaturas do universo Trek, incluindo Vulcanos, Gorns, Andorianos, Borgs e Romulanos. Entre os autores envolvidos havia inclusive JOHN BYRNE, nome que dispensa apresentações para qualquer leitor de quadrinhos. A IDW também explorou a realidade criada pelos filmes de J. J. Abrams, posteriormente conhecida como LINHA DO TEMPO KELVIN. Essa versão permitiu aos roteiristas fazer algo que a continuidade tradicional nem sempre permitia: alterar acontecimentos históricos e brincar com os personagens sem destruir a cronologia principal. Entre os responsáveis por essa fase esteve MIKE JOHNSON, roteirista com experiência em adaptações de cinema e televisão, enquanto o desenhista ERFAM FAJAR ganhou destaque pela capacidade de reproduzir graficamente os atores de forma satisfatória. É um ótimo exemplo de como os quadrinhos conseguem resolver um problema que a televisão dificilmente resolveria: explorar um universo alternativo sem precisar gastar milhões de dólares para filmá-lo. No entanto, se nos Estados Unidos STAR TREK teve uma trajetória editorial relativamente contínua, no Brasil a coisa sempre foi mais complicada. A primeira presença significativa ocorreu pela EBAL, que publicou material da Gold Key dentro de Hiper, entre 1971 e 1973. Foram 16 números da revista, vários deles trazendo Jornada nas Estrelas. Depois veio a Editora Abril, que retomou a franquia na década de 1970. Entre 1975 e 1976, a Abril publicou uma série de revistas de Jornada nas Estrelas, utilizando principalmente material da Gold Key. E há uma curiosidade deliciosa para os colecionadores: algumas histórias chegaram a ser produzidas no Brasil por artistas e roteiristas brasileiros, algo bastante incomum para uma franquia americana desse porte. Imaginem se isso fosse republicado hoje….? Bem, sonhar não custa…

Em 1978, a Abril ainda lançou um especial com histórias da Gold Key e em 1980 veio uma publicação particularmente cobiçada pelos colecionadores: Star Trek – Jornada nas Estrelas: O Filme, adaptação produzida originalmente pela Marvel. A edição brasileira ainda trazia um pôster da Enterprise — daqueles brindes que hoje fazem o colecionador olhar para a própria coleção e pensar: “Por que diabos eu não comprei duas?”.Mais de uma década depois, aproveitando o retorno de STAR TREK à televisão brasileira e o crescimento de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, a Abril tentou novamente. Em novembro de 1991, saiu uma nova revista mensal de STAR TREK, misturando histórias da Série Clássica, material da DC e aventuras de The Next Generation. Foram apenas nove edições que a Abril se dispôs a publicar, infelizmente. É uma das grandes ironias da trajetória brasileira de Jornada: segundo levantamento histórico do Trek Brasilis, alguns números chegaram a vender muito bem, mas a publicação acabou interrompida. Ou seja: até a Enterprise brasileira conseguiu encontrar uma anomalia espacial chamada “decisão editorial inexplicável”. Em 2002, a Brainstore publicou JORNADA NAS ESTRELAS – DIVIDA DE HONRA, adaptação da primeira graphic novel da franquia. O projeto tinha CHRIS CLAREMONT no roteiro e ADAM HUGHES na arte — uma dupla de peso muito superior ao que seria razoável esperar de uma franquia que tantas vezes teve dificuldade para encontrar espaço nas bancas brasileiras. Surpreendentemente, a Devir, a despeito de todas as suas mancadas, seria responsável por uma das fases brasileiras mais interessantes.

A partir de 2008/2009, a editora publicou diversos encadernados provenientes da IDW, entre eles KLINGONS: HERANÇA DE SANGUE, de SCOTT e DAVID TIPTON, com arte de DAVID MESSINA. Vieram também A NOVA GERAÇÃO: INTERLÚDIOS, ANO QUATRO e RAÇAS ALIENÍGENAS. A iniciativa tinha uma grande vantagem em relação às antigas revistas de banca: o material era apresentado como álbum, com formato mais adequado ao público colecionador. Seria, inclusive, uma ótima opção de formato para eventuais republicações que porventura possam existir futuramente (fiquemos na torcida!!). A Mythos também contribuiu para a história brasileira da franquia, inclusive com uma publicação particularmente interessante: JORNADA NAS ESTRELAS – CIDADE À BEIRA DA ETERNIDADE, baseada no roteiro original de HARLAN ELLISON para o célebre episódio da série clássica. Aqui os quadrinhos assumem uma função quase arqueológica: recuperar uma versão da história que permite ao leitor conhecer uma concepção diferente daquela que chegou à televisão. A Mythos também publicou posteriormente material da IDW, mostrando que, no Brasil, a licença Trek continuava migrando de editora em editora como se fosse uma nave procurando planeta para estacionar.Mais recentemente, editoras como a Geektopia, selo da Novo Século, também participaram dessa história, incluindo publicações relacionadas a STAR TREK e outros grandes universos da cultura pop. A própria história editorial brasileira da franquia acabou ficando bastante fragmentada: infelizmente não existe uma grande coleção nacional que reúna sistematicamente tudo aquilo que foi produzido nos Estados Unidos.E essa é talvez a maior frustração para o colecionador brasileiro que é fã de Jornada nas Estrelas! Enquanto a IDW construiu uma verdadeira biblioteca Trek, por aqui o fã frequentemente precisa montar sua coleção como quem recompõe os destroços da Enterprise depois de um encontro particularmente mal-sucedido com os Borgs.Mas o que torna os quadrinhos de Star Trek interessantes?

A principal virtude das HQs de Star Trek é justamente a possibilidade de expandir aquilo que a televisão não podia mostrar. Na Série Clássica, uma história precisava caber em aproximadamente 50 minutos. Nos filmes, havia limitações orçamentárias ainda maiores. Nos quadrinhos, entretanto, é possível criar civilizações inteiras, monstros gigantes, guerras interestelares, planetas absurdamente caros e batalhas espaciais que custariam uma fortuna em efeitos especiais. Tudo isso por algumas páginas de papel. Além disso, os quadrinhos permitem explorar personagens secundários, preencher lacunas cronológicas, imaginar futuros alternativos e até recuperar ideias abandonadas durante a produção televisiva. É por isso que existem histórias que parecem simples aventuras de ficção científica e outras que desenvolvem temas muito próximos daqueles que fizeram a série de Roddenberry sobreviver por tantas décadas: conflito cultural, preconceito, militarismo, ética científica, diplomacia, colonialismo, tecnologia, identidade e o eterno problema de saber se devemos ou não interferir em civilizações alienígenas. E, claro, há sempre a possibilidade de alguém perguntar:

“Capitão, encontramos uma forma de vida desconhecida.”
E Kirk responder:
“Ótimo. Vamos descer até lá.”
O que, em retrospecto, provavelmente explica boa parte dos problemas da Frota Estelar. Uma franquia que nunca deixou de explorar Os quadrinhos de Star Trek passaram por várias fases criativas: da aventura quase infantil e desajeitada da Gold Key às interpretações mais maduras da DC; das experiências da Marvel às séries derivadas dos anos 1990; e finalmente à enorme liberdade criativa proporcionada pela IDW. No processo, roteiristas e artistas de enorme importância passaram pela franquia: Len Wein, Arnold Drake, George Kashdan, Marv Wolfman, Dave Cockrum, Chris Claremont, Adam Hughes, John Byrne, David Tischman, Scott Tipton, David Tipton, Mike Johnson e muitos outros.O resultado é uma biblioteca bastante irregular, mas também extraordinariamente rica.E talvez essa irregularidade seja parte do charme.Porque Star Trek nunca foi uma franquia construída apenas sobre batalhas espaciais. Seu grande tema sempre foi a exploração. E, nos quadrinhos, a exploração continuou: novos mundos, novas versões dos personagens, novas linhas temporais e, principalmente, novas maneiras de contar histórias com Kirk, Spock, Picard, Data e tantos outros.No Brasil, porém, a missão continua um pouco mais complicada. Tivemos EBAL, Abril, Brainstore, Devir, Mythos e Geektopia — editoras que, em diferentes momentos, tentaram manter a Enterprise em órbita.Nenhuma conseguiu transformar Star Trek em presença permanente nas bancas. Mas talvez isso seja coerente com a própria filosofia da franquia.A Enterprise nunca fica parada.Ela segue viagem.E os quadrinhos também.A história editorial brasileira é particularmente interessante porque mostra que a qualidade do material nem sempre foi o problema: muitas vezes havia excelentes equipes criativas, mas a franquia simplesmente não conseguia manter uma periodicidade comercialmente sustentável por aqui. A Devir, sobretudo entre 2008 e 2010, foi a editora que, até o momento, chegou mais perto de construir uma pequena biblioteca brasileira de Star Trek.
Ao fim e ao cabo, resta aos fãs brasileiros de quadrinhos que amam Jornada nas Estrelas torcerem por alguma iniciativa editorial que eventualmente seja capaz de conferir às suas séries gráficas o merecido tratamento, que faça justiça à importância desta que é uma das maiores manifestações da Cultura Pop que foi – e certamente continuará indo – onde nenhuma outra série jamais esteve. 😉

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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