CINEMA DO MUNDO | O CINEMA DE ABBAS KIARISTAMI

Marcelo Kricheldorf

O cinema do diretor iraniano Abbas Kiarostami representa uma das viradas estéticas mais radicais e influentes do cenário cinematográfico contemporâneo. Longe de se alinhar às fórmulas escapistas do cinema comercial ou às estruturas do drama clássico, Kiarostami desenvolveu uma linguagem fundada no minimalismo, no realismo filosófico e, acima de tudo, na fusão poética entre o documentário e a ficção. Suas obras não buscam apenas narrar uma história, mas investigar a própria natureza da imagem e os limites da representação da realidade. Ao fazer isso, o cineasta estabeleceu um estilo que desafia as convenções narrativas e reposiciona o espectador, transformando-o de um observador passivo em um coautor ativo da obra cinematográfica.
Um dos aspectos centrais mais célebres de sua filmografia é a estética do automóvel como espaço cênico e existencial. Em obras-primas como Gosto de Cereja (1997) e Dez (2002), o interior de um carro em movimento funciona como um microcosmo da sociedade iraniana e um confessionário itinerante. A câmera, frequentemente fixa no painel ou nas janelas laterais, captura conversas íntimas e tensas entre os motoristas e seus passageiros. Esse recurso estético opera em dupla função: enquanto o confinamento do veículo gera uma atmosfera de intensa proximidade psicológica, o deslocamento físico pelas estradas poeirentas e colinas áridas espelha as trajetórias internas e os dilemas morais dos personagens. O carro torna-se, assim, uma ferramenta de enquadramento da própria vida, permitindo que o acaso do mundo exterior invada continuamente o espaço ficcional.

Close Up

Além do uso do automóvel, o minimalismo de Kiarostami manifesta-se no rigor de sua composição visual e no uso revolucionário do som e do espaço extracampo. Influenciado por sua formação como fotógrafo e poeta, o diretor utilizava frequentemente planos abertos e de longa duração, nos quais as figuras humanas parecem diminutas diante da imensidão da geografia rural iraniana; como se nota na célebre Trilogia de Koker (Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, E a Vida Continua e Através das Oliveiras). Mais do que o visível, contudo, é o invisível que dita o ritmo de seus filmes. Ao ocultar elementos cruciais da narrativa ou da ação; recorrendo a ruídos distantes, diálogos fora de quadro ou personagens que nunca chegam a aparecer. Essa escolha estética força o público a projetar mentalmente aquilo que a tela se recusa a exibir, valorizando a imaginação em detrimento do excesso de estímulos visuais.
Essa recusa em entregar respostas fáceis conecta-se diretamente ao princípio da incerteza e à autorreferencialidade que estruturam seus roteiros. O cinema de Kiarostami rejeita os finais conclusivos e as resoluções catárticas de Hollywood. Seus filmes operam em um constante jogo de espelhos metaficcional. Em Close-Up (1990), por exemplo, o diretor reconstrói o julgamento real de um homem que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, escalando as pessoas reais envolvidas no caso para interpretarem a si mesmas. Ao expor os andaimes da criação artística e borrar as linhas entre o que é encenado e o que é verídico, Kiarostami desconstrói a ilusão realista, lembrando ao espectador que o cinema é, intrinsecamente, uma mentira que busca alcançar uma verdade mais profunda.

Trabalhos de Casa

Por fim, a evolução do estilo de Kiarostami atingiu seu ápice com a adoção pioneira das tecnologias digitais na virada do século XXI. A transição da película para as câmeras digitais portáteis libertou o diretor das amarras industriais e de grandes equipes de produção, permitindo-lhe radicalizar suas experimentações formais. Em projetos tardios como Five (2003) e seu testamento fílmico, 24 Frames (2017), o cineasta aboliu quase por completo a montagem tradicional e o movimento, criando ensaios contemplativos compostos inteiramente por planos-sequência estáticos que dilatam o tempo real. Essa fusão final entre a imagem em movimento, a fotografia estática e a observação da natureza reafirma a herança do neorrealismo sob um viés poético abstrato, consolidando Abbas Kiarostami não apenas como um contador de histórias, mas como um filósofo do olhar.

Filmografia do Diretor

O Pão e o Beco (1970), Recreio (1972), A Experiência (1973), O Viajante (1974), Duas Soluções para um Problema (1975), Cores (1976), Um Casamento (1976), Como Fazer Uso do Tempo Livre (1977), Relatório (1977), Três Soluções para um Problema (1978), Solução Número Um (1978), Primeiro Caso, Segundo Caso (1979), Higiene Dental (1980), Incentivo (1981), O Coro (1982), Conterrâneos (1983), Os Primeiros (1984, )Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Trabalho de Casa (1989), Close-Up (1990), E a Vida Continua (1992), Através das Oliveiras (1994), Gosto de Cereja (1997), O Vento nos Levará (1999) ABC África (2001), Dez (2002), Five Dedicated to Ozu (2003), 10 on Ten (2004), Tickets (2005), Chacun Son Cinéma (2007), Shirin (2008)Cópia Fiel (2010), Um Alguém Apaixonado (2012), Veneza 70: Future Reloaded (2013), 24 Frames (2017)

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