Quando Harlan Ellison quis consertar o passado — e quase acabou consertando a própria Jornada nas Estrelas.
Leandro Banner

Em 2016, a Mythos Editora colocou nas bancas brasileiras uma daquelas publicações que despertam imediatamente a curiosidade do fã de Jornada nas Estrelas: JORNADA NAS ESTRELAS – CIDADE À BEIRA DA ETERNIDADE, compilando a minissérie norte-americana Star Trek: Harlan Ellison’s The City on the Edge of Forever – The Original Teleplay, publicada originalmente em cinco edições em 2015 pela IDW. E o título já entrega a grande atração da obra: não estamos diante de uma simples adaptação do episódio clássico exibido pela televisão, mas da tentativa de apresentar, em quadrinhos, a história que Harlan Ellison originalmente imaginou antes de todas as alterações que transformaram seu roteiro no episódio que foi ao ar. Para adaptar essa versão aos quadrinhos, os irmãos David Tipton e Scott Tipton assumiram a tarefa de transformar o texto de Ellison em narrativa sequencial, enquanto J. K. Woodward ficou responsável pela arte. O resultado é uma publicação especialmente interessante porque permite ao leitor fazer algo que o fã de Star Trek adora: comparar versões, procurar diferenças e concluir que, aparentemente, até uma viagem no tempo pode ter problemas de produção.

É difícil exagerar a importância de The City on the Edge of Forever, um dos episódios mais celebrados da série original. A história televisiva já era extraordinária por si só: Kirk e sua tripulação encontram um misterioso portal temporal em um planeta desconhecido; McCoy, sob o efeito de uma droga, atravessa o portal e altera o passado da Terra em algum momento do século 20; Kirk e Spock vão atrás dele e descobrem que precisam permanecer nos anos 1930 até que a situação seja corrigida. Ali surge Edith Keeler (Joan Collins), personagem fundamental para a trama e para o dilema moral de Kirk. A genialidade da história está justamente em transformar uma aventura de ficção científica em uma tragédia íntima. Kirk não precisa simplesmente derrotar um inimigo. Ele precisa aceitar que a mulher por quem se apaixona deve morrer para que milhões de vidas sejam preservadas e para que a História volte ao seu curso original É ficção científica com uma dose particularmente cruel de filosofia: às vezes, salvar o universo significa deixar o universo perder justamente aquilo que você gostaria de salvar. A proposta de Ellison, porém, seguia caminhos significativamente diferentes. Uma das diferenças mais interessantes está na participação da ordenança Janice Rand (interpretada na série pela atriz Grace Lee Whitney). Na versão concebida originalmente por Ellison, Rand possui uma importância consideravelmente maior para o desenvolvimento da trama do que aquela que acabou tendo no episódio televisivo. Isso é particularmente revelador porque mostra que a proposta original possuía uma estrutura narrativa diferente, com outros personagens desempenhando funções dramáticas mais relevantes e uma dinâmica distinta dentro da Enterprise. A Rand de Ellison não está simplesmente ali para cumprir a função de personagem recorrente da série. Sua presença se integra de maneira mais significativa à engrenagem da narrativa. E isso ajuda a perceber como um roteiro pode mudar radicalmente quando passa pelo processo de produção televisiva. Personagens podem ganhar ou perder importância, acontecimentos podem ser reorganizados e, de repente, aquilo que o roteirista imaginou na máquina de escrever vai parar na televisão depois de passar por uma verdadeira “peneira editorial”. Talvez uma das diferenças fundamentais entre as duas versões esteja justamente no responsável pela alteração da linha temporal. Na versão televisiva, é o doutor Leonard McCoy (DeForest Kelley) quem, sob os efeitos da droga, atravessa o portal temporal e acaba alterando o curso da História. Na versão original de Ellison apresentada nesta adaptação, porém, o responsável é o Tenente Beckwith. McCoy sequer aparece na história. Essa mudança não é apenas uma troca de personagem. Ela altera consideravelmente a dinâmica dramática da história, pois Beckwith passa a ocupar uma posição muito mais importante como agente da perturbação temporal e, consequentemente, como antagonista. O interessante é que Ellison não transforma Beckwith em um vilão absolutamente desprovido de humanidade. Muito pelo contrário. E é aqui que a proposta de Ellison ganha uma de suas características mais provocativas.

Beckwith, embora seja o antagonista, tenta impedir o acidente que vitima Edith Keeler. E existe nisso uma espécie de ironia moral muito poderosa. Na versão televisiva, a tragédia se constrói a partir da necessidade de Kirk aceitar que Keeler precisa morrer. A História exige o sacrifício, e Kirk precisa compreender que o amor individual não pode se sobrepor ao destino de milhões. Na versão de Ellison, entretanto, Beckwith procura interferir justamente para evitar a morte de Keeler. Ou seja: o sujeito que está bagunçando a linha temporal não necessariamente age movido por uma maldade absoluta. Ele demonstra possuir algo de nobre dentro de si. É uma provocação típica de uma história que não quer trabalhar simplesmente com o esquema “heróis bons contra vilões maus”, mas sim, uma história que vai muito além da dicotomia bem/mau. Ellison introduz uma pergunta incômoda: e se o antagonista estiver errado quanto às consequências de sua ação, mas certo quanto ao impulso moral que a motiva? Beckwith pode estar causando um desastre temporal, mas sua tentativa de salvar uma vida revela uma dimensão humana que torna o personagem bem mais complexo do que a princípio o percebemos. E isso modifica profundamente o sentido da tragédia. A versão televisiva e a versão original de Ellison partem de uma premissa semelhante, mas percorrem caminhos diferentes O episódio produzido para a televisão é extremamente concentrado na relação entre Kirk e Edith Keeler. A grande força emocional está no momento em que Kirk precisa compreender que seu amor por ela não pode prevalecer sobre a História.

É uma conclusão devastadora porque Kirk não vence, mas simplesmente aceita. Na versão de Ellison, entretanto, a dinâmica é diferente. O conflito envolvendo Beckwith e sua tentativa de impedir o acidente acrescenta outra camada à narrativa. O destino de Keeler continua sendo fundamental, mas a trajetória até ele possui outra lógica dramática. Isso torna a comparação entre as duas versões particularmente fascinante. Uma não invalida a outra.Na realidade, as duas demonstram como uma mesma ideia pode produzir histórias diferentes dependendo das escolhas narrativas feitas durante o processo de adaptação.Transformar um roteiro original de Harlan Ellison em uma história em quadrinhos não era exatamente uma tarefa para quem estivesse procurando um emprego tranquilo.David Tipton e Scott Tipton precisavam preservar o espírito do texto original, reorganizando-o para uma mídia em que a narrativa depende simultaneamente de diálogos, enquadramentos, ritmo visual e composição de página.E a adaptação funciona muito bem, pois os irmãos Tipton conseguem transportar a proposta de Ellison para os quadrinhos sem transformá-la em uma simples cópia do episódio televisivo. A história mantém sua identidade própria, respeitando as diferenças fundamentais da versão original. Esse é provavelmente o maior mérito do trabalho dos roteiristas: compreender que adaptar não significa necessariamente reproduzir.A função deles é permitir que o leitor conheça aquilo que Ellison pretendia contar originalemente. E, nesse sentido, a adaptação é extremamente bem-sucedida. Se os Tipton enfrentaram o desafio de adaptar Ellison, J. K. Woodward recebeu uma missão igualmente complicada: desenhar personagens que, na imaginação coletiva do público, praticamente já pertencem aos atores que os interpretaram. Não basta desenhar Kirk.É preciso desenhar William Shatner como Kirk.Não basta desenhar Spock. É preciso que o leitor enxergue Leonard Nimoy como Spock. E Woodward consegue realizar esse trabalho com competência impressionante, abrindo mão de qualquer recurso tecnológico e produzindo totalmente “à moda antiga”, com referências visuais, lápis, nanquim e tintas. Sua arte pintada possui uma aparência bastante particular, valorizando texturas, iluminação e atmosferas. Ao mesmo tempo, consegue preservar a identidade visual dos personagens e reproduzir com fidelidade os rostos associados ao elenco original. Kirk, Spock, Rand e os demais integrantes da tripulação são reconhecíveis imediatamente. Mais do que isso, Woodward também consegue recriar os ambientes e cenários característicos de Jornada nas Estrelas, transportando para as páginas dos quadrinhos a atmosfera da série clássica. A pintura dá à obra uma dimensão quase cinematográfica. Em determinados momentos, parece que o leitor está diante de uma sequência de imagens congeladas de um filme que nunca foi produzido. E isso combina perfeitamente com o conceito do projeto: estamos vendo uma espécie de “episódio perdido”, embora não exatamente aquele episódio que conhecemos. Não obstante, não se pode falar desta publicação sem mencionar o relacionamento extremamente conturbado entre Harlan Ellison e a produção de Jornada nas Estrelas. O episódio levado ao ar tornou-se um clássico absoluto e é, até hoje, considerado uma das melhores histórias da série. Entretanto, Ellison ficou profundamente insatisfeito com as alterações realizadas em seu roteiro. O conflito foi longe. Muito longe. O escritor passou décadas criticando a maneira como seu trabalho havia sido modificado e tornou-se uma das histórias mais famosas dos bastidores de Star Trek. O episódio televisivo, portanto, possui uma curiosa condição: é simultaneamente um dos maiores triunfos criativos da série e um dos exemplos mais célebres de conflito entre um roteirista e a produção de Hollywood. É quase como se a própria história tivesse contaminado a realidade. A trama fala sobre alterar o passado. E a produção passou décadas discutindo justamente quem tinha alterado o quê no passado. Convenhamos: é um nível de coerência temática involuntária bastante impressionante.O grande mérito desta edição da Mythos está justamente em permitir que o leitor conheça a outra possibilidade. A versão televisiva é uma obra-prima por mérito próprio. A relação entre Kirk e Edith Keeler, o dilema temporal, a atuação do elenco e a conclusão devastadora fazem dela uma das histórias definitivas da série original.
Já a versão concebida por Ellison oferece algo diferente: uma narrativa mais próxima da visão original do escritor, com Beckwith ocupando o papel de responsável pela ruptura temporal, Janice Rand assumindo maior importância e uma abordagem diferente para o conflito envolvendo Edith Keeler. Não é necessário escolher uma e decretar que a outra está errada. Aliás, seria um desperdício. A versão televisiva transformou o conceito em uma tragédia emocional de enorme impacto. A versão de Ellison revela o caminho que poderia ter sido seguido e permite compreender melhor a dimensão das ideias originalmente colocadas no papel. São duas interpretações de uma mesma premissa. Duas viagens pelo mesmo passado. Duas maneiras de chegar à mesma eternidade. JORNADA NAS ESTRELAS – CIDADE À BEIRA DA ETERNIDADE, da Mythos, é, portanto, uma publicação particularmente valiosa para o fã da série original e para qualquer leitor interessado nos bastidores da criação de uma obra clássica, uma vez que possui um interessante e revelador prefácio do senhor Ellison e extras dos artistas envolvidos na produção. A adaptação competente dos irmãos David Tipton e Scott Tipton consegue preservar a personalidade da proposta de Ellison, enquanto a competente arte pintada de J. K. Woodward – ainda que não seja do nível de um Alex Ross – oferece uma interpretação visual sofisticada e fiel ao universo televisivo. No fim das contas, a maior surpresa é perceber que “A Cidade à Beira da Eternidade” não é apenas uma história sobre viagem no tempo. É também uma história sobre escolhas. Escolhas de personagens, escolhas de roteiristas, escolhas de produtores e escolhas feitas no processo de transformar uma ideia em televisão. A versão exibida em 1967 tornou-se um clássico incontestável. A versão original de Ellison, por sua vez, permite conhecer uma história diferente, mais próxima daquilo que o escritor originalmente imaginou. E talvez essa seja a melhor conclusão possível: não precisamos destruir uma linha temporal para escolher entre as duas. A televisão nos deu uma das maiores tragédias e também uma das melhores histórias de Jornada nas EstrelasEllison nos permite descobrir o que existia antes dela.E os irmãos Tipton, com a acertada pintura de Woodward, fizeram algo que parecia tão impossível quanto consertar uma linha temporal: transformaram o roteiro original em uma excelente história em quadrinhos, sem apagar as diferenças que fazem dela uma experiência tão fascinanteNo universo de Star Trek, isso já seria motivo suficiente para chamar Scotty e pedir uma nave.Mas, neste caso, felizmente, basta abrir o gibi.😉😉
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻