Paulo Telles

O universo de Jornada Nas Estrelas que tanto conhecemos e amamos até hoje — repleto de explorações espaciais, dilemas filosóficos e naves estelares icônicas — nasceu de uma visão ambiciosa de Gene Roddenberry (1921-1991) em 1964. Antes mesmo de excursionar pela ficção científica, Roddenbery redigia outros trabalhos para televisão norte americana, elaborando roteiros para diversas séries, entre os quais, Paladino do Oeste (Have Gun Will Travel, 1957 a 1963), estrelada por Richard Boone. Contudo, antes mesmo que pudesse tirar do papel a ideia de uma série espacial e que duraria entre 1966 a 1969 com 7 episódios, a franquia enfrentou um problema com seu primeiro episódio piloto, intitulado A Jaula (The Cage). Dirigido por Robert Butler (1927- 2023), experiente diretor de televisão que realizou vários trabalhos por traz das câmeras para várias séries clássicas da TV, como Batman (1966-1968) e O Túnel do Tempo (1966), foi estrelado por Jeffrey Hunter (1926-1969) no papel do capitão Christopher Pike, este piloto original apresentava uma tripulação consideravelmente diferente daquela que viria a eternizar a série clássica. A bordo da USS Enterprise, Pike respondia a um falso pedido de socorro do planeta Talos IV, onde encontrava sobreviventes de uma expedição científica — entre ele Vina (Susan Oliver, 1932-1990). O que parecia uma missão de resgate revelava- se uma armadilha meticulosa tramada pelos talosianos, seres dotados de poderosas capacidades mentais que testavam os limites da resistência e da força psicológica de Pike.

Originalmente, o projeto foi rejeitado pelos executivos da rede de televisão sob a justificativa de ser “cerebral demais” para o público da época. Além, a emissora demonstrou forte resistência a elementos progressistas que Roddenberry, como pessoa, defendia, tentando introduzir, como a presença de uma mulher — a Número 1, vivida por Majel Barrett (1932-2008) — ocupando o posto de oficial e segunda em comando na hierarquia da nave. E detalhe: tudo isso ocorrido no ano de 1964, época de plenos movimentos civis e culturais, reinvindicações pelos direitos sociais, e pela luta dos movimentos feministas. Diante da recusa, a rede permitiu uma oportunidade rara na história da televisão: produzir um segundo piloto (que resultaria no episódio Onde nenhum Homem Jamais Esteve), algo quase inédito na indústria. Com a reformulação, a estrutura do programa mudou drasticamente. Apenas dois atores do elenco original foram reaproveitados: Leonard Nimoy (1931-2015), que permaneceu como o icônico oficial de ciência, o vulcano Spock — embora com uma personalidade inicialmente mais expressiva e menos austera do que a consolidada na série regular. Majel Barrett, que retornou à franquia em um papel diferente, assumindo posteriormente a persona da enfermeira Christine Chapel. Jeffrey Hunter, a princípio o único protagonista mantido para prosseguir na série, acabou se desligando do projeto alegando outros compromissos profissionais. Entretanto, a realidade foi outra. Hunter havia conquistado uma carreira no cinema, e mesmo sendo um galã juvenil nos anos de 1950, conseguiu notoriedade em trabalhos ao lado de John Wayne em Rastros de Ódio (1956) e O Último Hurrah (1958) com Spencer Tracy, ambos dirigidos por John Ford. Mas em 1961, interpretou Jesus Cristo no clássico bíblico Rei dos Reis, de Nicholas Ray. A esposa de Hunter, uma ex-modelo, invadia os escritórios de todos os executivos da rede de TV para fazer exigências absurdas, e tudo sem o consentimento do ator. Hunter acabou se desligando de vez do projeto, se divorciou da esposa e foi para Europa filmar faroestes italianos, tomando o mesmo rumo de alguns atores de Hollywood da sua geração que aproveitaram a moda dos westerns spaghetti e viam na Europa uma espécie de Terra Prometida para alavanco de suas carreiras. Com a saída de Hunter, o comando da Enterprise foi entregue a William Shatner, que transformou o capitão James Tiberius Kirk em um ícone pop global. Curiosamente, A Jaula permaneceu inédita na íntegra na televisão norte americana até 1986. No mesmo ano, foi lançado no mercado de vídeo no formato VHS nos Estados Unidos, que vinha com comentários especiais de Gene Roddenbery.

No Brasil, este piloto só chegou ao nosso extinto mercado VHS em 1989, sob o título comercial de Jornada Nas Estrelas – Como Tudo Começou, lançado pela saudosa CIC Vídeo, e muito embora a capa vinha anunciando com comentários adicionais de Gene Roddenbery, tal como feita para edição norte americana, a edição brasileira não recebeu este privilégio. O material original não foi totalmente desperdiçado: cenas cruciais de The Cage foram engenhosamente reaproveitadas em 1966 no aclamado episódio em duas partes A Coleção (The Menagerie). Hoje, para quem assiste The Cage é como enxergar a pedra fundamental de uma das maiores mitologias da cultura pop. O capitão Christopher Pike, brilhantemente vivido por Jeffrey Hunter, que morreu poucas semanas antes do término da série clássica em 1969, não apenas pavimentou o caminho para Kirk, como anos mais tarde ganhou uma nova e justa camada de protagonismo na atual série Star Trek: Strange New Worlds, provando que a visão original de Roddenberry era e é, sem dúvida, atemporal.