Duas Terras, quatro crises e uma quantidade razoável de problemas para resolver. LEANDRO BANNER

A COLEÇÃO CRISE NAS MÚLTIPLAS TERRAS, da Panini Comics Brasil, prossegue sua viagem pelo período em que a DC descobriu que uma Terra só era pouco para acomodar tantos heróis, versões alternativas, vilões, sociedades secretas e, evidentemente, dores de cabeça editoriais. O segundo volume mantém a proposta do anterior e reúne mais quatro encontros entre a Liga da Justiça da Terra 1 e a Sociedade da Justiça da Terra 2, originalmente publicados em Justice League of America #55-56, #64-65, #73-74 e #82-83, entre 1967 e 1970. A edição mantém o bom padrão gráfico do primeiro volume, com capa cartão e papel couché, proporcionando uma reprodução bastante competente das páginas originalmente produzidas para impressão colorida. É uma escolha que combina bem com esse material clássico: não transforma uma história de mais de cinquenta anos em algo que ela não é, mas permite que o leitor aprecie melhor o desenho, as cores e, sobretudo, o trabalho dos artistas. E a própria embalagem já brinca com a ideia de releitura histórica, exatamente como na primeira edição. A contracapa reproduz a ilustração de capa original de JLA #55, realizada por Mike Sekowsky e Murphy Anderson, ao passo que a capa da COLEÇÃO recebe uma bela reinterpretação de Tom Grummett e Karl Kesel, que atualiza visualmente a composição sem apagar sua origem.

Assim como no volume anterior, as primeiras histórias ainda carregam bastante da fórmula característica da época: aventuras relativamente simples, explicações convenientes e soluções que aparecem com a mesma velocidade de um vilão anunciando seu plano maligno em voz alta. Entretanto, há uma evolução perceptível. A chegada de Denny O’Neil aos roteiros, acompanhada pela presença cada vez mais marcante de Dick Dillin nos desenhos(que assumira o posto como artista regular do título pouco antes da chegada de O’Neil), ajuda a conferir maior dinamismo às histórias. O material continua sendo essencialmente uma aventura de super-heróis à moda antiga, mas começa a apresentar personagens um pouco mais desenvolvidos e conflitos que ultrapassam o simples “heróis encontram vilões e salvam o dia”. O próprio conceito das Terras paralelas vai ficando mais interessante. O encontro entre Terra 1 e Terra 2 deixa de ser apenas uma curiosidade anual e começa a funcionar como um laboratório para explorar versões alternativas dos personagens, suas diferenças e, principalmente, aquilo que poderia ter acontecido de outra maneira. E é justamente aí que o Robin da Terra 2 ganha um destaque especial. Em JLA #55-56, a ameaça começa com misteriosas esferas negras, capazes de transformar pessoas comuns em poderosos supervilões. A premissa é deliciosamente absurda — exatamente como deveria ser numa história de super-heróis de 1967 —, mas a trama ganha um elemento particularmente interessante quando somos apresentados a uma versão amadurecida do Dick Grayson na Terra 2. Esse Robin não é mais o garoto que acompanha Batman nas aventuras. Ele cresceu e, após os acontecimentos envolvendo o Batman daquela realidade, assumiu o manto do Homem-Morcego. A ideia é importante porque mostra uma das grandes possibilidades narrativas oferecidas pela Terra 2: personagens conhecidos podem ter seguido caminhos completamente diferentes. O Robin que, na Terra 1, ainda era associado ao parceiro juvenil do Batman, pode se tornar o próprio Batman em outra realidade. E o uniforme é um espetáculo à parte. Trata-se de uma espécie de Batman híbrido, misturando elementos do traje tradicional do Homem-Morcego com características do antigo uniforme de Robin. É como se Dick Grayson tivesse entrado no armário do Batman, pegado algumas peças, olhado para o próprio uniforme antigo e decidido: “Dá para fazer uma coisa com isso aqui”. Mais importante do que a aparência, porém, é a ideia. A DC começava a perceber que as Terras alternativas poderiam servir não apenas para colocar heróis diferentes na mesma aventura, mas para mostrar possibilidades de futuro, envelhecimento e sucessão. Em JLA #64-65, o Tornado Vermelho retorna à Terra 2, mas não exatamente como o personagem que havia aparecido anteriormente. Agora ele surge cercado de dúvidas e incertezas, enquanto a Sociedade da Justiça precisa lidar com uma série de ameaças antecipadas pelo computador “Previsor” do Homem-Hora. A trama introduz também Félix Ulisses Turo (F. U. Turo) responsável pela criação dessa nova versão do Tornado Vermelho. E, como costuma acontecer nesses casos, a criação do vilão não é exatamente um presente de aniversário para os heróis. Turo manipula os acontecimentos de maneira a colocar Liga da Justiça e Sociedade da Justiça numa situação extremamente perigosa. A verdadeira intenção é conduzir os dois grupos para uma armadilha destinada a destruir simultaneamente os heróis das duas Terras. Aqui aparece outra característica interessante dessa fase: os roteiros começam a perceber que uma boa crise não precisa necessariamente colocar apenas um grupo de heróis em perigo. Se existem duas Terras, por que destruir apenas uma quando podemos ameaçar as duas de uma vez? É uma lógica editorial bastante eficiente que vai evoluindo.O díptico JLA #73-74 eleva novamente a escala da ameaça com o surgimento de Aquarius, uma entidade cósmica que foi condenada e exilada por seus próprios semelhantes. Naturalmente, alguém assim não retorna ao universo disposto a abrir uma pequena loja de conveniência.

Aquarius coloca a Terra 2 em uma dimensão espiritual além da existência, provocando uma situação que obriga a Liga da Justiça da Terra 1 a acudir novamente seus companheiros da Sociedade da Justiça.A aventura funciona particularmente bem dentro da proposta das Crises nas Múltiplas Terras porque reforça a relação entre os dois grupos. A Sociedade da Justiça não é apenas uma versão antiga dos heróis da Liga. Eles são tratados como aliados, amigos e equivalentes de outra realidade, e a ameaça à Terra 2 passa a ser uma ameaça emocional também para os personagens da Terra 1. Ao mesmo tempo, a história demonstra como a DC começava a brincar cada vez mais com conceitos cosmológicos. Dimensões espirituais, entidades cósmicas, mundos paralelos e ameaças à própria existência vão se tornando ingredientes naturais dessas aventuras. É o tipo de escalada que começa inocentemente com “vamos visitar outra Terra” e termina em “precisamos recuperar uma realidade que foi jogada para fora da existência”. Nada como manter o expediente movimentado. Em JLA #82-83, aparece outro personagem com uma ideia particularmente modesta: o ser chamado Criador pretende unir as Terras 1 e 2 para utilizar a enorme quantidade de energia liberada pela fusão com o intuito de criar um mundo segundo aquilo que considera ideal. É uma proposta que demonstra como a fórmula das histórias de encontros entre as Terras paralelas estava se tornando progressivamente mais ambiciosa.

A ideia de simplesmente visitar uma realidade alternativa começa a ser substituída pela possibilidade de alterá-la, destruí-la, fundi-la ou recriá-la. As duas Terras deixam de ser apenas cenários diferentes e passam a funcionar como elementos fundamentais da mitologia da DC. Também fica evidente uma característica recorrente dessas histórias: o vilão frequentemente possui uma explicação gigantesca para seu plano, mas a execução depende de uma quantidade igualmente gigantesca de coincidências, máquinas extraordinárias, poderes convenientes e personagens que inexplicavelmente colaboram até perceberem que estavam sendo enganados. Mas reclamar disso seria quase como reclamar que o Cebolinha fala errado de propósito. Faz parte do pacote. É importante lembrar que essas histórias estão muito longe da complexidade narrativa que a DC alcançaria em CRISE NAS INFINITAS TERRAS, décadas mais tarde. As soluções continuam frequentemente fáceis e convenientes, os vilões explicam demais seus planos e algumas reviravoltas parecem surgir porque o roteiro simplesmente precisa delas naquele momento. Entretanto, seria injusto cobrar dessas histórias uma sofisticação que elas não pretendiam oferecer. Seu objetivo principal é entreter — e elas cumprem essa função com bastante eficiência. Mais do que isso, cada encontro vai acrescentando pequenas peças ao gigantesco quebra-cabeça que posteriormente se tornaria a mitologia das múltiplas Terras O amadurecimento do Robin da Terra 2, as diferentes encarnações do Tornado Vermelho, a relação cada vez mais próxima entre Liga e Sociedade da Justiça, as ameaças cósmicas e as possibilidades de interação entre realidades distintas vão estabelecendo conceitos que serão reutilizados e ampliados posteriormente. Nesse sentido, talvez o maior mérito dessas histórias não esteja necessariamente em cada aventura isoladamente, mas no processo de construção de uma mitologia. A DC estava experimentando. Algumas experiências funcionavam melhor que outras, algumas soluções eram bastante forçadas e outras pareciam ter sido produzidas depois de alguém perguntar “e se juntássemos as duas Terras também?”. Mas, pouco a pouco, o terreno estava sendo preparado. E é justamente essa característica que torna a leitura retrospectiva tão interessante. O segundo volume de Crise nas Múltiplas Terras ainda está muito mais próximo da aventura descompromissada do que da grande epopeia cósmica. Mas a fórmula está ficando mais sofisticada, os personagens começam a ganhar novas possibilidades e as duas Terras já não parecem apenas um truque editorial simpático. Elas estão se transformando em parte essencial da identidade da DC. E , considerando o que aconteceria alguns anos depois, talvez fosse melhor alguém ter avisado os personagens para começarem a guardar documentos, certidões e comprovantes de residência. Afinal, quando existem duas Terras, sempre há o risco de alguém aparecer dizendo que uma delas está atrapalhando a continuidade.
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻