RAN : CLÁSSICO DE AKIRA KUROSAWA É RELANÇADO NOS CINEMAS

Marcelo Cinéfilo

Lançado em 1985, Ran representa o ápice da maturidade artística de Akira Kurosawa. O filme transcende a mera transposição da tragédia Rei Lear, de William Shakespeare, para o Japão Feudal, ele se estabelece como um ensaio estético sobre a decadência humana Através de um controle preciso e de uma sensibilidade pictórica sem paralelos, Kurosawa utiliza o cinema não apenas para contar uma história de traição familiar e ambição política, mas para materializar visualmente o conceito abstrato do caos; significado literal da palavra que dá título à obra.
A essência da identidade visual de Ran reside na escolha radical de Kurosawa pelo uso de lentes teleobjetivas longas (frequentemente acima de 75mm). Ao rodar as cenas a grandes distâncias físicas do cenário, o diretor provoca um fenômeno de achatamento de perspectiva que altera a percepção tridimensional do espectador. A distância entre os exércitos em primeiro plano, os personagens no plano médio e as montanhas ao fundo é achatada em uma única dimensão visual. O efeito psicológico resultante é esmagador: os indivíduos parecem sufocados pela imensidão da paisagem e pela marcha inevitável da história, eliminando qualquer senso de escape ou livre-arbítrio.Aliado a isso, Kurosawa adota uma simetria rígida e centralizada na composição dos quadros, que remete à pintura clássica. O protagonista, Hidetora Ichimonji, é inicialmente posicionado no centro geométrico perfeito da tela, cercado simetricamente por seus vassalos e filhos. À medida que o império desmorona e a loucura se instala, o diretor introduz deliberadamente a ruptura dessa harmonia por meio de linhas diagonais agressivas; flechas que cruzam o quadro, estandartes militares inclinados e corpos caídos. A transição da simetria perfeita para o desequilíbrio geométrico é a tradução formal da perda de controle do patriarca sobre seu mundo.
O estilo de atuação e a concepção visual dos personagens afastam-se do realismo psicológico do cinema ocidental, buscando abrigo nas convenções do Teatro Noh japonês. Essa influência se manifesta de forma mais contundente na transformação física e interpretativa de Hidetora (Tatsuya Nakadai). À medida que o personagem submerge na demência após ser traído por seus herdeiros, sua maquiagem transmuta-se progressivamente em uma máscara rígida e empastada de tons brancos e cinzentos, mimetizando as máscaras expressionistas do Noh.Os movimentos dos atores em cena seguem uma coreografia rítmica e cerimonial. O caminhar arrastado, as pausas dramáticas congeladas no tempo e a estilização dos gestos transformam as interações humanas em um balé ritualístico de poder e submissão. A encenação ganha uma dimensão mítica: os personagens deixam de ser meros indivíduos históricos e passam a operar como arquétipos universais da tragédia.
Tendo iniciado sua carreira artística como pintor, Kurosawa tratou sua obra como uma extensão da tela de pintura. Antes de iniciar as filmagens de Ran, o diretor passou anos desenhando e pintando meticulosamente os storyboards do filme em aquarela. Na obra final, a paleta de cores assume uma função estritamente símbolica e narrativa, dividindo o universo geopolítico do filme através de um código de cores rigoroso associado aos exércitos dos três filhos de Hidetora:Taro (O primogênito) é associado ao vermelho, cor que simboliza a ambição cega e a fúria do poder estabelecido.Jiro (O filho do meio) é representado pelo amarelo, matiz que evoca a traição dissimulada, a covardia moral e a instabilidade política.Saburo (O caçula banido) recebe o azul, tonalidade ligada à lealdade, à verdade melancólica e ao isolamento da retidão.Kurosawa justapõe essas armaduras e estandartes de cores vibrantes a cenários desolados de terra arrasada, cinzas vulcânicas e campos de um verde quase radioativo sob céus carregados. O contraste estético acentua a pequenez e a futilidade das ambições humanas diante da indiferença do mundo.
Os elementos climáticos em Ran não funcionam como mero pano de fundo decorativo, mas operam como agentes ativos da narrativa. Há uma coordenação matemática entre o colapso psicológico das personagens e a atmosfera meteorológica. O filme abre com um céu azul límpido e opressor de verão que, gradativamente, fecha-se em nuvens pesadas e escuras à medida que a conspiração familiar se desenha. Ventos uivantes, névoas densas que engolem os exércitos e tempestades torrenciais atuam como extensões físicas da turbulência interna dos personagens e do próprio julgamento divino sobre os atos humanos.No campo da edição de som, Kurosawa executa uma das rupturas mais celebradas da história do cinema durante a icônica sequência do ataque ao Terceiro Castelo. Ao iniciar o massacre, o diretor remove por completo todos os efeitos sonoros diegéticos e realistas da batalha: o espectador não ouve o clamor das espadas, os gritos de agonia, as explosões ou os disparos de mosquetes (espingardas).Em vez disso, a carnificina é inundada exclusivamente pela trilha sonora fúnebre, expressionista e em tom de lamentação; composta por Toru Takemitsu.O silêncio do mundo real força o público a contemplar o horror de uma perspectiva puramente estética e filosófica; como se os deuses estivessem assistindo à autodestruição da humanidade em total mudez. Esse transe contemplativo é quebrado de forma brutal quando o som realista retorna abruptamente com o eco de um tiro específico que fere Hidetora, provocando um choque sensorial violento que traz o espectador de volta à crueza imediata da morte.
Por fim, a forma e o estilo de Ran operam em perfeita harmonia com seu conteúdo temático. Akira Kurosawa articulou a técnica cinematográfica, da compressão das lentes à simbologia das cores e ao expressionismo sonoro; para construir uma obra sobre o colapso da razão. O filme permanece como um monumento estético porque compreendeu que a melhor maneira de retratar o caos absoluto era através do controle absoluto da forma.

Ficha técnica de Ran (1985)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide (Baseado em Rei Lear, de Shakespeare)
Elenco Principal: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryu e Mieko Harada
Gênero: Drama Épico / Guerra
Países: Japão e França

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