HQ | MARSHAL BLUEBERRY

Leandro Banner

MARSHAL BLUEBERRY: quando o tenente troca a patente por uma estrela de marshal… e continua arrumando confusão. Quando Jean-Michel Charlier faleceu em 1989, parecia impossível imaginar alguém assumindo sozinho as rédeas de Blueberry, uma das maiores séries de faroeste dos quadrinhos europeus. Afinal, Charlier era um mestre na construção de tramas intrincadas, diálogos afiados e personagens moralmente ambíguos. Coube então a Jean Giraud, o eterno Moebius, aceitar o desafio de prosseguir com o universo que ele próprio ajudou a tornar lendário através de seus desenhos. O resultado foi MARSHAL BLUEBERRY, uma minissérie formada por três álbuns — Por Ordem de Washington (1991), Missão Sherman (1993) e Fronteira Sangrenta (2000) — publicada no Brasil pela Editora Pipoca e Nanquim em agosto de 2025 numa edição única, luxuosa e extremamente caprichada. Mais do que uma simples continuação, MARSHAL BLUEBERRY funciona como um elegante “capítulo perdido” da cronologia da série. Giraud posiciona a história entre os álbuns General Cabeça Amarela e A Mina do Alemão Perdido — ambos presentes em Blueberry – Edição Definitiva #2 (sobre a qual já falamos aqui: https://cinemacompoesia.com/2024/05/25/hq-territorio-neutro-blueberry-edicao-definitiva-volume-2blueberry-edicao-definitiva-volume-2/) — preenchendo uma lacuna temporal sem criar qualquer conflito com os acontecimentos já conhecidos pelos leitores.

A premissa é irresistível. Lotado no Forte Navajo, Mike Blueberry recebe uma missão oficial do governo americano, e a fim de cumprir a investigação, ganha temporariamente uma nova estrela no peito: torna-se marshal federal. Claro que mudar de patente não muda sua personalidade. Blueberry continua sendo o mesmo sujeito impulsivo, insolente, desconfiado da autoridade e dotado daquele talento quase sobrenatural para transformar qualquer missão relativamente simples em uma sequência de perseguições, emboscadas, tiroteios e problemas diplomáticos de proporções continentais. A investigação conduz o protagonista por uma conspiração envolvendo interesses políticos, militares e econômicos, onde ninguém parece exatamente confiável. Como sempre acontece nas melhores histórias da série, o verdadeiro inimigo raramente é aquele que está apontando uma arma. Giraud mantém viva uma das principais virtudes criadas por Charlier: um Velho Oeste onde corrupção, ambição e jogos de poder são tão perigosos quanto qualquer pistoleiro. Embora sua escrita naturalmente não alcance a mesma sofisticação narrativa de Charlier, Giraud demonstra compreender profundamente quem é Blueberry. Seu roteiro é fluido, muito bem estruturado e conduz o leitor com naturalidade pelos diversos acontecimentos, equilibrando ação, investigação, suspense e alguns momentos de humor proporcionados pela personalidade irônica do protagonista. Em nenhum momento a leitura se torna cansativa. Pelo contrário: é o tipo de álbum que convida o leitor a virar “só mais uma página”… até perceber que já chegou ao final.

Mas, convenhamos: falar de Blueberry sem dedicar um bom espaço à arte seria quase um pecado editorial. Os dois primeiros álbuns contam com os desenhos magníficos de William Vance, um dos maiores nomes dos quadrinhos franco-belgas, artista mundialmente conhecido por seu trabalho na série de espionagem “XIII”. Seu traço impressiona pelo refinamento técnico. Cada página é construída com um nível de detalhamento extraordinário, desde os uniformes militares até as armas, cavalos, formações rochosas e cidades do Oeste americano. Vance domina a anatomia, a narrativa visual e a composição de cenas de ação com uma elegância quase cinematográfica. Seus enquadramentos transmitem movimento, tensão e grandiosidade sem jamais sacrificar a clareza da leitura. No terceiro álbum, Michel Rouge, conhecido por ilustrar “Comanche”, outra famosa série de faroeste, assume os desenhos para concluir a história. A troca de artistas poderia soar brusca, mas acontece justamente o contrário. Rouge realiza um trabalho admirável ao aproximar seu traço da identidade gráfica criada por Jean Giraud décadas antes. Seu desenho limpo, preciso e expressivo preserva a atmosfera clássica da série e proporciona uma transição bastante natural. Em vários momentos é possível perceber a influência direta do mestre francês, tanto na construção dos personagens quanto nas vastas paisagens do Oeste, que continuam tão belas quanto perigosas. Visualmente, portanto, MARSHAL BLUEBERRY é um verdadeiro espetáculo. Cada página parece convidar o leitor a desacelerar apenas para apreciar a riqueza dos cenários, a iluminação e os inúmeros detalhes espalhados pelos quadros. É um daqueles quadrinhos que merecem uma segunda leitura dedicada exclusivamente à arte.

A edição da Pipoca e Nanquim faz plena justiça ao material original. A encadernação em capa dura transmite robustez, enquanto o papel offset de boa gramatura valoriza a reprodução das páginas, preservando texturas, linhas e nuances do desenho sem reflexos excessivos. O acabamento gráfico segue o alto padrão que a editora costuma entregar em seus lançamentos, transformando o volume em uma peça digna de qualquer estante dedicada aos grandes clássicos dos quadrinhos. No fim das contas, MARSHAL BLUEBERRY talvez não represente o auge absoluto da franquia, nem pretenda substituir o trabalho monumental realizado por Jean-Michel Charlier. E nem precisa. Giraud compreende que sua missão não era reinventar Blueberry, mas oferecer uma aventura inédita, consistente e fiel ao espírito do personagem. E consegue isso com evidente e irrefutável competência. O resultado é uma história envolvente, muito bem construída, repleta de ação, conspirações e personagens interessantes, enriquecida por uma arte simplesmente fantástica. Somada ao primor editorial da Pipoca e Nanquim, essa edição torna-se leitura obrigatória para os fãs do tenente mais encrenqueiro do Velho Oeste. Afinal, mudar de patente é fácil; difícil mesmo é impedir Mike Blueberry de desafiar superiores, desconfiar de todo mundo e transformar uma missão oficial em mais uma aventura inesquecível. Ainda bem que ele nunca aprende.

Avaliação: 4,5/5

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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