Adilson Santos
Uma das mais emocionantes sagas literárias a abordar a trajetória do afro-americano e que conseguiu revolucionar a forma como o público geral via a sofrimento e o sacrifício a que foram submetidos. Não vejo melhor maneira de descrever o impacto de Raízes (Roots: the Saga of An American Family) obra do Norte americano Alex Haley que completa 50 anos de sua publicação e que teve duas adaptações para a TV. A primeira em 1977 e a segunda em 2016. A primeira foi uma minissérie em 8 episódios, que ganhou na época nove Emmys, de um total de 37 indicações, quando exibida originalmente em 1977. Algum tempo depois chegou ao Brasil, sendo exibido pela Rede Globo, mais tarde reprisada pelo SBT, e pelo canal TCM. Há algum tempo sem ser exibida no Brasil, a mini-série está sendo reapresentada de segunda a sexta no canal Rede Brasil, uma iniciativa valorosa para apresentar a história a uma nova geração.

A história começa em uma pequena vila africana em 1767 com o nascimento do jovem Kunta Kintê (Levar Burton), que é capturado por caçadores de escravos e levado para os Estados Unidos, passando por toda forma de humilhação e sofrimento. Nos Estados Unidos é rebatizado, mas rejeita sua nova identidade. Daí em diante, o enredo segue Kunta e seus descendentes até o nascimento do autor da história, seis gerações depois. O autor Alex Haley nasceu em 11 de agosto de 1921 em Ithaca, estado de Nova York, e escreveu sua narrativa a partir das histórias contadas pela sua avó materna, Cynthia Palmer, uma ex escrava alforriada em 1865. Haley passou onze anos pesquisando antes de publicar seu livro em 1976, ano do bicentenário da independência dos Estados Unidos, chegando a mais de oito milhões de cópias vendidas. Contudo, o escritor Harold Courlander (1908-1996) processou Haley por plágio, acusando-o de copiar suas obras, cerca de 35 livros, peças de teatro e numerosos artigos acadêmicos nos quais tratou das culturas africana, caribenha, afro-americana, nativa americana e haitiana. Haley teve que pagar US$650,000em um acordo fora dos tribunais. Ainda assim, o livro de Haley recebeu menções especiais dos comitês do prêmio Pulitzer e do National Book Award, sendo traduzido para 26 idiomas.

Praticamente a metade inteira do livro é dedicada à vida de Kunta Kinte na Gâmbia. O autor descreve detalhadamente sua infância, a cultura da tribo Mandinga, sua educação islâmica e os rituais de iniciação antes de ser capturado. Por limitações de tempo e orçamento da época, toda essa rica introdução africana é resumida em apenas um episódio na minissérie de 1977. Ja o remake dedica mais tempo à África profunda, trazendo maior contextualização sobre a sofisticação das sociedades locais e o papel do comércio na época. O autor, Alex Haley foca estritamente na saga de seus antepassados, sendo que ele próprio aparece de forma direta no último capítulo, explicando como realizou a pesquisa genealógica e cruzou dados orais com arquivos históricos. No livro há um foco profundo no sofrimento psicológico, no processo de desumanização (como a perda do nome original para “Toby”) e nas formas sutis de resistência diária dos escravizados. O terço final do livro avança de forma rápida cobrindo as últimas gerações (as últimas 50 páginas de um calhamaço de quase 700 páginas condensam décadas)

O elenco incluiu nomes como Cicely Tyson (Histórias Cruzadas), John Amos (Um Príncipe em Nova York), Ralph Waite (Os Waltons), Edward Asner (Lou Grant, Cobra Kai), Louis Gossett Jr (A Força do Destino, Inimigo Meu), Lorne Greene (Bonanza), Madge Sinclair (Um Príncipe em Nova York), O.J.Simpson (Corra que a Polícia vem aí) e Lloyd Bridges (Apertem os Cintos O Piloto Sumiu) ao lado do estreante LeVar Burton, que anos depois viveria o futuro comandante George LaForge em Jornada nas Estrelas – A Nova Geração. O papel de Asner foi de forte apelo durante a minissérie, embora este não exista no livro. Asner, que sempre foi um homem de fortes princípios, um liberal idealista, interpretou um homem branco com consciência em relação à escravidão. Além de reunir um elenco renomado de atores da época, outra estratégia que adotada pela ABC foi exibir os oito episódios diariamente em vez de episódios semanais como era tradicional na época. Polêmicas à parte, é inegável o impacto da saga de Kunta Kintê, e como forma de capitalizar houve a sequência Roots: The Next Generation (1979), o telefilme Roots: The Gift (1988) e um remake feito em 2016, mas nenhuma delas com o mesmo grau de importância.