HQS DE TERROR | FRONTEIRAS DO ALÉM : JAYME CORTEZ E O TERROR EM NANQUIM PESADO

Leandro Banner

.Há artistas que precisam de centenas de páginas para deixar uma marca na história dos quadrinhos. Jayme Cortez precisou de bem menos — e talvez justamente por isso sua presença seja ainda mais impressionante. FRONTEIRAS DO ALÉM, da Editora Pipoca & Nanquim, recupera integralmente a produção para quadrinhos desse extraordinário artista luso-brasileiro, oferecendo ao leitor uma oportunidade rara de conhecer, em um único volume, uma obra pequena em quantidade, mas gigantesca em importância para os quadrinhos nacionais. Nascido em Portugal, Cortez chegou ao Brasil ainda jovem e aqui construiu praticamente toda a sua trajetória profissional, tornando-se uma das figuras fundamentais da história dos quadrinhos nacionais. A classificação de “luso-brasileiro” é, portanto, especialmente apropriada: se biologicamente nasceu português, artisticamente tornou-se uma das grandes referências do desenho brasileiro. E não estamos falando de um desenhista que simplesmente passou pelo Brasil; estamos falando de alguém que ajudou a estabelecer padrões de qualidade para uma geração de quadrinhistas e ilustradores brasileiros. O problema — se é que podemos chamar assim — é que Cortez tinha talento demais para caber em uma única profissão. E foi justamente aí que os quadrinhos acabaram perdendo espaço. A trajetória de Jayme Cortez é marcada por uma circunstância particularmente frustrante para quem aprecia HQs: um artista extraordinário que produziu relativamente pouco para os quadrinhos porque acabou direcionando grande parte de seu talento para a publicidade e para outras atividades profissionais. As razões são várias, e o farto material extra de FRONTEIRAS DO ALÉM ajuda justamente a compreender esse percurso. A edição não se limita a despejar as histórias em ordem cronológica e mandar o leitor embora. Os textos, documentos e informações complementares contextualizam a produção, a carreira e as circunstâncias que fizeram com que Cortez tivesse uma presença tão significativa no imaginário dos quadrinhos brasileiros apesar de uma bibliografia relativamente enxuta.

É um daqueles casos em que o leitor termina a leitura com uma sensação simultaneamente satisfatória e melancólica: satisfatória porque finalmente temos acesso à produção integral de Cortez; melancólica porque fica evidente o quanto mais esse artista poderia ter produzido para os quadrinhos se as circunstâncias profissionais fossem outras. Cortez acabou encontrando na publicidade um campo no qual seu domínio da ilustração, da composição, do contraste e da dramaticidade podia ser utilizado de maneira extremamente eficiente e que, certamente, lhe garantia um melhor retorno financeiro também. Para os quadrinhos, entretanto, isso significou uma produção muito menor do que seu talento fazia imaginar, ainda mais se considerarmos que, infelizmente, o mercado de HQs nacionais sempre foi muito difícil e pouco rentável. E FRONTEIRAS DO ALÉM existe justamente para corrigir, ao menos parcialmente, essa injustiça histórica. Entre os grandes destaques do volume está O Retrato do Mal, provavelmente a obra mais conhecida de Jayme Cortez. E há uma particularidade deliciosa para o leitor: a edição reúne as duas versões da história, permitindo uma comparação direta entre elas. A primeira, de 1961, apresenta a narrativa em apenas três páginas. A segunda, realizada em 1974, amplia consideravelmente a experiência para oito páginas. A comparação é reveladora. A versão de 1961 demonstra como Cortez já possuía uma capacidade impressionante de condensar narrativa, atmosfera e impacto visual em pouquíssimo espaço. Três páginas bastam para criar uma história com começo, desenvolvimento e conclusão, sem que o desenhista precise transformar cada quadro em um tratado de literatura. Já a versão de 1974 permite que o artista respire mais. Com oito páginas, a narrativa ganha espaço para desenvolver sua atmosfera e explorar melhor aquilo que sempre foi uma das grandes especialidades de Cortez: o medo sugerido pela imagem. E esse é um ponto fundamental para compreender seu trabalho. Cortez não dependia exclusivamente de monstros grotescos saltando do quadro para assustar o leitor. Muitas vezes, o terror está naquilo que parece estar acontecendo fora do enquadramento, está na sombra, no rosto parcialmente oculto, na arquitetura carregada, no contraste brutal entre áreas de luz e escuridão.

O Retrato do Mal funciona, assim, não apenas como uma excelente história de terror, mas como uma pequena aula de evolução artística. A comparação das duas versões permite observar como Cortez revisita a própria criação mais de uma década depois, ampliando-a sem simplesmente reproduzi-la. Outro aspecto particularmente interessante da coletânea são as adaptações musicais. Cortez transforma em narrativa visual Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Bark at the Moon, de Ozzy Osbourne, e Magoou-se, Pobre Filho Meu?, de Vicente Celestino. São escolhas bastante diferentes entre si e demonstram a inegável versatilidade do artista. Asa Branca, uma das canções mais emblemáticas da música brasileira, ganha uma interpretação visual que demonstra como Cortez conseguia trabalhar não apenas com o terror tradicional, mas também com a dramaticidade e o imaginário presentes na cultura popular brasileira, mesclando o terror nas entrelinhas de tristeza da canção. Bark at the Moon, por sua vez, parece quase feita sob medida para o universo gráfico do artista. A atmosfera sombria da música de Ozzy Osbourne encontra em seu desenho carregado de sombras um equivalente visual muito curioso e particularmente apropriado. E Magoou-se, Pobre Filho Meu?, de Vicente Celestino, recupera outro aspecto importante de sua produção: a capacidade de transformar uma matéria-prima musical e dramática em uma narrativa essencialmente visual na única produção colorida do volume. Essas adaptações funcionam como demonstração de que Cortez não estava preso a uma fórmula única. O artista podia transitar entre referências populares distintas e encontrar uma linguagem gráfica própria para cada uma delas valendo-se dos mais variados estilos gráficos e estéticos sem que isso o descaracterizasse. E, a propósito, se existe uma característica que imediatamente salta aos olhos em FRONTEIRAS DO ALÉM, é a força física do desenho de Jayme Cortez. Seu trabalho não é delicado. O nanquim aparece em quantidades generosas, quase como se o artista tivesse decidido que uma história de terror não deveria economizar tinta. A hachura pesada, os grandes blocos negros e os contrastes violentos entre luz e sombra constituem uma das marcas registradas de sua linguagem. O resultado é uma arte extremamente atmosférica, muitas vezes claustrofóbica, que parece carregar uma espécie de eletricidade gráfica. E existe uma característica curiosa: em determinados momentos, o desenho pode parecer confuso. Mas essa aparente confusão não necessariamente é um defeito. Em histórias de mistério e terror, a clareza absoluta pode ser inimiga da atmosfera. Cortez frequentemente deixa elementos parcialmente escondidos, sobrepostos ou mergulhados em uma massa de linhas e sombras em boa parte das vezes disformes. O leitor precisa olhar novamente, procurar detalhes, reconstruir visualmente aquilo que está diante dos olhos. E é uma estratégia perfeitamente coerente com o gênero e o artista tinha perfeita consciência disso. O medo nasce, muitas vezes, justamente quando não conseguimos enxergar tudo. A hachura de Cortez funciona, portanto, não apenas como acabamento gráfico, mas como elemento narrativo. O excesso de linhas, os negros profundos e a iluminação dramática ajudam a produzir a sensação de que existe alguma coisa escondida naquele desenho — e que talvez seja melhor não descobrir exatamente o que é.🫣 É o equivalente gráfico de ouvir um barulho no corredor durante a madrugada e decidir, por absoluta prudência, que provavelmente foi o vento. Provavelmente. A Pipoca & Nanquim, vale ressaltar, acerta também na maneira de apresentar esse material.

FRONTEIRAS DO ALÉM recebe um tratamento editorial compatível com a importância histórica de seu conteúdo, em um encadernado de capa dura e papel couché, com reprodução capaz de valorizar adequadamente o trabalho de Cortez. E isso é particularmente importante neste caso, pois uma arte baseada em hachuras, grandes massas de preto, linhas extremamente detalhadas e contrastes tão marcantes depende muito da qualidade da reprodução. Uma impressão ruim pode destruir justamente aquilo que torna o trabalho especial, e na edição da Pipoca & Nanquim o papel e a qualidade gráfica permitem que o leitor observe a riqueza dos traços e a complexidade das texturas. O volume também ganha muitos pontos pelo farto material extra, que amplia consideravelmente a experiência de leitura. Mais do que simples bônus para justificar páginas adicionais, os extras ajudam a reconstruir a trajetória de Cortez e a compreender por que sua importância para os quadrinhos brasileiros é muito maior do que sua quantidade de histórias publicadas poderia sugerir. É uma publicação que funciona simultaneamente como álbum, resgate histórico, documento artístico e uma justa homenagem a esse grande artista dos quadrinhos brasileiros. Talvez, vale ressaltar, a maior virtude de FRONTEIRAS DO ALÉM seja justamente deixar evidente o grande paradoxo da carreira de Jayme Cortez, uma vez q o artista produziu pouco para os quadrinhos, mas produziu o suficiente para se tornar indispensável à história deles.

Não é preciso possuir uma bibliografia gigantesca para ser fundamental, pois há artistas cuja influência ultrapassa a quantidade de páginas que desenharam. Cortez pertence claramente a essa categoria. Sua importância para o gênero de terror nos quadrinhos brasileiros é especialmente significativa. Seu domínio do preto e branco, sua utilização agressiva do nanquim, sua habilidade para criar atmosferas opressivas e seu senso de composição fizeram de seu trabalho uma referência para artistas que vieram depois. E há algo particularmente importante nesse resgate: durante muito tempo, conhecer integralmente a produção de um artista como Cortez exigia procurar histórias espalhadas por publicações antigas, muitas delas difíceis de encontrar e em condições variadas de conservação. FRONTEIRAS DO ALÉM elimina esse problema ao reunir toda a sua produção, devidamente recuperada e restaurada por uma capacitada equipe artística, para quadrinhos em um único volume. Verdadeiramente uma espécie de arqueologia editorial — só que, felizmente, sem precisar usar uma escova de dentes para retirar a poeira das páginas, e que vem ocorrendo com vários grandes artistas dos quadrinhos nacionais nos últimos tempos (uma iniciativa muito bem-vinda e louvável). FRONTEIRAS DO ALÉM é uma daquelas publicações que ultrapassam a condição de simples coletânea. O volume recupera uma parcela fundamental da história dos quadrinhos brasileiros e devolve ao público contemporâneo uma obra que, durante décadas, permaneceu muito mais conhecida por sua reputação do que por sua disponibilidade. Jayme Cortez merece ser lembrado não apenas como um grande desenhista de terror, mas como um dos artistas que ajudaram a estabelecer a força visual dos quadrinhos produzidos no Brasil. O fato de ter nascido em Portugal não diminui em absolutamente nada essa importância; sua trajetória artística está profundamente ligada à formação e ao desenvolvimento dos quadrinhos brasileiros. E justamente por isso é impossível não lamentar que sua produção quadrinística tenha sido tão pequena diante de seu talento. Por outro lado, FRONTEIRAS DO ALÉM transforma essa limitação em uma vantagem editorial: pela primeira vez, ou pelo menos de maneira especialmente completa e acessível, podemos olhar para o conjunto da obra e perceber sua coerência, sua evolução e sua extraordinária força gráfica. Entre O Retrato do Mal, em suas duas versões, as adaptações musicais e as demais histórias reunidas no volume, emerge o retrato de um artista que compreendia perfeitamente que, no terror, às vezes uma sombra bem desenhada assusta mais do que um monstro inteiro. Com capa dura, papel couché, reprodução cuidadosa e um generoso aparato editorial, a edição da Pipoca & Nanquim presta um serviço inestimável à memória dos quadrinhos nacionais e confere aos leitores mais novos a possibilidade de conhecer o talento de Jayme Cortez, e aos leitores veteranos a possibilidade de apreciá-lo novamente. Poucas páginas, portanto, não significam pouca importância. No caso de Jayme Cortez, significam apenas que cada página precisa ser olhada com bastante atenção — de preferência durante o dia.😝

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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