Marcelo Cinéfilo

O filme A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around The World In 80 Days, 1956), dirigido por Michael Anderson e idealizado pelo produtor Mike Todd, consolidou-se como um dos maiores marcos do cinema de espetáculo da década de 1950. Em uma época em que os estúdios de Hollywood enfrentavam a forte concorrência da popularização da televisão, a indústria precisava oferecer algo que o público não pudesse replicar na sala de casa. A resposta foi a criação de uma experiência cinematográfica grandiosa, cuja forma e estilo visual operam justamente em função dessa sensação de escala e imersão.
No aspecto técnico, a estética do longa foi profundamente moldada pela tecnologia Todd-AO. Esse processo de filmagem utilizava películas de 70mm com lentes de ângulo aberto, projetadas em telas curvas de grandes proporções. Na prática, essa escolha eliminava as distorções comuns de outros formatos e entregava uma nitidez visual impressionante para os padrões da época. A câmera de Anderson tira proveito máximo desse recurso ao priorizar planos abertos e movimentos panorâmicos horizontais bem lentos. Essa técnica transforma as paisagens geográficas no verdadeiro motor da narrativa, operando sob uma lógica de cartão-postal onde o espectador é convidado a admirar a imensidão do mundo junto com os personagens.
Essa grandiosidade visual é reforçada pela recusa do produtor em utilizar apenas cenários artificiais de estúdio. A produção viajou para dezenas de locações reais ao redor do planeta, registrando as particularidades de países como Espanha, Índia e Japão. Aliado a isso, o uso do Technicolor trouxe uma paleta de cores saturada, viva e contrastante. Cada novo destino ganha uma assinatura visual muito bem definida, que se manifesta tanto na luz natural desses locais quanto nos figurinos detalhados e nos milhares de figurantes que preenchem a tela. O design de produção constrói uma colagem de culturas que salta aos olhos.
A estrutura narrativa acompanha de perto essa fragmentação geográfica. O filme se organiza de maneira episódica, avançando por meio de vinhetas que marcam o cumprimento do trajeto de Phileas Fogg (David Niven)., acompanhado de seu criado Passpartout (Cantinflas). O ritmo da montagem varia bastante de acordo com as necessidades de cada segmento. O espectador passa por momentos de pura contemplação visual, que valorizam as tradições locais de cada parada, e logo em seguida é jogado em sequências dinâmicas de ação e comédia, como a famosa cena da fuga no balão de ar quente.
Outro elemento de linguagem muito particular dessa obra é a proliferação de participações especiais, conhecidas como cameos. Mike Todd espalhou mais de 40 astros consagrados do cinema mundial em papéis minúsculos e sem falas ao longo do roteiro, como Frank Sinatra tocando piano em um saloon ou Buster Keaton como condutor de trem. Essa escolha transformou a própria projeção em um jogo interativo para a audiência, que tentava identificar as celebridades em meio à multidão, fundindo o elenco ao próprio espetáculo visual do filme.
Toda essa engrenagem estética se apoia no trabalho de Victor Young, responsável pela trilha sonora. A música funciona como uma verdadeira bússola para o público. A melodia se transforma e absorve sonoridades e instrumentos típicos de cada região assim que os protagonistas cruzam uma nova fronteira. A trilha amarra os cortes bruscos entre os continentes e garante a unidade de um filme que, em sua essência, foi desenhado para ser uma celebração da capacidade técnica e do alcance do cinema clássico.
Ficha Técnica
- Título Original: Around the World in 80 Days
- Ano de Lançamento: 1956
- País de Origem: Estados Unidos
- Duração: 170 minutos
- Gênero: Aventura, Comédia, Romance
- Direção: Michael Anderson e John Farrow
- Roteiro: James Poe, John Farrow e S.J. Perelman
- Baseado em: Obra homônima de Júlio Verne
- Produção: Michael Todd Company
*Elenco Principal - David Niven como Phileas Fogg
- Cantinflas (Mario Moreno) como Passepartout
- Shirley MacLaine como Princesa Aouda
- Robert Newton como Inspetor Fix
Principais Prêmios (Oscar 1957)
O longa-metragem recebeu 8 indicações e venceu 5 estatuetas do Oscar, incluindo:
- Melhor Filme
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Fotografia (Colorida)
- Melhor Montagem
- Melhor Trilha Sonora