Leandro Banner
Há personagens que simplesmente sobrevivem ao tempo. Outras parecem ter sido mordidas pelo próprio tempo — e, no caso de MIRZA, isso é particularmente apropriado. Criada pelo artista ítalo-brasileiro Eugênio Colonnese, a sensual vampira – cujo nome é MIRela ZAmanova, filha de nobre polonês cuja linhagem foi amaldiçoada – tornou-se uma das figuras mais emblemáticas dos quadrinhos de terror produzidos no país, atravessando décadas com seus cabelos negros, sensualidade, presas afiadas e uma impressionante capacidade de transformar qualquer situação aparentemente tranquila em um convite para alguém perder alguns mililitros de sangue. O OMNIBUS DA MIRZA, da Serial Books, chega com uma proposta que, em princípio, deveria fazer qualquer apreciador dos quadrinhos nacionais abrir um sorriso de satisfação: reunir em um único volume todas as histórias da personagem ilustradas por seu próprio criador, recuperando um material de enorme relevância histórica e artística. O volume compila as três edições anteriormente publicadas pela editora, reunindo agora todo esse material em uma edição única, de capa dura e formato bastante adequado à importância do conteúdo. A iniciativa, portanto, é excelente. O problema é que, em determinados momentos, a edição parece ter decidido disputar espaço com a própria MIRZA na categoria “coisas que assustam o leitor”.😖😖
As histórias reunidas apresentam roteiros de Luis Meri, Basílio de Almeida, Otacílio D’Assunção, Osvaldo Talo, Sidemar de Castro e do próprio Eugênio Colonnese, formando um conjunto bastante variado de aventuras nas quais MIRZA permanece invariavelmente no centro da ação. E esse talvez seja um dos grandes méritos da personagem: embora esteja inserida em narrativas de terror, suspense, mistério e erotismo, MIRZA não funciona apenas como uma figura decorativa destinada a aparecer em uma bela ilustração de abertura, pois ela participa efetivamente das tramas, movimenta os acontecimentos e, frequentemente, é justamente sua natureza vampírica que determina o rumo dos episódios. As histórias exploram situações envolvendo assassinatos, perseguições, vingança, criaturas sobrenaturais, maldições, encontros com personagens destinados a descobrir — geralmente tarde demais — que mexer com uma vampira não é exatamente uma boa ideia. Algumas narrativas apostam mais diretamente no terror tradicional; outras investem no suspense e no mistério; e há aquelas em que o erotismo característico da personagem se mistura à atmosfera macabra. O resultado é uma coleção que funciona quase como uma pequena radiografia da maneira como o terror foi produzido nos quadrinhos brasileiros em diferentes momentos. E, mesmo quando os roteiros não apresentam a mesma sofisticação ou consistência, há uma qualidade que permanece praticamente intocável: a arte de Colonnese. Se MIRZA é a estrela das histórias, Colonnese é o responsável por fazer com que ela literalmente salte das páginas porque sua arte é simplesmente espetacular. O desenho de Colonnese possui uma segurança anatômica, um domínio da figura humana, uma capacidade extraordinária de trabalhar luz e sombra e uma compreensão da narrativa visual que fazem suas páginas parecerem muito maiores do que realmente são. Seus personagens têm presença física; seus corpos possuem volume; seus rostos são expressivos; e suas cenas de terror conseguem transmitir tensão sem depender exclusivamente de textos explicativos. E aqui é preciso fazer uma afirmação que não deveria causar nenhum constrangimento: a arte de Eugênio Colonnese não fica devendo absolutamente nada aos grandes artistas estrangeiros de quadrinhos de terror de sua época (nem mesmo a artistas de hoje em dia, diga-se de passagem). Em vários momentos, pode inclusive ser considerada superior. Colonnese possuía aquele raro talento de transformar uma página de quadrinhos em uma ilustração digna de ser observada individualmente. Seus contrastes de preto e branco, suas sombras carregadas, a composição das figuras e a expressividade de suas mulheres tornam suas páginas visualmente poderosas.
E quando o artista coloca MIRZA em cena, a coisa fica ainda mais evidente, uma vez que a personagem possui não apenas a sensualidade, mas também uma presença ameaçadora. Não é simplesmente uma mulher bonita com presas, é uma criatura sobrenatural que parece saber perfeitamente que é perigosa — e que o leitor também sabe disso. Colonnese consegue equilibrar erotismo e horror sem transformar a personagem em uma caricatura de vampira sensual. É justamente essa combinação que ajudou a transformar MIRZA em um marco dos quadrinhos brasileiros de terror. Entre as histórias reunidas na edição, chama atenção a variedade de situações em que MIRZA é colocada. Há narrativas mais próximas do horror sobrenatural clássico, histórias construídas em torno de perseguições e descobertas, episódios em que o mistério assume papel predominante e aventuras nas quais a vampira se transforma simultaneamente em protagonista, ameaça e objeto de fascínio. As histórias mais marcantes são justamente aquelas em que Colonnese consegue explorar plenamente a atmosfera, pois a narrativa pode até ser relativamente simples, mas basta uma sequência de sombras, uma aparição inesperada ou uma expressão facial particularmente bem desenhada para a história ganhar uma dimensão que o roteiro sozinho talvez não alcançasse.😉 Esse é um dos aspectos mais interessantes da coleção: ler MIRZA hoje é também descobrir como a narrativa gráfica de Colonnese muitas vezes ultrapassa o próprio roteiro. Em determinadas histórias, o argumento é direto, quase episódico. Mas o artista compensa isso com enquadramentos expressivos, cenários carregados, personagens fisicamente convincentes e uma construção visual do suspense que continua funcionando. É o velho princípio de que uma boa história de terror não precisa necessariamente reinventar nem “revolucionar” o gênero; às vezes, basta apenas saber contar uma boa história — e saber desenhar muito bem o que está acontecendo. E Colonnese sabia. Infelizmente, quando chegamos à edição propriamente dita, o entusiasmo começa a encontrar alguns obstáculos consideráveis. O primeiro e mais grave deles está na reprodução das páginas. A primeira parte do volume apresenta dezenas de páginas que parecem ter sido impressas a partir de arquivos de imagem de baixa resolução. O resultado é bastante decepcionante: linhas pouco definidas, detalhes prejudicados, páginas cheias de “sujeiras” de impressão e uma reprodução que não faz justiça à extraordinária arte de Colonnese.
É particularmente frustrante porque estamos diante de um material que deveria receber tratamento editorial quase arqueológico. Restaurar e preservar uma obra histórica dos quadrinhos nacionais exige justamente o cuidado de garantir que o leitor contemporâneo possa apreciar o desenho com a melhor qualidade possível. E aqui, infelizmente, acontece o contrário. O problema de reprodução também aparece nas demais partes do volume, embora em quantidade aparentemente menor. Felizmente, não destrói completamente a experiência, mas é suficientemente frequente para chamar a atenção. E então surge outro problema ainda mais desconcertante: há páginas trocadas, repetidas e fora de ordem.😖 Nesse momento, a experiência deixa de ser simplesmente uma questão estética e passa a interferir diretamente na leitura. Em algumas histórias, o leitor pode se deparar com uma página que deveria estar mais adiante, uma sequência repetida ou uma página deslocada. E aí começa uma modalidade involuntária de interação editorial: em vez de simplesmente virar a página para descobrir o que acontecerá com MIRZA, o leitor precisa começar a investigar qual página deveria vir depois. “Calma, Mirza, antes de morder alguém precisamos descobrir onde está a página seguinte.”😝😝
É um problema particularmente grave porque quebra o ritmo narrativo. Histórias de suspense dependem de progressão, revelação e continuidade. Quando as páginas aparecem fora de ordem, o suspense deixa de ser provocado pelo roteiro e passa a ser provocado pela dúvida sobre a encadernação. É uma pena, porque os aspectos físicos da edição são bastante satisfatórios. A capa dura é adequada ao caráter de coleção e preservação histórica do projeto, e o formato valoriza o material. Um personagem com a importância de MIRZA e um artista da estatura de Colonnese realmente merecem uma edição que tenha presença física na estante.😝 E justamente por isso os problemas de reprodução e montagem incomodam ainda mais. Se a edição tivesse recebido o mesmo cuidado dispensado ao conceito do projeto, estaríamos diante de um lançamento praticamente obrigatório para qualquer interessado na história dos quadrinhos brasileiros. A Serial Books merece crédito pela iniciativa de reunir esse material. Recuperar quadrinhos nacionais, especialmente aqueles que durante muito tempo permaneceram relegados a edições antigas e de difícil acesso, é fundamental para preservar a memória da produção brasileira. Mas resgate histórico não significa apenas colocar histórias antigas dentro de uma capa dura. Também significa preservá-las adequadamente e recuperar os arquivos e/ ou materiais de base originais. Apesar dos problemas, no entanto, há algo que nenhum erro de impressão, página repetida ou sequência fora de ordem consegue destruir: as histórias continuam deliciosamente legíveis. MIRZA permanece uma personagem fascinante justamente porque reúne elementos que continuam funcionando: terror, suspense, sensualidade, mistério e sobrenatural. E, acima de tudo, existe ainda a esplêndida arte de Colonnese. Suas páginas continuam sendo uma demonstração de que os quadrinhos brasileiros produziram artistas capazes de dialogar de igual para igual com qualquer grande nome internacional. Sua capacidade de desenhar corpos, expressões, sombras e atmosferas é extraordinária, e a arte de MIRZA permanece como um dos exemplos mais eloquentes de sua importância. O OMNIBUS DA MIRZA, portanto, é uma publicação paradoxal. De um lado, temos uma iniciativa excelente de preservação e resgate histórico, uma personagem fundamental do terror brasileiro e uma coleção de histórias que merece ser conhecida por novas gerações. Temos também uma boa apresentação física, com capa dura e formato adequado.
Do outro, temos problemas editoriais que não deveriam existir em uma publicação dessa importância: reprodução deficiente de inúmeras páginas, aparentemente causada pelo uso de arquivos de baixa resolução, além de páginas repetidas, trocadas e fora de ordem. É quase como se MIRZA tivesse passado décadas esperando sua grande edição definitiva e, quando finalmente a recebeu, alguém tivesse esquecido de avisar à gráfica que vampiros também precisam de alta resolução. Ainda assim, o saldo artístico permanece muito positivo. As histórias são agradáveis, divertidas e deliciosamente anacrônicas em vários aspectos, misturando terror e suspense com o erotismo característico da personagem. E a arte de Eugênio Colonnese continua sendo o grande motivo para revisitar esse universo. O Omnibus da MIRZA poderia ter sido um verdadeiro marco editorial dos quadrinhos nacionais. Infelizmente, os problemas de reprodução e montagem impedem que seja exatamente isso. Mas o conteúdo continua valioso, a personagem continua fascinante e Colonnese continua extraordinário. No fim das contas, MIRZA sobrevive — como toda boa vampira. O que esperamos é que, numa eventual nova impressão – e ela deveria ocorrer – , a edição também consiga voltar à vida com todas as páginas no lugar e com a resolução que Colonnese e sua principal criação merecem.😉
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻