Adilson Santos

Desde a antiguidade, os oceanos fascinam e amedrontam a humanidade. Cobrindo mais de 70% da superfície terrestre, as profundezas azuis sempre serviram como tela em branco para as maiores ansiedades do homem. A evolução dos monstros marinhos — dos mitos de marinheiros até as grandes produções de Hollywood — reflete a forma como enxergamos o desconhecido. Na mitologia nórdica e nos relatos dos navegadores dos séculos XVII e XVIII, o Kraken reinava absoluto. Descrito como uma lula ou polvo gigantesco capaz de engolir navios inteiros criando redemoinhos, o Kraken personificava o medo de afundar no nada. O mito bíblico do Leviathan, a serpente marinha associada ao caos primordial, ou o Caríbdis, da mitologia grega mostram como varias culturas representam o medo do desconhecido vindo de profundezas abissais. Com o nascimento do cinema e a evolução dos efeitos especiais, as lendas saíram dos livros e povoaram a tela grande. O romance de Jules Verne marcou o início dessa jornada no cinema em 20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954, Walt Disney Studios), imortalizando a célebre cena do ataque da Lula Gigante ao submarino Nautilus do Capitão Nemo. Em 1975, Steven Spielberg revolucionou a indústria do cinema com Tubarão (Jaws). Diferente dos monstros fantásticos, o filme transformou um predador real — o tubarão-branco — em um demônio invisível e implacável. Tubarão criou o conceito moderno de blockbuster de verão e fez gerações sentirem medo de entrar na água. Mas nas décadas anteriores, Hollywood ja havia explorado o filão.

Em O Monstro do Mar (The Beast from 20,000 Fathoms, 1953), baseado livremente em um conto do lendário autor Ray Bradbury, a trama acompanha o despertar de um Rhedossauro, um réptil pré-histórico fictício que estava congelado no Artigo e é libertado por testes nucleares americanos. A fera segue seu instinto migratório até a costa leste dos Estados Unidos, culminando na devastação icônica de Nova York. O Monstro do Mar é amplamente considerado o precursor do gênero de monstros atômicos no cinema, o filme que consagrou Ray Harryhausen, mestre da animação em stop-motion. A cena do Rhedossauro atacando um farol e destruindo a montanha-russa de Coney Island entrou para a história do cinema. O sucesso estrondoso deste filme inspirou diretamente o estúdio japonês Toho a criar o clássico Godzilla no ano seguinte (1954). Outra pérola de Hollywood é O Monstro do Mar Revolto (It Came from Beneath the Sea, 1955), novamente com efeitos especiais de Ray Harryhausen. Desta vez, os testes nucleares no Pacífico irritam e expelem de sua fossa abissal um polvo gigante radioativo que passa a atacar embarcações e avança pela costa da Califórnia até atingir San Francisco. Devido ao orçamento reduzido concedido pelo produtor Sam Katzman, Harryhausen não pôde animar os oito tentáculos habituais da criatura. Para economizar tempo e dinheiro, ele desenhou a fera com apenas seis tentáculos, utilizando ângulos de câmera para esconder a limitação técnica (apelidando carinhosamente o monstro de “seis-podes”. O clímax com o polvo destruindo a ponte Golden Gate permanece uma das sequências de destruição em stop-motion mais célebres do cinema B dos anos 50.


Os britânico me não demoraram a produzir suas próprias histórias de monstros como Gorgo (Gorgo, 1961), a resposta britânica ao Godzilla com um toque de afeto materno Produzido na Inglaterra sob a direção de Eugène Lourié, Gorgo trouxe uma abordagem diferente para o clássico filme de kaiju. A história começa quando pescadores na ilha de Irish capturam uma criatura anfíbia pré-histórica de 8 metros de altura e a vendem para um circo em Londres, onde é batizada de “Gorgo”. O grande reviravolta do filme ocorre quando cientistas descobrem que o monstro capturado é apenas um filhote. Pouco tempo depois, a mãe de Gorgo — uma fera colossal de mais de 60 metros — emerge do mar e marcha sobre Londres, destruindo marcos como a Big Ben e a Tower Bridge para resgatar seu bebê. Diferente das produções americanas de Harryhausen (stop-motion), Gorgo adotou o estilo tradicional japonês de suitmation (um ator vestindo uma roupa de borracha detalhada) em maquetes minuciosamente construídas. Gorgo se destaca por seu tom surpreendentemente empático: ao contrário de quase todos os filmes de monstros da época, a fera e seu filhote sobrevivem no final e retornam pacificamente para o oceano. Ja os italianos se aproveitaram da Tubaraomania dos anos 70 e fizeram Tentáculos (Tentacoli, 1977)
dirigido por Ovidio G. Assonitis. A trama mostra uma cidade litorânea sendo aterrorizada por um polvo gigante mutante cujos ataques são provocados pelas vibrações de construções submarinas ilegais. O filme se destaca pelo elenco estelar de Hollywood em fim de carreira ou aceitando produções internacionais, incluindo John Huston, Shelley Winters e Henry . O clímax do filme apresenta uma batalha subaquática inusitada entre o polvo gigante e baleias orcas treinadas.