HQ | TERROR NO INFERNO VERDE POR FLÁVIO COLIN – UMA VIAGEM PELO TERROR NACIONAL.

LEANDRO BANNER

Se existe uma coisa que FLÁVIO COLIN nunca precisou importar foi assombração. O Brasil já tinha matas misteriosas, rios habitados por criaturas sobrenaturais, maldições, espíritos, índios lendários, coronéis supersticiosos e uma quantidade respeitável de gente que deveria simplesmente ter ficado em casa. É desse Brasil fantástico que nasce boa parte de TERROR NO INFERNO VERDE, luxuosa coletânea lançada pela Pipoca & Nanquim em 2021, reunindo 19 histórias produzidas em diferentes momentos da carreira de Colin. A HQ que dá título ao livro foi originalmente publicada em Spektro #14, em 1980, mas o volume vai muito além dela, passeando por terror, fantasia, humor, aventura, erotismo e adaptações literárias, embora, necessário pontuar, a maior quantidade das histórias estejam inseridas no terror. E há uma particularidade deliciosa: mesmo quando Colin trabalha com material estrangeiro — como na história Já Leu Dickens?, adaptação de The Man Who Liked Dickens, de Evelyn Waugh, e Filho do Urso, baseado em One Alaska Night, de Barrett Willoughby — o conjunto é dominado por uma atmosfera essencialmente brasileira. Mais do que uma antologia de terror, o livro acaba funcionando como uma espécie de mostruário do talento de Colin que podemos verificar nas histórias sobre as quais falaremos a seguir:

Honorato – Abrindo a coletânea está uma das histórias que melhor sintetizam a proposta do livro. Honorato mergulha diretamente no imaginário amazônico e coloca em cena a relação entre o povo caboclo, o rio Amazonas e a lendária boiuna, a gigantesca serpente que pertence ao imaginário amazônico. É uma história especialmente importante porque Colin não trata a Amazônia simplesmente como um cenário exótico, pois a natureza participa da narrativa. O rio, a mata e os habitantes formam praticamente um único organismo narrativo. E aí aparece uma das maiores virtudes do desenhista: Colin sabia desenhar o Brasil. Sua Amazônia não parece uma floresta genérica importada de uma aventura estrangeira. Há vegetação, tipos humanos, embarcações, paisagens e uma sensação de espaço que dão autenticidade ao ambiente. A boiuna, naturalmente, é o tipo de criatura que parece ter sido criada especificamente para Colin desenhar. Gigantesca, sinuosa e ameaçadora, ela permite ao artista brincar com escala e composição. É uma das histórias mais representativas do álbum.

Já Leu Dickens? – Aqui Colin troca o folclore brasileiro pela literatura britânica. A história adapta The Man Who Liked Dickens, conto de Evelyn Waugh, originalmente publicado em 1923. O interessante é que Colin não tenta simplesmente transportar o conto para os quadrinhos de maneira mecânica, pois o artista trabalha a situação como um jogo psicológico entre anfitrião e hóspede. Existe uma tensão crescente na relação entre os personagens, e o desconforto nasce justamente daquilo que deveria ser uma situação cordial. É um terror menos dependente de monstros e mais baseado na sensação de que há alguma coisa muito errada naquela hospitalidade. Visualmente, Colin consegue tornar os personagens expressivos sem abandonar seu estilo caricatural. É uma demonstração de que seu traço não servia apenas para histórias brasileiras ou folclóricas: ele também sabia construir suspense psicológico.😉

Filho do Urso – Outra adaptação estrangeira. Baseada em One Alaska Night, de Barrett Willoughby, a história leva Colin para uma paisagem completamente diferente da Amazônia: o Alasca. O interessante aqui é perceber como o artista consegue adaptar seu vocabulário visual a um ambiente estrangeiro sem perder sua identidade característica. A história trabalha principalmente com terror psicológico, e Colin aproveita a paisagem hostil e o isolamento para criar uma sensação de vulnerabilidade. O frio, a solidão e a natureza selvagem cumprem função semelhante à mata amazônica em outras histórias: são forças que colocam o ser humano em posição de inferioridade. É uma das adaptações que mais ajudam a mostrar a versatilidade do artista.

O Caso dos Dez Negrinhos – Aqui temos uma pequena pérola de apenas quatro páginas. A história é uma quadrinização de um poema de Bráulio Tavares, adaptado e desenhado por Colin para a MAD #69, de 1991. É curta, mas justamente por isso demonstra uma característica importante do artista: Colin não precisava de dezenas de páginas para criar atmosfera. A narrativa funciona quase como uma anedota macabra, condensando situação, tensão e desfecho em pouquíssimo espaço. E seu desenho contribui para esse efeito: personagens exagerados e expressivos combinam perfeitamente com a natureza quase absurda do texto.

O Lunático – Uma história curiosa porque parte de uma passagem bíblica relacionada a um dos milagres de Jesus e à dificuldade de fazer as pessoas acreditarem que ele é realmente o Filho de Deus. Colin demonstra aqui que sua produção não estava presa a uma definição estreita e limitada de “terror”. Há uma atmosfera de estranhamento e uma abordagem quase fantástica do episódio religioso.O resultado é interessante justamente porque o artista olha para um material conhecido e o reconstrói através de sua marcante linguagem gráfica.

Os Minatá-Karaiá – Esta é uma das histórias que melhor representa o Colin brasileiro.Aqui o autor mergulha nas lendas ancestrais dos povos indígenas do Mato Grosso, utilizando inclusive referências geográficas reais, como o rio Kuluene, afluente do Xingu. São apenas três páginas, mas a ideia é poderosa: transformar a paisagem e a tradição indígena em matéria de narrativa fantástica. Colin tinha enorme interesse por temas brasileiros, e isso transparece não apenas no roteiro, mas principalmente na ambientação. O sobrenatural aqui não parece colocado artificialmente sobre a realidade. Ele nasce dela.

A Terceira Arca – E então o leitor é jogado para longe do Brasil. A Terceira Arca é uma das histórias mais extensas da coletânea, com 17 páginas, ambientada no universo da pirataria e envolvendo personagens britânicos e cenários que passam pela Inglaterra e por Honduras. É uma boa demonstração da capacidade de Colin para desenhar aventura histórica. O ritmo é diferente das pequenas histórias folclóricas, uma vez que existe mais espaço para desenvolver personagens, situações e reviravoltas. E, embora não seja uma história tipicamente brasileira, ela demonstra que limitar Colin ao terror folclórico seria injusto, pois ele era um desenhista extremamente versátil.

Praga de Urubu – Aqui Colin volta ao interior brasileiro — e o faz com uma boa dose de humor. Um daqueles “coronéis” interioranos, homens que não possuem necessariamente patente alguma, mas exercem poder absoluto sobre determinada região, acaba sofrendo uma mudança radical em sua sorte depois de maltratar um animal. É uma história tragicômica, e justamente por isso se destaca e se revela como uma deliciosa surpresa. Colin consegue brincar com a superstição popular e, simultaneamente, construir uma pequena parábola sobre arrogância e abuso de poder. Aqui o sobrenatural funciona quase como uma justiça poética. E, convenhamos: maltratar um animal num conto de assombração de Colin não parece exatamente uma decisão estratégica.😝

Viu a Caveira? – Outra história curta, construída a partir daquele tipo de “causo” sobrenatural que circula pelo interior brasileiro. É talvez uma das melhores demonstrações da capacidade de Colin de transformar uma história aparentemente simples em algo visualmente expressivo. A ideia do “causo” é fundamental para compreender sua produção. Muitas dessas histórias parecem ter sido feitas para serem contadas oralmente e Colin entende perfeitamente essa estrutura.

O Passeio da Peste – Aqui entramos em uma das histórias mais interessantes do conjunto. Publicada originalmente em Pesadelo #5, de 1981, a trama se passa no século XVI, durante as incursões das missões jesuíticas pelos territórios brasileiros. A história envolve personagens como Chico Peste, Jesus Cristo, João Batista e figuras indígenas, colocando em choque diferentes interesses sobre os povos nativos. É uma narrativa que mistura história, religião, aventura, misticismo e crítica social, um cruzamento que a torna extremamente rica e interessante. Colin não usa o Brasil apenas como decoração; o contexto histórico interfere diretamente na narrativa conferindo uma identidade muito própria às suas tramas. Além disso, a história possui uma atmosfera muito particular: há algo quase mítico na maneira como passado, religião e crenças indígenas se encontram. Sem dúvida, uma das grandes histórias da coletânea.😉

Terror no Inferno Verde – Chegamos finalmente à história que empresta o nome ao livro. Publicada originalmente em Spektro # 14, de 1980, ela combina aventura e terror e acompanha uma expedição em direção a uma região desconhecida, numa situação que lembra aquelas clássicas histórias de exploradores em busca de riquezas. A fórmula é deliciosa: exploração + ganância + selva desconhecida + algo que definitivamente não deveria estar ali. Ou seja: tudo indica que vai dar errado. E Colin sabe explorar muito bem a natureza como elemento de suspense. A floresta não é apenas cenário; é uma presença permanente. O próprio título resume perfeitamente a proposta: o “inferno verde” não é apenas verde porque tem muitas árvores. É verde porque é melhor não perguntar o que está escondido atrás delas.😝 É, naturalmente, uma das histórias essenciais do álbum.

Joaquim, o Magnífico – Com roteiro de Wilson Carlos Magno, esta história muda completamente de tom. Joaquim é um sujeito desavergonhado, envolvido em suas próprias “façanhas” amorosas, e acaba metido em situações bastante complicadas. A história ainda brinca com termos do português de Portugal. Aqui temos um Colin mais irreverente, trabalhando com humor e erotismo. Não é terror propriamente dito, mas ajuda a compreender por que uma antologia como esta funciona como retrato de carreira de um artista, e não apenas como seleção temática. A presença dessas histórias mais humorísticas e eróticas também mostra a amplitude da produção de Colin.

Fadas, Fados e… – Aqui o artista resolve fazer algo ainda mais inesperado: desmontar e desmistificar completamente os contos de fadas. Temos rei sacana, donzela em perigo, herói salvador e toda aquela parafernália tradicional — só que passada pelo filtro irreverente e erótico de Colin. É uma história bastante diferente das narrativas amazônicas, mas ajuda a compreender a liberdade criativa do artista. Colin podia passar do terror ao humor, do folclore ao erotismo e da aventura à fantasia sem deixar de ser Colin. E isso é talvez o maior elogio ao seu estilo.

Vale ressaltar que o grande mérito de TERROR NO INFERNO VERDE está em não tentar transformar Flávio Colin em uma coisa so, pois ele era muito mais do que apenas “um desenhista brasileiro de terror”. O volume mostra um artista interessado em folclore, história brasileira, religião, aventura, fantasia, humor, erotismo e literatura, utilizando em praticamente todos esses terrenos a mesma linguagem visual singular que o caracterizara. E mesmo quando a qualidade dos roteiros oscila — algo inevitável em uma antologia que reúne trabalhos produzidos ao longo de diferentes fases —, o desenho permanece como elemento de extraordinária consistência. Há histórias melhores e outras mais curiosas do que memoráveis. Algumas são mais sofisticadas; outras parecem pequenos causos ilustrados. Algumas possuem terror genuíno; outras se aproximam mais da fantasia, do humor ou da aventura. Mas existe uma constante: Flávio Colin torna todas elas interessantes de olhar. O aspecto mais fascinante da coletânea talvez seja justamente esse. Colin tinha um traço cartunesco, caricatural, expressivo e absolutamente pessoal, mas isso nunca significou falta de riqueza visual. Muito pelo contrário, como já vimos em trabalhos anteriores desse fantástico artista analisados neste espaço. Seus personagens possuem fisionomias memoráveis, seus monstros têm personalidade e suas paisagens carregam uma enorme quantidade de informação. Quando desenha a Amazônia, o sertão ou o interior brasileiro, Colin parece interessado em registrar não apenas o lugar, mas a maneira como aquele lugar é imaginado por seus habitantes. É por isso que suas histórias de folclore funcionam tão bem, pois o desenho não apenas ilustra a lenda, mas parece pertencer à própria lenda. E aqui a editora Pipoca & Nanquim fez algo fundamental: deu ao desenho de Colin uma reprodução à altura. A edição de 2021 tem capa dura, formato de 21 × 28 cm, 220 páginas e miolo em preto e branco em papel couché de alta gramatura. O couché é particularmente importante neste caso. O preto e branco de Colin depende muito da qualidade da reprodução. Suas massas de preto, hachuras, linhas finas e contrastes são elementos estruturais do desenho.Uma impressão ruim poderia transformar parte dessa riqueza em uma massa escura e indistinta. Aqui, felizmente, ocorre justamente o contrário A impressão valoriza o traço marcante do artista. Os extras também enriquecem consideravelmente o conjunto. A edição inclui textos e depoimentos de pessoas ligadas à trajetória de Colin, entre elas Francisco Ucha, Franco de Rosa e Jefferson Costa, ajudando a contextualizar o artista e sua importância para os quadrinhos brasileiros. Isso faz com que o álbum funcione não apenas como leitura de entretenimento, mas também como documento de preservação da memória dos quadrinhos nacionais. Afinal, o que há de melhor em TERROR NO INFERNO VERDE? Se fosse necessário selecionar os grandes destaques, poderíamos mencionar Honorato, Já Leu Dickens?, Filho do Urso, O Passeio da Peste, Viu a Caveira?, Praga de Urubu e, naturalmente, Terror no Inferno Verde entre os trabalhos que melhor justificam a existência da coletânea. Ao fim e ao cabo, TERROR NO INFERNO VERDE é uma coletânea irregular apenas no sentido inevitável de reunir trabalhos diferentes de diferentes épocas e propostas. Como panorama da arte de Flávio Colin, entretanto, é extremamente bem-sucedida. As histórias são, em sua maioria, leituras muito aprazíveis, rápidas, envolventes e surpreendentemente variadas. E mesmo quando o roteiro é simples, Colin frequentemente compensa com uma narrativa visual extraordinária. O mais interessante é que, apesar das duas adaptações estrangeiras, o livro respira Brasil. É o Brasil das lendas indígenas, das matas, dos rios, dos “coronéis”, dos causos de assombração, da religiosidade, do interior e de uma imaginação popular que transforma qualquer lugar aparentemente tranquilo em cenário perfeito para uma história de terror. E tudo isso passa pelo lápis de um artista que tinha uma das assinaturas visuais mais reconhecíveis dos quadrinhos brasileiros de todos os tempos. No fim, TERROR NO INFERNO VERDE é menos uma simples coletânea de histórias assustadoras e mais um passeio pela imaginação de Flávio Colin. Só há uma recomendação: não faça essa caminhada pela Amazônia à noite, não maltrate animais, não mexa com lendas indígenas, não aceite hospitalidade de estranhos excessivamente simpáticos e, sobretudo, se alguém perguntar “viu a caveira?”, a resposta correta é provavelmente “não, obrigado”.😝😝

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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