“O CINEMA É A MELODIA DO OLHAR”
Nicholas Ray
PAULO TELLES

Nicholas Ray (1911-1979) tornou-se um cineasta de grande repercussão ao tratar da rebeldia dos adolescentes da década de 1950. Naquela época, o rock and roll estava no auge e grandes mitos da juventude começavam a surgir, como Marlon Brando, James Dean e Elvis Presley, que eram os referenciais de rebeldia, em um tempo em que isso era considerado um tabu no cinema norte-americano. Se por um lado não era tão admirado pela crítica hollywoodiana, por outro os europeus, sobretudo os franceses, o admiravam. Transparente e polêmico, seus trabalhos são reconhecidos graças à sua temática sobre os desajustados e os incompreendidos da sociedade. Ray também dirigiu vários trabalhos sem crédito para cineastas como Irving Reis, Chester Erskine, John Cromwell e Josef von Sternberg Raymond Nicholas Kienzle, seu verdadeiro nome, nasceu a 7 de agosto de 1911, em Galesville, Wisconsin. De início, interessou-se por arquitetura e seu mestre foi o renomado Frank Lloyd Wright (1867-1959). Mas logo se interessou pelo teatro, atuando em várias peças dirigidas por futuros cineastas que fariam história, como Elia Kazan (1909-2003) e John Houseman (1902-1988). Começa a fazer cinema após o término da Segunda Guerra Mundial, e seu primeiro filme data de 1948. Tornou-se rapidamente um diretor com marcas distintivas fortes: heróis frágeis e palpáveis que tentam sobreviver em um mundo cuja chave de decifração eles não detêm. Nesse mundo, a onipresente violência física e mental convive com a possibilidade de uma paixão arrebatadora e irrestrita. Seus primeiros filmes frequentemente focalizavam tipos marginalizados como heróis. Em seu primeiro filme como diretor, o lírico Amarga Esperança (They Live By Night,1948), Farley Granger (1925-2011) interpretava um assaltante de bancos indeciso em sua fuga com a namorada vivida por Cathy O’ Donnell (1923-1970). Em No Silêncio da Noite (In Lonely a Place, 1950), Humphrey Bogart (1899-1957) era um roteirista autodestrutivo e de personalidade instável, acusado de assassinato. Em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), Robert Ryan (1909-1973) era um policial amargo e desgostoso com sua carreira, e Johnny Guitar (1954) trazia Joan Crawford (1905-1977) como Viena, uma conivente dona de saLoon que enfrenta toda uma cidade moralista e hipócrita movida pelos seus ideais. E o que dizer do jovem confuso e rebelde vivido por James Dean (1931-1955) em Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) e que definidamente tornou-se um hino de alerta e conscientização em favor da juventude desamparada, tendo em Nick Ray seu digno defensor. E provou isso desde o início ao fazer sua estreia em Amarga Esperança.

Amarga Esperança (They Live By Night, 1948) foi escrito por Ray com base na história de Edward Anderson (1905 -1969) sobre o jovem Bowie (Farley Granger), condenado por um crime que não cometeu, foge da penitenciária onde cumpria pena em companhia de Chicmaw (Howard DaSilva 1905-1986) e T. Dub (Jay C. Flippen, 1898-1971), decidido a provar sua inocência. O trio acaba se alojando na garagem do irmão de Chicamawe felicidade, mas logo se separam. , Moobley (Will Wright, 1884-1962), por cuja filha, a doce Keechie (Catie O’ Donnell) Bowie se apaixona. Os amantes vivem seus sonhos e esperança e felicidade, mas logo se separam. Bowie se une ao grupo, mas depois de um assalto malsucedido, cada um se separa e foge da lei. Narrado em claro-escuro expressionista e clima de fatalismo impiedoso, o filme, uma obra prima de lirismo exasperado, contrapõe à angustia pureza de um amor sem ilusões, vivido à parte do mundo, o trágico castigo imposto por uma sociedade hostil que conspira com suas regras desumanas para destruir os sonhos de regeneração. Amarga Esperança prefigura a singeleza da arte cinematográfica de Nicholas Ray, que a partir desse trabalho, ficou consagrado como o cineasta das paixões crepusculares e da juventude injustiçada e oprimida.

O Crime Não Compensa (Knock on any door, 1949, iniciou a parceria do cineasta com o ator Humphrey Bogart, que vieram a ter uma ótima relação dentro e fora das telas. O filme acompanha a dramática trajetória de um advogado idealista, Andrew Morton (Bogart), cuja carreira bem-sucedida fez com que conseguisse escapar da miséria e da violência dos bairros pobres e marginalizados da grande cidade onde cresceu. Entretanto, sua vida toma um rumo tenso quando ele aceita assumir um caso de grande repercussão: defender Nick Romano (John Derek, 1924-1998), um jovem delinquente juvenil e acusado de assassinato a tiros de um policial. Ad defesa do jovem por Morton é alinhada em Flashbacks quando o passado do acusado é apresentado para o júri no tribunal. O público que acompanha o caso pela imprensa se divide em opiniões. As adolescentes se encantam pela beleza de Romano e fazem apelos na porta do tribunal pela sua absolvição. Passagens traumáticas por reformatórios corruptos e abusivos que deveriam reabilitá-lo, mas acabaram por brutalizá-lo ainda mais. Apesar do histórico de violência e rebeldia de Nick, há brechas de humanidade e esperança. Ele se apaixona e se casa com uma jovem doce da vizinhança, Emma (Allene Roberts, 1928-2019), tentando dar uma guinada em sua vida e andar na linha seguindo os conselhos de seu advogado Morton. No entanto, uma sequência de tragédias financeiras, apostas perdidas e o suicídio de sua esposa o empurram de volta ao desespero e à criminalidade, culminando no confronto fatal com o policial, e consequentemente, o julgamento e a inevitável condenação a cadeira elétrica. O clímax de o Crime Não Compensa concentra no tribunal, onde Morton faz uma defesa apaixonada e comovente. Ele não tenta apenas inocentar o cliente do disparo específico, mas argumenta de forma contundente que a verdadeira culpa recai sobre a sociedade — sobre um sistema corrompido, indiferente e negligente que cria as condições de miséria, abandono e violência nas favelas, fabricando criminosos desde a infância antes de puni-los impiedosamente na vida adulta. O Crime Não Compensa foi produzido pela Santana Productions, a produtora de Humphrey Bogart, o filme é amplamente reconhecido como uma das obras pioneiras e mais sensíveis de Nicholas Ray ao retratar a desilusão juvenil, um tema que o diretor exploraria de forma ainda mais profunda anos depois em Juventude Transviada (1955).

Em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) a estrutura básica de Juventude Transviada está montada: o policial Jim Wilson (Robert Ryan), nitidamente afetado pelo desencanto e pelo ambiente em que vive, passa a agredir violentamente os criminosos que persegue. Depois do enésimo caso de violência acima do aceitável, ele é conduzido a uma investigação no campo, onde encontrará uma mulher cega (Ida Lupino, 1918-1995), por quem se apaixonará, mesmo que isso implique reconsiderar sua relação com a violência e seu poder autodestrutivo. O talento e a fluência de Nicholas Ray para filmar essas cenas extremas não fascinaram de primeira a crítica norte-americana, mas encantaram os jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma, que o classificaram como o mais importante cineasta do pós-guerra. Jean-Luc Godard (1930-2022) acreditava ser Ray a expressão pura do cinema. No Silêncio da Noite (In a Lonely Place, 1951) traz Humphrey Bogart no papel de Dixon Steele, um roteirista de Hollywood, um homem imbuído em seu poder criador, marcado por um temperamento ríspido e desconcertante. Dixon acaba tornando-se suspeito do assassinato de uma garçonete que havia estado em sua casa na noite anterior. Porém, sua vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame, 1923-1981 – então, esposa do cineasta) depõe a favor de Dixon na delegacia, ela passa a ajuda-lo para um novo roteiro de um filme e acabam iniciando um romance entre os dois. No entanto, o assassinato da garçonete continua insolúvel. Pessoas mais próximas do roteirista alertam Laurel sobre seu temperamento agressivo e compulsão a violência e ao desequilíbrio. A moça passa a desconfiar de Dixon e resolve deixa-lo, mas quando o crime é finalmente é desvendado e Dixon inocentado, a reconciliação é tarde demais. Considerado um dos trabalhos mais expressivos de Ray e a atuação de Bogart em uma das mais perfeitas e indeléveis de toda sua carreira, e tal como fora em O Crime Não Compensa, No Silêncio da Noite também foi produzido pela Santana Productions, empresa do ator. Nicholas Ray, sob o contrato da RKO, vivia dentro de uma aparente contradição. Sob as poderosas e milionárias asas de Howard Hughes (1905-1976), ele passava ileso pela perseguição do Senado Americano aos comunistas, muito embora todos em Hollywood soubessem de suas tendências esquerdistas. Em contrapartida, o preço da liberdade era alto: Ray era obrigado a realizar trabalhos sob encomenda, com temáticas que pouco ou nada lhe pudesse atrair ou mesmo apetecer. Pertencem a essa fase filmes como Alma Sem Pudor (Born To Be Bad, 1950) e Horizonte de Glória (Flying Leathernecks, 1951).

Alma sem pudor, personifica a dissimulação feminina em grau máximo. É uma percepção que remonta da literatura, de célebres escritores desde o francês Gustave Flaubert, estendendo-se ao português Eça de Queirós, até chegar ao nosso Machado de Assis. A pérfida, mas aparentemente inocente e doce Crhystabel Caine, vivida por Joan Fontaine (1917-2013) hospeda-se na casa de Donna (Joan Leslie, 1925-2015) em São Francisco, Califórnia, iniciando um romance com o escritor em começo de carreira Nick (Robert Ryan, um dos atores favoritos de Ray depois de Bogart). Contudo, o objetivo dissimulado de Crhistabel é conquistar o namorado de Donna, o milionário Curtis (Zachary Scott, 1914-1965) e sugere a este que Donna cobiça sua fortuna. Aos poucos, o namorado Nick vem a entender as reais intenções de Crhystabel, e esta articula meios de deter aqueles que ameaçam seus planos de iniquidade e ambição.

Horizonte de Glória, também produzido por Howard Hughes, é um drama ambientado na Segunda Guerra com uma abordagem de direita diametralmente oposta às convicções políticas de Ray e de Robert Ryan, que nos bastidores, tiveram que enfrentar a reprovação do astro do filme, John Wayne (1907-1979), legítimo defensor dos ideais republicanos. A história versa sobre o conflito de personalidades entre dois oficiais, o Major Dan Kirby (Wayne), comandante de um esquadrão de bombardeio aéreo, e o capitão Carl Griffin (Ryan). Implacável e disciplinador, Kirby custa a ser compreendido por Griffin (que segue uma linha mais humanitária) e pelos subordinados, mas a brutalidade das ações de combate e o entendimento entre os dois oficiais acabam superando sobre as dúvidas e receios dos combatentes perante os horrores da guerra.

Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954) foi outro ápice do cineasta. Embora não tenha tido boa receptividade nos EUA na época do lançamento — pois foi lançado por um estúdio classe B em Hollywood, a Republic — este Western foi aplaudido na França. Embora tenha sido influenciado por Shane (Os Brutos Também Amam), de George Stevens e lançado no ano anterior, Johnny Guitar é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais hostilizados do gênero principalmente apoiado pela parceria de Ray e do roteirista Philip Yordan (1914-2003), colaborador constante do cineasta em outros filmes, cujo forte do script são os diálogos são de extraordinária riqueza poética. A história versa sobre uma mulher forte, Vienna, vivida por Joan Crawford (1908-1977), dona de um saloon no Arizona, amante do bandoleiro Dancing Kid (Scott Brady, 1924-1985), notório ladrão de bancos, apaixona-se pelo forasteiro Johnny Guitar (Sterling Hayden, 1917-1986), um violeiro que anos atrás havia vivido um romance com Vienna e chega ao saloon para assumir sua posição de guarda costa do estabelecimento. Vienna é perseguida pelos vigiçantes da moralidade, entre os quais o xerife John McEgivers (Ward Bond, 1903-1960) e a sexualmente frustrada Emma Small, vivida pela talentosa Mercedes McCambridge (1916-2004) que desejam manter o território para a passagem de gado, e o saloon de Vienna é um obstáculo aos propósitos de Emma e seu grupo. Hostilizada por todos os cantos, Vienna encontra no amado Johnny toda proteção que precisa. O saudoso crítico Rubens Ewald Filho (1945-2019), em sua resenha sobre o filme para o site UOL Cinema, aponta que Nicholas Ray sempre declarou que o subtexto era lésbico, que Emma e Vienna haviam sido amantes e agora se enfrentavam como inimigas. Até porque na vida real, as duas estrelas, Crawford e McCambridge eram realmente inimigas e, ambas, alcoólatras. Um dos filmes mais idolatrados pela crítica francesa e pelos cineastas da Nouvelle Vague.

Em Juventude Transviada, Nicholas Ray encontrou um ator perfeito para designar todos os estados de espírito com os quais mais gostava de trabalhar: James Dean, ao mesmo tempo um rosto de criança abandonado pela vida e a possibilidade de uma explosão de violência quando menos se espera. Ray era um dos poucos cineastas que se dava bem ao trabalhar com jovens e adolescentes. Desde seu primeiro filme Amarga Esperança, seus personagens já se defrontavam com a inadequação em um mundo adulto. James Dean vive Jimmy Stark, um jovem problemático e responsável por fazer os pais mudarem de residência constantemente. Quando se estabelecem em Los Angeles, Jimmy arranja uma confusão na rua. É levado para a delegacia e lá conhece mais dois jovens inconformados: Judy (Natalie Wood, 1938-1981) e Platão (Sal Mileo, 1939-1976). A moça tem problemas de relacionamento com o pai, já o rapaz foi pego atirando em alguns cães na rua. Ao sair da cadeia, Jimmy se percebe interessado por Judy, mas esse interesse vai trazer problemas para os jovens, pois Buzzy (Corey Allen, 1934-20100) não fica nada satisfeito com a situação. Líder de uma gangue da escola, o rapaz vai entrar numa disputa territorial com o seu “concorrente”. Resultado? Brigas, confusões, disputas de poder envolvendo corridas com os melhores carros da época, bem como os figurinos mais ultrajantes. Com requintes da tragédia clássica, a rivalidade entre os jovens vai gerar, no final da trama, uma sinuosa curva dramática, onde o cinema de Nicholas Ray atinge o clímax máximus de toda sua filmografia.

Sangue Ardente (Hot Blood, 1955) foi a única e rara experiência de Ray na comédia, com ingredientes dramáticos e toques sentimentais. Sob a influência de seu pai cigano, Theodore (Joseph Calleia, 1897-1976), a cigana Anne Caldsih (Jane Russell, 1921 -2011) vive de falcatruas e farsas de casamento para apoderar-se de dotes de noivos ingênuos por várias cidades dos Estados Unidos. Em Los Angeles, a então esperta Anne cai nas malhas do aventureiro Stephen Torino (Cornel Wilde, 1915 – 1989), irmão de um chefe cigano, Mike (Luther Adler, 1903 – 1984). Entretanto, Anne e Stephen se casam, dando início a uma tempestuosa “vida conjugal”, entre “tapas e beijos”. A fotografia em cores é de Ray June (1875 – 1958) em original CinemaScope.

Outra grande obra do cineasta mal acolhida nos Estados Unidos, mas exaltada na França, merece referência – Delírio de Loucura (Bigger than Life, 1956). A crítica francesa ficou vislumbrada e entenderam como reflexão contra a mediocridade na vida da sociedade norte americana. Escrito pelo renomado teatrólogo Clifford Odets (1906-1963)e produzido pelo ator James Mason (1909-1984), este também atua na trama no papel do professor Ed Avery, casado com Lou (Barbara Rush, 1927-2024) e com um filho de oito anos, submete-se a um tratamento com cortisona por conta de uma inflamação arterial. No entanto, Ed acaba viciado no entorpecente, tornando-se um megalomaníaco com delírios de superioridade, poder e grandeza, submetendo a própria família a pressão psicológica e violência. Equipe técnica impecável com brilhante fotografia em cores e formato CinemaScope. Em 1956, Nick Ray chega a Paramount (o estúdio das estrelas) para sua segunda incursão ao gênero Western – Fora das Grades (Run For Cover, 1956), em uma espécie de refilmagem de O Crime Não Compensa (1949), porém adaptado para o Velho Oeste. O pistoleiro Matt Dow (James Cagney, 1899-1986) encontra o jovem Davey Bishop (John Derek) e os dois tornam-se amigos. Ao atirarem em um falcão, os condutores de um trem recentemente roubados no mesmo local ouvem os tiros e acham que é um novo assalto e jogam um malote de dinheiro na direção da dupla. Matt resolve ir até a cidade próxima para devolver o dinheiro, mas ao chegarem nas proximidades ele e o amigo são emboscados pelo xerife local (Ray Teal, 1902-1976) que procurava os ladrões do trem. Os moradores reconhecem Davey que ficara gravemente ferido e percebe m o erro do xerife, libertando Matt. Davey é levado para a fazenda de uma família de imigrantes suecos, e através da jovem Helga Swanson (Viveca Lindfors, 1920-1994) o jovem passa a receber cuidados. Matt fica para ajudá-lo por sentir-se responsável pelo que aconteceu. Davey se recupera, mas fica mancando da perna. Matt fica ao lado do rapaz, mas não consegue fazê-lo deixar de sentir rancor pelo que lhe fizeram. As filmagens foram realizadas em locações do Colorado e nas ruinas Azteca, Novo México, cuja localidade é bem realçada pela belíssima fotografia em cores e no formato VistaVision.

Nicholas Ray realizou uma releitura da famosa lenda do Velho Oeste, Jesse James (1847-1882), que fora tema em 1939 para um filme dirigido por Henry King e estrelado por Tyrone Power e Henry Fonda – Jesse James, Tempo de Uma Era Sem Lei. O projeto para Quem foi Jesse James? (The True Sory of Jesse James, 1957) já era planejado por Ray desde fins de 1954 e apontava para James Dean o papel do famigerado fora da lei. Contudo, Dean morreu tragicamente em 30 de setembro de 1955, com apenas 24 anos em um desastre de automóvel. Robert Wagner acabou protagonizando o Western. Ray tentou mostrar que os irmãos James, Jesse (Robert Wagner) e Frank James (Jeffrey Hunter, 1926-1969) foram atraídos para a criminalidade por não conseguirem se enquadrar em um mundo em que a juventude não tinha vez. Afeito aos problemas sociais, da delinquência juvenil e da adolescência desamparada, Ray ofereceu a Jesse James um perfil de vítima das injustiças sociais, em um relato bem estruturado em avaliações e recuos no tempo (através de flasbacks). A 20th Century-Fox, e o produtor do filme, Herbert B. Swope Jr. (1915-2008) não ficaram satisfeitos com a releitura psicológica sobre o Jesse James, alegando que o diretor estava sendo “benevolente demais” com o personagem, resultando em um corte drástico. O filme foi reduzindo em seu tempo original de metragem de 115 para 92 minutos. Ray ficou desgostoso com a decisão da Fox e, praticamente, renegou Quem Foi Jesse James? de seu currículo filmo gráfico.

Amargo Triunfo (Bitter Victory, 1957) lança o espectador para uma história bélica em plena Segunda Guerra, que versa sobre uma missão militar desesperadora no deserto. O Major Brand, interpretado por Curd Jürgens (1915-1982), lidera uma operação arriscada para capturar documentos inimigos em um acampamento distante. Sua equipe inclui o Capitão Leith, vivido por Richard Burton, 1925-1984), um oficial cínico e aparentemente desinteressado. A tensão profissional entre os dois é agravada por uma complexa, poia Jane (Ruth Roman, 1922-1999), esposa de Brandt, teve um relacionamento amoroso com Leith no passado. Segredos pessoais se desenrola sob o sol inclemente, prometendo um confronto que vai além do campo de batalha. Ray constrói a narrativa não como uma glorificação da bravura militar, mas como uma exploração das fissuras da psique humana sob pressão extrema. A verdadeira jornada de Amargo Triunfo reside no estudo das motivações e fraquezas que emergem quando a sobrevivência é posta à prova e as lealdades são questionadas. A direção de Nick Ray utiliza a vasta e impiedosa paisagem do deserto como um elemento quase palpável, que isola e intensifica a pressão sobre os personagens. A fotografia em preto e branco acentua o drama psicológico, revelando os rostos cansados e as escolhas difíceis dos seus protagonistas.
Insatisfeito e sentindo-se boicotado pelo cinema norte-americano, Ray realizou Jornada Tétrica (Wind Across The Everglades, 1958). Obra estranha, inquietante e incompreendida pelos padrões de Hollywood, mas um eloquente manifesto em prol da ecologia e contra a vocação predatória do homem. Ray dirigiu todo o filme com quase 40 graus de febre, e embora não pudesse ser responsável peça montagem final, o cineasta logrou imprimir seu desencanto ético e inconformismo social, na trama de Walt Murdock, vivido por Christopher Plummer (1929-2021), professor e agente de uma entidade de proteção a natureza que é incumbido de ir aos pântanos dos Everglades, na Flórida, no início do século XX, com o propósito de impedir a matança de pássaros na região (destinado para confecção e fabricação de chapéus femininos) cuja natureza selvagem considera uma imagem do paraíso perdido. Murdock ainda terá que enfrentar Cottonmouth, interpretado por Burl Ives (1909-1995), um homem misantropo, líder dos caçadores, que faz da destruição da natureza um instrumento de sua revolta pessoal.

Ray acabou deixando de lado temas de reflexão social por um tempo e decidiu recriar o estilo noir dos antigos criminais e em Technicolor, A Bela do Bas Fond (Party Girl, 1958), produzido por Joe Pasternak (1901-1991) para Metro, resgata a atmosfera do gangsterismo dos anos de 1920, em Chicago, durante os tempos da Lei Seca. Robert Taylor (1911-1969) é o advogado Thomas Farrell, que trabalha para o poderoso mafioso Rico Angelo (Lee J. Cobb, 1911-1976), pensa em se regenerar delatando sobre as atividades de Angelo quando a namorada, a dançarina Vicky Gaye (Cyd Charisse, 1922-2008) é ameaçada pela quadrilha. O clima saudosista dos anos 1920, a relação psicológica entre os personagens e a fotografia em CinemaScope realçam nesse outro trabalho incompreendido do diretor um de seus filmes mais requintados e inteligentes segundo a crítica moderna.

Sangue sobre a Neve (The Savage Innocents, 1960) acompanha a trajetória de Inuk (Anthony Quinn, 1915-2001) um grande e forte caçador esquimó, que vive no Alaska em peno início do século XX, quando o território era ocupado pelos Estados Unidos . Solitário e sem família, ele busca uma mulher. Seus amigos lhe oferecem as esposas, pois há falta de mulheres e é o costume da comunidade, mas Inuk agora quer uma companheira. Ele tem sorte, pois chega a viúva do irmão de um de seus amigos. E ela traz duas filhas, já em idade de se casarem. Outro esquimó vem com elas no caminho. Inuk une-se a uma delas, Asiak (Yoko Tani, 1928-1999). Com ela vem a idosa sogra, que Inuk aceita de bom grado. Para sustentar ele e as mulheres, Inuk continua sua caça, mas um dia um amigo mostra-lhe um rifle. Inuk deseja um igual, e vai ao encontro dos homens brancos para trocar peles pela arma. Mas Inuk não entende os costumes do homem branco. Um missionário que transita pelas redondezas fica sabendo dos costumes “pecaminosos” dos esquimós e um dia vai ao iglu de Inuk, e a falta de compreensão entre os dois lados faz com que o esquimó mate acidentalmente o missionário branco. Ele então passa a ser foragido da lei dos brancos, e mesmo alcançado pelos policiais, Inuk acaba salvando a vida de um deles (Peter O’ Toole, 1932-2013), sendo que este, mesmo agradecido, tem o dever de levar Inuk para ser entregue a justiça e ser julgado. Nick Rsy debateu com esta obra sobre o conflito e as diferenças entre os hábitos e costumes entre as civilizações que podem se existir até mesmo no mundo moderno. A partir de 1960, Nicholas Ray assumiu duas superproduções do cinema junto ao produtor russo naturalizado norte americano Samuel Bromston (1908-1994) e rodada em seus estúdios na Espanha, porém, infelizmente por conta de muitas interferências do produtor, não pôde ter controle total sobre estes dois trabalhos, que foram Rei dos Reis (King of Kings, 1961) e 55 Dias em Pequim (55 Days at Peking, 1962).

Rei dos Reis – Épico bíblico que conta a trajetória da vida e paixão de Jesus Cristo, do nascimento até a ressurreição, porém diferentemente abordada como em outros filmes sobre o tema (Cecil B. DeMille já filmara uma versão com o mesmo título), colocando o Cristo dentro de seu verdadeiro cenário, na Judeia ocupada pelos império romano Antes do começo das filmagens, Ray e o produtor Bronston estiveram no Vaticano e foram recebidos pelo Papa João XXIII, que propôs algumas sugestões para o script e toda produção. O politizado Philip Yordan, amigo e costumeiro colaborador de diretor (Johnny Guitar) enfileira os principais episódios dos evangelhos segundo uma postura cênica, hierática, grave e comovente, porém, dentro do rigor histórico e panorama social e político da época de Jesus. Yordan retirou a motivação de Judas pela traição a Jesus por interesse financeiro e as 30 moedas de prata sequer são mencionadas. Influenciado pelo sucesso de Ben-Hur (1959) de William Wyler, esta obra de Ray também sofreu interferências, tanto de Bronston quanto dos estúdios da Metro, que distribuiu o filme para o mercado norte americano, reduzindo sua metragem de quase 190 minutos para 168 minutos de projeção. Robert Ryan, um dos atores favoritos do cineasta, interpreta São João Batista, e o galã Jeffrey Hunter (Quem foi Jesse James ?) Como Jesus Cristo. Infelizmente, na época do lançamento, críticos arredios ao cinema de Nichoas Ray crismaram maldosamente o filme, apelidando a obra como Meu Jesus Adolescente, talvez comparando Jeffrey Hunter, o intérprete de Cristo, ao Rebelde Sem Causa de James Dean. O Climax Máximus do espetáculo é a cena do Sermão da Montanha, que reuniu 15 mil figurantes, a maioria, de devotos nativos de pequenas localidades da Espanha. No elenco, ainda como destaques Siobhan McKenna (Maria), Hurd Hatfield (Pilatos), Royal Dano (Pedro), Viveca Lindfors (Claudia Prócula) , Rip Torn (Judas) Guy Rolfe (Caiphás), Carmen Sevilla (Maria Madalena) e Harry Guardino (Barrabás). Rei dos Reis tem como destaque também a trilha sonora de Miklos Rozsa (1907-1995), o mesmo compositor de Quo Vadis (1951) e Ben –Hur (1959).

Com uma produção bastante conturbada, 55 Dias em Pequim chegou a ter capital bloqueado pela lei de Remessas de Lucro. Houve problemas com falta de dinheiro, dificuldades para recrutar centenas de figurantes asiáticos por toda a Europa e falta de sintonia do elenco. Em 1900, em Pequim, capital da velha China, com o apoio do exército da Imperatriz Tzu Hsi (Flora Robson, 1902-1984), os boxeurs dizimam o máximo de missionários ingleses e norte-americanos, destruindo propriedades apesar dos protestos das delegações estrangeiras. Quando o embaixador alemão é assassinado, o major norte americano Matt Lewis, vivido por Charlton Heston (1923-2008) e o chanceler inglês Sir Arthur, interpretado por David Niven (1910-1983) mobilizam um pequeno contingente de marinheiros para proteger três mil civis e a baronesa russa Natasha Ivanoff, vivida por Ava Gardner (1922-1990), enquanto aguardam a chegada de reforços durante 55 dias de dramática e sangrenta expectativa. Ray chega a fazer uma participação como um embaixador europeu que participa de uma reunião sentado em uma cadeira de rodas. Também produzido na Espanha com metragem de 155 minutos de projeção, teve cenas de combate realizadas pelo especialista Andrew Marton (1904-1992). O fracasso nas bilheterias iniciou o declínio do produtor Samuel Bronston, que faria somente mais dois filmes (sendo um deles uma história escrita por Nicholas Ray, O Mundo do Circo, que seria filmada em 1964 por Henry Hathaway, com John Wayne, Claudia Cardinale e Rita Hayworth). Ray sofreu um infarto durante as filmagens de 55 Dias em Pequim, possivelmente por conta de inúmeros aborrecimentos com Bronston. Concluído 55 Dias em Pequim, Nicholas Ray encerrou suas atividades na direção e largou Hollywood, passando a se dedicar ao ensino universitário e as produções amadorísticas. O cineasta foi casado quatro vezes – com as atrizes Susan Ray, Jane Evans, Gloria Grahame (que atuou em No Silêncio da Noite . Tempos depois, ela se casaria com o ex-enteado Anthony Ray, filho de Nick com Susan Ray), e Betty Utey (1934-2017), atriz, dançarina e coreógrafa. Betty atuou em A Bela do Bas Fond e fez a coreografia para Brigid Bazlen (1945-1989) para a dança de Salomé em Rei dos Reis. Nick foi pai de cinco filhos. Nick Ray lecionou cinema na Universidade de Nova York até meados dos anos 1970, quando descobriu que tinha câncer. Wim Wenders, que o admirava, colocou-o em seu filme O Amigo Americano (Der amerikanische Freund, 1977) e dirigiu com ele o documentário Lightning Over Water (1980), que reflete os últimos momentos de Nicholas Ray e sua luta contra o câncer, que o levou ao falecimento em 16 de junho de 1979, aos 67 anos.
DECLARAÇÕES DE NICHOLAS RAY
– “Acredito que isso vem do sentimento segundo o qual nenhum ser humano, homem ou mulher, é sempre bom ou mau. O essencial em toda representação da vida é que o espectador, quando assiste, tenha o sentimento de que, nas mesmas circunstâncias, faria a mesma coisa que o personagem faz se estivesse na pele dele, sejam esses atos bons ou maus. As fraquezas do personagem devem ser humanas, pois se elas o são, os espectadores podem reconhecer nelas suas próprias fraquezas.” (Sobre o mal existir em cada ser humano, entrevista a Charles Bitsch, Cahiers du Cinéma 89, novembro de 1958).
– “Existe violência em todos os meus personagens. Em todos nós, ela existe em potência. É por isso que eu prefiro os não-conformistas: o não-conformista é muito mais sadio do que aquele que por toda sua vida regula seu cotidiano, pois é aquele mais apto, no momento menos previsível, a explodir e matar o primeiro que aparecer.” (Sobre a violência de seus personagens, entrevista a Charles Bitsch, Cahiers du Cinéma 89, novembro de 1958).
– “O cinema é a melodia do olhar.”
E O CINEMA…-E NICHOLAS RAY.