Leandro Banner

Quando se fala em quadrinhos brasileiros de terror, muita gente pensa logo em vampiros, fantasmas ou criaturas do folclore. O quadrinista gonçalense Eberton Ferreira resolveu seguir outro caminho: olhar para o balcão do açougue e perguntar, com um sorriso perverso, “e se aquela promoção de carne estiver boa… boa demais?”. O resultado é A REDE DA CARNE, uma HQ independente lançada originalmente em 2015 que mistura horror, humor negro, crítica social e um gore assumidamente bem inspirado no cinema trash, sem jamais perder a identidade brasileira. A premissa é deliciosamente macabra. 😈Uma tradicional rede de frigoríficos da região metropolitana entre Niterói e São Gonçalo esconde um segredo terrível: a carne comercializada vem… de seres humanos. A partir dessa ideia central, Eberton constrói sete contos interligados, nos quais acompanhamos os integrantes dessa insana família criminosa, suas vítimas e as consequências de seus atos. Cada história funciona muito bem isoladamente, mas todas ajudam a ampliar esse universo grotesco, transformando uma simples história de canibais em uma verdadeira lenda urbana contemporânea e bem intrigante. O roteiro aposta em uma narrativa dinâmica, com reviravoltas constantes e personagens que transitam entre o assustador e o caricato. O humor negro aparece como um tempero indispensável: em vez de aliviar a tensão, ele a torna ainda mais desconfortável. É aquele tipo de leitura em que o leitor ri e, no segundo seguinte, pensa: “acho que eu não deveria estar rindo disso…”. 🤔E justamente aí reside boa parte do charme da obra.

Visualmente, Eberton Ferreira também demonstra segurança, pois seu traço privilegia a narrativa clara e eficiente, valorizando expressões exageradas, cenas de violência impactantes e enquadramentos cinematográficos. O preto e branco favorece a atmosfera sombria e evidencia o trabalho de luz e sombra, conferindo personalidade ao material. Não há preocupação em glamourizar o horror; a intenção é provocar incômodo, exatamente como o gênero pede. A edição física, por sua vez, merece elogios. Publicada em formato 17 x 26 cm, com 80 páginas, capas coloridas, miolo em preto e branco e papel couché, a HQ produzida pela editora de Eberton apresenta excelente acabamento para uma produção independente (ainda que o formato da segunda edição seja melhor). É o tipo de publicação que, ainda que eventualmente precise rever um ou outro pequeno detalhe, demonstra o enorme cuidado do autor não apenas com a história, mas também com a experiência do leitor. Outro mérito é a coragem de Eberton Ferreira em investir continuamente nesse universo. A REDE DA CARNE não ficou restrita a um volume único, pois, não obstante o lapso temporal, a série ganhou continuações como A VOLTA DA REDE DA CARNE, O IMPÉRIO DA REDE DA CARNE e posteriormente A LENDA DA REDE DA CARNE, consolidando uma franquia nacional de horror que vem crescendo ao longo dos anos e conquistando seu espaço entre os leitores do gênero. No fim das contas, A REDE DA CARNE é uma carta de amor ao terror exploitation, aos filmes B e às histórias de horror visceral, mas sem abrir mão de uma personalidade genuinamente brasileira. É uma HQ que diverte, choca, faz rir de situações absurdas e, de quebra, lembra que o mercado independente nacional está repleto de autores talentosos produzindo obras que não devem nada ao material estrangeiro. Só fica um conselho para o leitor: depois de terminar a HQ… talvez seja melhor dar uma olhadinha duas vezes no cardápio daquele churrasco de domingo. Vai que a “carne especial da casa” tem uma procedência… digamos… humana demais.😝😝
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻