Adilson Santos

Uma das invenções do campo da ficção científica que nunca chegou próxima de acontecer foi o teleporte. Como divagar pelos limites da ciência sempre tem sido um mote rico para os autores do gênero, nos deparamos constantemente com histórias que procuram nos alertar para o preço a se pagar pela busca do conhecimento e pela ousadia de se tentar explorar novas fronteiras. Assim em 1958, e vinte seis anos depois, o cinema fez de uma mosca caseira um dos maiores monstros do gênero. Em 1986, a Fox refilmou A Mosca da Cabeça Branca (The Fly), em um filme co-produzido pela Brooksfilms (do comediante Mel Brooks) e dirigido por David Cronemberg. O roteiro do próprio Cronemberg e Charles Edward Pogue atualizou a história agora protagonizada pelo anti-social Seth Brundle (Jeff Goldblum) que cria câmeras de teleporte de matéria sonhando em teletransportar pessoas, revolucionando a ciência. Quando Goldblum inicia um relacionamento com a repórter Verônica Quaife (Geena Davis), o brilhante cientista admite que não consegue teletransportar matéria orgânica. Depois de várias tentativas inclusive com um bife e depois com babuínos, o cientista segue decifrando o código genético de modo a conseguir reproduzi-lo. Enciumado com a relação pré-existente de Veronica com seu chefe Stathis Borans (John Getz), Seth passa pelo transmissor de matéria sem saber que junto leva uma mosca. Diferente do filme de 1958, que era mais fidelíssimo ao conto de George Langellan, o filme de Cronemberg faz uma transformação gradativa de Seth em mosca, desconstruindo sua humanidade em favor de um ser híbrido, mais monstro que homem.

Na época, Cronemberg pensou na transformação como uma metáfora para a fragilidade do homem diante do envelhecimento e da morte, mas as plateias e a crítica especializada, na época, enxergaram uma representação da degradação física provocada pela AIDS. Seja qualquer uma destas analogias, estas só foram possíveis graças ao excelente trabalho de maquiagem de Chris Wallas, que demorava cinco horas para preparar Jeff Goldblum. O trabalho de Walas foi reconhecido e premiado com um Oscar, e Walas conseguiu o feito de dirigir a sequência A Mosca II (The Fly II) de 1989. O filme também recebeu o Saturn Awards (renomada premiação para a ficção cientifica) como melhore filme, melhor diretor ator, atriz e … a maquiagem de Walas. O filme chegou às telas americanas em Agosto de 1986, mas no Brasil só chegou em Abril do ano seguinte já que na época a janela de lançamentos era bem maior que hoje em dia. Rumores afirmam que o filme pode ganhar um reboot em breve. Lembro bem do impacto causado pelo filme no ano de seu lançamento, como as plateias, e eu, reagimos a cada etapa da transformação de Seth Brundle, conforme um primo meu disse então “consagração do cinema nojo”, no melhor sentido, o de fazer a ficção parecer por um momento que seja a realidade. Disponível no Disney +