Adilson Santos

Devo dar parabéns a Jeffrey Addiss e Will Mathews, os roteiristas e criadores de The Borroughs, a minissérie em 8 capítulos que chegou na semana passada à Netflix. Isto porque poucas histórias ultimamente são privilegiadas por um elenco all star de veteranos. No que parece ser uma bela comunidade de aposentados no deserto do Novo México, um grupo de aposentados se tornam heróis inesperados ao trabalharem em conjunto para impedir que uma ameaça extraterrestre tome a única coisa que eles não têm: tempo. O roteiro sabe como tirar proveito da presença em cena de Geena Davis, Alfre Woodward, Denis O’Hare, Clarke Peters, Bill Pullman e Alfred Molina no foco central da história. Os criadores se inspiraram em referências dos anos 80 como a série Super Gatas (The Golden Girls, 1985-1992) e o filme Cocoon (1985) para desenvolver o conceito. Durante visitas de pesquisa a comunidades reais de aposentados, os criadores descobriram que as noites de karaokê eram frequentadas por várias famílias que traziam urnas contendo as cinzas de entes queridos falecidos que haviam curtido karaokê — um detalhe que moldou a abordagem tonal do programa de tratar a vida e a morte como coexistindo naturalmente e não como forças opostas. Essa decisão foi sábia e permite uma identificação imediata com o grupo central da história à medida que passam por temas como luto, aposentadoria, etarismo e até mesmo relacionamento entre um homem mais jovem (Carlos Miranda) e Renée (Geena Davis). O que incomoda é que muitas das questões ficam sem explicação mais eficaz como a origem dos alienígenas, outras ficam por demais vagas como a revoada de corvos ou o destino suicida dos alienígenas no final. Entre as referências destacam-se a amiga corva negra de Art, Brooksy, que parece estar prestando homenagem ao personagem de James Whitmore, Brooks Hatlan, de Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994). Este era o bibliotecário da prisão, e tinha um amigo na forma de Jake, um corvo preto. Os irmãos Duffer, produtores executivos da série, consideraram The Boroughs como um espelho estrutural de Stranger Things de uma forma específica: assim como Stranger Things era um programa sobre crianças que não foi feito exclusivamente para crianças, The Boroughs é um programa sobre idosos que não é feito exclusivamente para idosos. É feito para os amantes de mistério e ficção-cientifica.