Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1956, o filme Assim Caminha a Humanidade (Giant), dirigido por George Stevens, configura-se como uma das realizações mais ambiciosas e críticas da era de ouro de Hollywood. Baseado no romance homônimo de Edna Ferber, o longa-metragem transcende a mera estrutura da saga familiar tradicional para retratar verdadeiro panorama da identidade cultural e econômica dos Estados Unidos, utilizando o estado do Texas como um microcosmo da própria nação. Ao longo de suas mais de três horas de projeção, a obra justapõe a imensidão das paisagens texanas à pequenez das vaidades humanas, costurando temas complexos como a transição do Velho Oeste para a modernidade industrial, o racismo estrutural, a corrupção moral pelo capital e a inevitável erosão do tempo. Para compreender a profundidade de Assim Caminha a Humanidade, é fundamental analisar a bagagem de seu diretor. George Stevens integrou a Unidade de Sinalização Fotográfica do Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, sendo um dos responsáveis por registrar imagens documentais da libertação do campo de concentração de Dachau. Esse contato visceral com o horror humano transformou radicalmente sua abordagem estética e temática na década de 1950. No filme, Stevens subverte o conceito tradicional de “épico”. Enquanto o cinema de sua época frequentemente utilizava o gigantismo técnico e as grandes paisagens para glorificar o imperialismo ou o destino manifesto, Stevens emprega a vastidão da fazenda Reata para encolher a arrogância de seus proprietários. O seu humanismo se manifesta na recusa de heróis bidimensionais; cada personagem é tratado com paciência psicológica, permitindo que suas falhas convivam com seus momentos de dignidade. O eixo central da narrativa orbita a transição econômica e social do Texas na primeira metade do século XX. Inicialmente, o estado é apresentado sob a ótica do patriarca Jordan “Bick” Benedict (Rock Hudson), cuja riqueza provém de uma economia agrária e pastoril de bases quase feudais. A terra, para a dinastia Benedict, possui um valor intrínseco, quase espiritual, baseado no controle bovino e no respeito a um código de honra patriarcal rudimentar.

Contudo, essa identidade mitológica é engolida pela modernização industrial com a descoberta do petróleo. Stevens filma a transição da paisagem com melancolia crítica: os horizontes limpos e os rebanhos dão lugar a florestas de torres de perfuração de ferro e poços que cospem lama.O petróleo atua como o principal vetor de corrupção moral da narrativa. A riqueza fácil e imediata destrói os antigos escrúpulos dos fazendeiros, transformando o conservadorismo agrário em um capitalismo corporativo predatório, vulgar e estéril, onde o valor do homem passa a ser medido puramente pelo seu extrato bancário. Nenhum personagem sintetiza melhor essa metamorfose moral do que Jett Rink, interpretado por James Dean em sua última aparição no cinema. Jett começa a história como um peão ressentido, marginalizado pela aristocracia dos Benedict. Ao herdar um pedaço de terra infértil da irmã de Bick, Luz (Mercedes McCambridge), ele descobre petróleo e ascende à estratosfera financeira. Dean, através de sua atuação expressionista, corporal e repleta de cacoetes que definiram o Method Acting, transforma Rink no símbolo definitivo do novo-rico e do ressentimento de classe. A tragédia de Jett reside no fato de que o dinheiro não compra a aceitação social nem o amor de Leslie (Elizabeth Taylor), a esposa de Bick, por quem ele nutre uma obsessão silenciosa. Na velhice, Rink é mostrado como um magnata decrépito, bêbado e solitário, desmaiando sobre a mesa de um banquete de gala que ele mesmo organizou. É a imagem da decadência espiritual de um homem soterrado pelo próprio ouro. Se Bick Benedict representa a tradição e Jett Rink a modernidade corrupta, Leslie Lynnton (Elizabeth Taylor) funciona como a força progressista e a consciência ética do espectador. Vinda da Costa Leste,uma região historicamente associada ao intelectualismo e ao refinamento; Leslie choca-se imediatamente com o ambiente machista e segregacionista do Texas ao se casar com Bick.

O casamento entre Taylor e Hudson serve como um campo de batalha ideológico. Leslie recusa o papel submisso que as mulheres texanas tradicionalmente exerciam e passa a intervir nas discussões políticas dos homens, além de exigir cuidados médicos e dignidade para os trabalhadores mexicanos da fazenda. A atuação de Elizabeth Taylor injeta uma força vital na narrativa, enquanto Rock Hudson constrói com nuances as rachaduras na armadura de Bick, um homem que gradualmente descobre que a rigidez de suas tradições é incapaz de conter os anseios de mudança de sua esposa. Diferente de boa parte das produções de sua época, que romantizavam a história americana, Assim Caminha a Humanidade expõe as vísceras do racismo estrutural e da segregação sofrida pelos mexicano-americanos. Estes são representados como uma subclasse invisibilizada, confinada a habitações precárias dentro da fazenda. A hipocrisia da elite branca é escancarada: os latinos servem para lutar nas guerras americanas, como o jovem Angel Obregón, que morre na Segunda Guerra; mas são impedidos de frequentar os mesmos salões, hotéis e restaurantes que os brancos. A esperança de cura social é projetada na geração seguinte, que rompe definitivamente com a pureza dinástica e o destino traçado pelos pais. O filho mais velho de Bick, Jordy (Dennis Hopper), rejeita o legado da terra para estudar medicina e, de forma ainda mais revolucionária para a época, casa-se com Juana (Elsa Cárdenas), uma mulher mexicana. Essa união força a Velha Guarda dos Benedict a confrontar seus próprios preconceitos internos, materializando a noção de que o futuro da América é inevitavelmente plural, miscigenado e multicultural. Ao longo das três décadas retratadas, o tempo atua como um agente ativo na narrativa. Por meio do envelhecimento físico dos atores, auxiliado por uma maquiagem pesada e precisa ; Stevens demonstra que o tempo desgasta até as certezas mais implacáveis. O tempo vence a juventude arrebatadora de Jett Rink e curva a postura imponente de Bick Benedict.
Consequentemente, o filme decreta o fim do caubói mitológico de Hollywood. A figura do homem forte do Velho Oeste, imortalizada por atores como John Wayne, perde a utilidade em um mundo civilizado e burocrático. O caubói moderno de Assim Caminha a Humanidade termina a sua jornada cansado, sentado em uma poltrona dentro de uma mansão silenciosa, despido de sua soberania territorial e obrigado a negociar seu espaço com a realidade prática do século XX.
O clímax filosófico do filme ocorre longe dos palácios do petróleo, em uma humilde lanchonete de beira de estrada. Ao ver que o proprietário do estabelecimento se recusa a atender uma família mexicana e insulta sua nora Juana, Bick Benedict, já idoso; intervém. Ele desafia o homem para uma briga física em defesa da dignidade de sua família estendida. Bick perde o combate e termina estirado no chão, derrotado e coberto por pratos quebrados. No entanto, aos olhos de Leslie, aquela derrota física representa a sua maior vitória moral: o desmantelamento final do orgulho aristocrático em nome da decência humana. O filme se encerra com um dos planos finais mais célebres do cinema americano. A câmera de George Stevens enquadra, lado a lado em um cercado infantil, os dois netos de Bick e Leslie: um menino branco e loiro, e um bebê de traços nitidamente mexicanos. Os rostos das duas crianças preenchem a tela, olhando fixamente para o espectador. Não há música de triunfo militar ou exaltação à riqueza. O “gigante” do título original deixa de ser o território ou o petróleo e passa a ser o potencial humano de convivência. Ao fechar a narrativa com a imagem da miscigenação, Stevens sela seu épico humanista com uma mensagem clara: a única marcha possível para a evolução da humanidade é aquela que caminha em direção à igualdade e à superação do preconceito.

Ficha Técnica: Assim Caminha a Humanidade (1956)
- Título original: Giant
- Ano: 1956
- País: Estados Unidos
- Duração: 201 min.
- Gênero: Drama, Faroeste
- Direção: George Stevens
- Roteiro: Fred Guiol e Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber
- Produção: George Stevens e Henry Ginsberg
- Música: Dimitri Tiomkin
- Fotografia: William C. Mellor
- Montagem: William Hornbeck, Philip W. Anderson
- Produtora: Warner Bros.
- Distribuição: Warner Bros. 3h21min
Elenco principal
- Elizabeth Taylor — Leslie Lynnton Benedict
- Rock Hudson — Jordan “Bick” Benedict Jr.
- James Dean — Jett Rink [último filme do ator]
- Carroll Baker — Luz Benedict II
- Jane Withers — Vashti Snythe
- Chill Wills — Tio Bawley
- Mercedes McCambridge — Luz Benedict
- Dennis Hopper — Jordan Benedict III
- Sal Mineo — Angel Obregón II