Adilson Santos

Adilson: Aqui eu estou com Garcia Júnior, ator, radialista, dublador, diretor de dublagem. Vocês certamente conhecem a voz de Garcia através de seus inúmeros trabalhos. Ele dublou Arnold Schwarzenegger, Kevin Costner, Robin Williams e, é claro, entre os mais famosos personagens, o heróico Capitão Kirk interpretado por William Shatner na segunda dublagem do seriado Star Trek, e é claro, a voz do herói He-Man, no desenho clássico e no live action Mestres do Universo, que chega às telas. Garcia, é um prazer estar aqui com você. Eu gostaria de começar nossa entrevista c agora. om você falando como foram os seus primeiros passos na dublagem. Como foi que você iniciou no meio? O que levou você a se envolver com o meio da dublagem?
Garcia: O que me levou foi a proximidade de casa. Só, apenas isso. Meus pais eram do meio, meu pai começou no rádio, foi para dublagem, fez assistência de direção de cinema, fez produção de televisão também e minha mãe também dublava, fazia rádio, radioteatro e eu estava ali. E é isso, eu estava ali dentro e as coisas aconteceram de uma forma muito natural. Embora ninguém, inclusive, quisesse que eu seguisse essa profissão porque sempre foi bastante difícil. Hoje em dia com as redes sociais, ela tem uma certa notoriedade e tal, mas ela nunca foi uma profissão valorizada no Brasil, infelizmente, por conta principalmente muitas vezes da imprensa, que não tem a compreensão da importância de se ter a nossa língua em filmes, em produções estrangeiras, coisa que na Europa é uma coisa absolutamente normal, corriqueira e valorizadíssima.
Adilson: Qual foi o primeiro papel que você dublou e com quantos anos você tinha?
Garcia: Primeiro papel foi um cavalo numa série chamada… acho que João Grandão e Espirro, se não me engano. Era um desenho animado, enfim. Eu estava no estúdio como sempre estava depois de sair do, do colégio, da aula, porque exatamente por ser um momento de vacas magras não tinha para onde ir depois do, da escola. Ou eu ia para rádio ficar com a minha mãe ou eu ia para dublagem ficar com meu pai. E nesse momento a BKS, que era o estúdio onde meu pai trabalhava, era do lado da escola onde eu estudava lá em São Paulo, Doutor Edmundo de Carvalho. Então eu saía da escola e ia direto para lá. E aí eu estava no estúdio e ninguém sabia relinchar e tinha um cavalo que falava uma fala e relinchava. Eu falei: “Olha, eu sei relinchar, quer que eu faça aí?“. Quer dizer, nem falei “quer que eu faça“, eu só falei que eu sabia relinchar. “Então vai lá e faz“. Aí eu fiz e foi a primeira coisa. Mas, evidentemente, não tinha não pretensão e nem vontade de continuar fazendo qualquer coisa depois. Eu só tinha acho que 8 ou 9 anos, e aí com 10 anos aconteceu o Pica-Pau.
Adilson: Você dublou o Pica-Pau depois do Olney Cazarré, não foi isso?
Garcia: Isso. Quando o Olney foi para o Rio para fazer a novela Feijão Maravilha com o Grande Otelo, é, abriu essa vaga em São Paulo da dublagem do Pica-Pau, porque ela era feita na época na BKS também, em São Paulo. E eu fiz o teste, é, muito a contragosto. A minha mãe é que fez uma força danada para eu fazer esse teste porque disseram que era um teste de brincadeira. Eu sempre fui muito tímido, então não tinha o menor interesse de fazer aquilo e, por insistência da minha mãe, eu fiz o teste lá de brincadeira, só que não foi de brincadeira. Mandaram o teste, acabaram mandando o teste e eu fui aprovado.
Adilson: Entendi. E além de Pica-Pau e He-Man, tem outros desenhos que você também dublou, não é? Você tem preferência ou acha que é mais difícil dublar um desenho do que um ator em um live-action?
Garcia: Bom, eu acho que qualquer trabalho tem a sua, a sua particularidade e diferença, mas eu não diria especificamente se, se por conta de ser um live-action ou um animado. Porque tem animações que são mais caricatos, mas tem outras que não, que são mais próximos à realidade, né? Os personagens por mais fictícios que sejam, por mais, por exemplo, eu fiz o Simba no Rei Leão, fiz, é, a Fera na Bela e a Fera, mas são personagens com uma densidade de, de, de caráter, de, de existência de personagem muito grande, e isso consequentemente não, não, não dá para dizer: “Ah, não, tem uma fórmula diferente do que um live-action para interpretar“. A interpretação é sempre a mesma no sentido de dar veracidade àquele personagem. Agora, quando é um, um personagem como o Pica-Pau, por exemplo, estriônico, caricato, absolutamente sem nenhum tipo de moral, evidentemente você carrega em outras tintas, ou como o Roger Rabbit também que eu fiz. Você carrega em outras tintas e, e vai, né? A dificuldade eu acho que maior é do papel em si, né? Se é um, se é um papel muito complexo ou se é uma coisa mais rasa, de uma construção mais rasa. Só isso. Mas se é live-action ou, ou animado, acho que isso não, não difere no sentido da, da de ser melhor ou pior ou eu gostar mais ou menos.

Adilson: Você passou por várias casas de dublagem. A BKS, a saudosa Herbert Richers, a Álamo, etc. Então você viu uma evolução das casas de dublagem lá do início, né, em que as coisas eram mais mecânicas, menos digitalizadas, para o que é hoje. Você sente falta do que era, de como era uma gravação? Ou hoje em dia, do jeito que é as coisas para dublar tudo sendo digitalizado, estão melhores? Perdeu-se alguma coisa? Como você vê a evolução do que era para o que é a dublagem está hoje?
Garcia: É, eu acho que, é, o que mais acabou se perdendo, mas ganhou-se em questões técnicas, foi a proximidade do, dos atores, né, e da troca entre eles. Porque antigamente a gente gravava todo mundo junto e, consequentemente, você tinha o outro para ouvir. Mas, como eu… eu ia dizer, tudo bem, eu falo inglês, então… Mas eu acho que também não é só a questão do inglês, porque qualquer outro idioma também, quando você tem o filme e você está conectado a esse filme verdadeiramente ali, quando você está 100%… Ele pode ser coreano, japonês, alemão. Mas se você está conectado e está com o teu texto ali na frente traduzido e, e você está olhando ali a interpretação dos atores e tal, eu me guio muito por isso. E, e isso, de qualquer maneira, me ajuda bastante. Então a troca antigamente eu acho que era interessante quando você mudava alguma coisa no texto, quando você tinha essa liberdade poética de mudar alguma coisa quando era um produto, digamos, não tão hermético no sentido de uma mensagem tão fechada. Mas aí também é exatamente isso: era, dependia muito do produto em si, da produção em si, né? Eu, eu hoje em dia sou um defensor muito grande do, do respeito à obra original. Ou seja, a transposição daquilo para o português sem subverter. A gente vai fazer uma versão, mas não uma subversão daquilo que está sendo proposto, porque aquilo foi… Enfim, eu sou formado em cinema também, é, eu sei o quanto custa você criar um projeto, ou seja, produzir algo do zero e levantar isso e fazer isso acontecer. A partir desse momento, quando você subverte isso, por mais que você ache que você está sendo genial ou engraçado ou tal, eu, eu acho que peca um pouco pelo desrespeito àqueles que vieram antes e colocaram aquela obra de pé, entendeu? Mas quando você é mais jovem, evidentemente, e, e tem menos conhecimento, eu acho que você não tem tanto entendimento dessa questão, né? Então eu não sou saudoso com relação ao passado da dublagem. Eu acho que ele é importantíssimo para a gente estar onde a gente está hoje. Mas a questão da tecnologia e a questão também de você estar atento à obra original para que você possa fazer parte dela sem subvertê-la também é muito importante. E hoje isso é mais fácil de você manter, exatamente porque você não tem essa troca de criatividade entre atores que muitas vezes estão ali querendo criar, né? Estão querendo criar uma outra história, uma inovação naquela, naquela questão ali quando às vezes na dublagem isso é um pouco perigoso.
Adilson: Vamos falar dos personagens que você fez. Como é dublar atores de estilos tão distintos como Schwarzenegger, Harrison Ford, Robin Williams e Kevin Costner?
Garcia: Não tenho problemas em fazer de atores de estilos distintos, seja o estilo explosivo de Robin Williams e o mais contido de Schwarzenegger porque meu papel é servir à persona que já foi construída pelo ator original. Quando dublei o Capitão Kirk na segunda versão de Star Trek para a Rede Manchete, fiz o que pude mas melhor foi o trabalho de Emerson Camargo e Astrogildo Filho, que vieram antes de mim.
Adilson: Já foi reconhecido na rua na época em que dublava o MacGyver e a série animada do He Man ?
Garcia: Na rua não, mas já fui identificado pela voz em locais como elevadores ou por motoristas de aplicativos. Não tenho saudosismo da época em que fiz o MacGyver, foi um trabalho bom mas não cultuo o que fiz. Do He-Man fiquei muito satisfeito pelo convite da Sony para dublar novamente o herói no novo filme, acerto da empresa em respeitar a memória afetiva dos fãs.
Adilson: Qual seu trabalho mais recente além de dublar o live action Mestres do Universo?
Garcia: Recentemente, eu dublei o Kevin Costner na série Yellowstone e Harrison Ford na série Shrinking (Falando a Real), onde ele interpreta um psicanalista com Parkinson.
Para encerrar vamos ao questionário de Bernard Pivot
1. Qual seu som favorito ? O silêncio. 2. Qual seu som menos favorito? O Silêncio também. 3. Que outra profissão você teria ? Piloto de caça da FAB na Segunda Guerra Mundial. 4. O que gostaria de ouvir de Deus quando chegasse ao Céu? “Você existe”.
