HQ | O INCRÍVEL HULK – HISTÓRIAS ESSENCIAIS E FATOS MARCANTES – PARTE 7

Leandro Banner

Entre o final da década de 1970 e meados dos anos 1980, o título THE INCREDIBLE HULK atravessou uma das fases mais importantes de toda a trajetória editorial do personagem. Foi um período de transição criativa, amadurecimento psicológico e redefinição conceitual do Gigante Verde, primeiro sob os roteiros de Roger Stern e, posteriormente, numa longa e marcante gestão de BILL MANTLO, responsável por transformar profundamente a mitologia do Hulk moderno. Nos dois últimos anos da década de 1970, Roger Stern assumiu os roteiros da série em um de seus primeiros trabalhos profissionais de grande relevância. Embora sua passagem não seja normalmente lembrada entre as fases definitivas do personagem, Stern conseguiu manter o bom nível narrativo herdado de Len Wein, equilibrando ação, drama e continuidade de maneira bastante eficiente. Mais importante do que isso: foi durante sua gestão que começaram a surgir elementos psicológicos que mais tarde se tornariam fundamentais para toda a construção conceitual do Hulk. Um dos momentos mais significativos ocorreu em THE INCREDIBLE HULK #226, numa história que trouxe pela primeira vez uma abordagem mais psicológica da dualidade entre Bruce Banner e o Hulk. A edição permaneceu inédita no Brasil durante décadas, sendo publicada somente em 2018 na coleção Coleção Histórica Marvel – O Incrível Hulk #1, da Panini Comics. Hoje, essa história é vista como um importante embrião das futuras explorações mentais e emocionais do personagem. Vale acrescentar que boa parte dessas histórias, no período de transição da RGE para a Editora Abril, permanecia inédita até a publicação dessa Coleção Histórica Marvel dedicada ao Golias Esmeralda.

Stern também promoveu mudanças importantes no núcleo de apoio da série. O casamento entre Betty Ross e Glenn Talbot finalmente chega ao fim, enquanto Talbot ascende ao posto de coronel e assume a liderança da Base Gama após o colapso nervoso do General Ross. Paralelamente, o roteirista conclui diversas tramas iniciadas por Len Wein, especialmente o memorável arco da cidade perdida de El Dorado, desenvolvido entre as edições #238 e #243, culminando numa gigantesca batalha entre Hulk e Tyrannus. Era uma fase ainda muito ligada ao espírito aventuresco clássico da Marvel dos anos 1970, mas já apontando para algo mais dramático e introspectivo. A verdadeira revolução, contudo, começaria em 1980, quando BILL MANTLO assume a revista a partir de THE INCREDIBLE HULK #245. Para muitos leitores (inclusive para este que vos fala), trata-se simplesmente da maior fase da história do personagem. Mantlo compreendeu algo essencial sobre o Hulk: o monstro não funcionava apenas como máquina de destruição, mas como uma criatura profundamente trágica, emocionalmente fragmentada e capaz de despertar empatia genuína. Logo em suas primeiras histórias, o roteirista demonstra uma sensibilidade rara para os quadrinhos de super-heróis da época. O arco em que Hulk retorna ao mundo subatômico de K’Ai para devolver o corpo de Jarella à sua terra natal, entre as edições #245 e #248, é um exemplo perfeito disso. A saga mistura fantasia cósmica, melancolia e humanidade de maneira surpreendente, mostrando um Hulk movido pela dor e pela lealdade afetiva — características raramente exploradas até então. Ao mesmo tempo, Mantlo não abandonava o aspecto épico do personagem. Sua fase é recheada de confrontos memoráveis, como as batalhas contra o Surfista Prateado em THE INCREDIBLE HULK #250, o primeiro encontro com os Alienígenas – quatro pessoas sob a liderança do ambicioso empresário Simon Utrecht, que tentam simular um voo semelhante ao que originou o Quarteto Fantástico – e o brutal confronto contra o Thor nas edições THE INCREDIBLE HULK #254 e #255, respectivamente. Entretanto, mesmo nos momentos mais explosivos, o foco central permanecia sempre na tragédia existencial de Bruce Banner.

Mantlo também começou a reorganizar toda a vida pessoal do personagem. Betty Ross e Rick Jones voltam a assumir papéis centrais, decidindo permanecer ao lado de Banner na esperança de encontrar uma cura definitiva para sua condição. Já Glenn Talbot torna-se cada vez mais consumido pela obsessão em destruir o Hulk, o que resulta num conflito que acabaria levando à morte do militar posteriormente. O grande divisor de águas da fase acontece em THE INCREDIBLE HULK #272, publicada em 1982, quando Bruce Banner passa a controlar conscientemente suas transformações. À primeira vista, isso poderia parecer apenas mais uma repetição de situações já exploradas anteriormente, nas histórias de Stan Lee e Roy Thomas, pois Banner já havia controlado o Hulk em outros momentos da cronologia. A diferença fundamental é que Bill Mantlo transforma esse conceito em uma mudança estrutural de longo prazo. Pela primeira vez, o controle não dura apenas algumas páginas ou poucas edições, como antes, mas se estende por cerca de dois anos inteiros de publicação. Essa decisão alterou completamente a dinâmica da revista, culminando em algo totalmente inédito e inovador até então. O Hulk controlado por Banner recebe anistia por seus atos destrutivos do passado, torna-se uma celebridade mundial e reconstrói parcialmente sua vida. Banner retoma suas pesquisas com radiação gama e tenta finalmente integrar suas duas existências. Porém, essa nova condição gera conflitos emocionais profundos. Betty Ross, que esperava encontrar uma cura definitiva para o homem que ama, não consegue aceitar que Bruce escolha permanecer como Hulk e acaba deixando sua vida. Posteriormente, Banner se envolve romanticamente com a doutora Katherine Waynesboro, agente da S.H.I.E.L.D. inicialmente encarregada de espioná-lo, mas que acaba genuinamente apaixonada pelo cientista.

Enquanto isso, o General Ross ultrapassa definitivamente seus limites morais ao libertar o Abominável com o objetivo de destruir o Hulk. O conflito acaba reforçando ainda mais a humanidade de Banner, especialmente quando ele arrisca a própria vida para salvar Katherine Waynesboro. Em paralelo, o personagem participa do megacrossover GUERRAS SECRETAS, convocado pelo Beyonder juntamente com diversos heróis e vilões da Marvel, retornando do evento com um grave ferimento na perna. Mas toda a aparente estabilidade construída ao longo desses anos começa a ruir em THE INCREDIBLE HULK #296, de 1984. Durante um confronto com outro ser irradiado por raios gama, Banner perde novamente o controle e o Hulk selvagem ressurge de maneira devastadora. Pouco depois, descobre-se que toda a deterioração psicológica do personagem havia sido manipulada pelo vilão Pesadelo. Com ajuda do Doutor Estranho, Banner é alcançado dentro do subconsciente do Hulk. Contudo, ao invés de aceitar novamente a convivência dividida entre homem e monstro, Bruce toma uma decisão extrema: renuncia à própria identidade humana e se entrega completamente ao lado selvagem. É um dos momentos mais sombrios e ousados da história do personagem. Banner literalmente escolhe deixar de existir como indivíduo autônomo, permitindo que o Hulk tome conta integralmente do corpo e da mente. O resultado é o surgimento de uma criatura totalmente animalesca, irracional e incontrolável em função da “morte psíquica” de Banner. Toda essa construção culmina em THE INCREDIBLE HULK #300, uma edição histórica em que os Vingadores, a SHIELD e diversos heróis da Marvel tentam desesperadamente conter um Hulk completamente enlouquecido e devastador. Diferentemente de histórias anteriores, não existe aqui qualquer traço moderador da personalidade de Banner. O Hulk torna-se praticamente uma força da natureza, uma entidade destrutiva impossível de negociar ou racionalizar. Enquanto heróis e militares consideram a morte do monstro como única opção, o Doutor Estranho tenta desesperadamente uma alternativa a fim de preservar a vida de seu antigo aliado.

Visualmente, toda essa longa fase teve como principal artista SAL BUSCEMA, cujo trabalho se tornou praticamente inseparável do personagem. Com narrativa dinâmica, expressividade monstruosa e grande senso de impacto visual, Buscema ajudou a definir a identidade gráfica definitiva do Hulk durante os anos 1980. Mesmo acompanhado por diferentes arte-finalistas ao longo do período, que influenciavam em maior ou menor grau o seu estilo, sua arte manteve uma consistência impressionante, contribuindo decisivamente para o tom emocional e épico das histórias. No Brasil, essas aventuras foram conhecidas originalmente através das tradicionais edições em formatinho da Editora Abril, muitas vezes publicadas com cortes, remontagens e mutilações editoriais típicas da Editora. Somente entre março de 2018 e julho de 2019 essas histórias – finalmente – receberam uma (re)publicação mais digna e completa na Coleção Histórica Marvel – O Incrível Hulk #1 a 12, lançada pela Panini em formato americano e sem os cortes ou adulterações da Abril. Para muitos leitores brasileiros, foi a oportunidade definitiva de redescobrir uma das fases mais ricas, dramáticas e transformadoras já vividas pelo Gigante Verde — uma verdadeira epopeia de tragédia, monstruosidade e humanidade que ajudou a consolidar o Hulk como um dos personagens mais dramáticos e complexos da Marvel Comics. As consequências da edição THE INCREDIBLE HULK #300 e a SAGA DA ENCRUZILHADA, que marca a despedida de Mantlo e Buscema do título, serão tratadas no nosso próximo post. Fiquem ligados. 😉

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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