HQ | TARZAN, A ERA DE RUSS MANNING

Leandro Banner

Publicada pela Devir em 2022, TARZAN, A ERA DE RUSS MANNING #1 representa um daqueles lançamentos importantes para os leitores interessados na história dos quadrinhos de aventura clássicos, em particular para os fãs do Rei das Selvas criado por Edgar Rice Burroughs. Publicadas anteriormente no Brasil de forma serializada pela EBAL nas décadas de 1960 e 1980, a edição da Devir reúne as histórias produzidas por RUSS MANNING para as revistas da Gold Key Comics durante a década de 1960, adaptando o universo criado por Burroughs. Trata-se de um material historicamente relevante, especialmente por apresentar uma das interpretações visuais mais elegantes, marcantes e sofisticadas do personagem, reunindo TARZAN OF THE APES #155 a #161, #163, #164, #166 e #167, de 1965 a 1967. Oprincipal problema da coletânea está nos roteiros de Gaylord DuBois. Embora funcionais e eficientes dentro da proposta editorial da época, as histórias sofrem com uma condensação excessiva. Muitas aventuras possuem premissas interessantes, cenários exóticos e ideias que poderiam render narrativas mais densas e elaboradas, mas acabam resumidas em poucas páginas, atropelando desenvolvimento dramático, construção de tensão e aprofundamento dos personagens. É um tipo de narrativa típico dos quadrinhos licenciados dos anos 1960, voltados para um público mais jovem e publicados sob rígidas limitações editoriais. Ainda assim, em vários momentos fica evidente que as histórias mereciam mais espaço para se desenvolverem de forma adequada e satisfatória.

Se os roteiros são apenas corretos, a arte de RUSS MANNING, por outro lado, eleva o material a um patamar superior. Seu traço é absolutamente refinado: limpo, elegante, organizado e dotado de uma clareza narrativa exemplar. Há uma influência evidente de Hal Foster na composição das páginas, no desenho anatômico e no acabamento clássico das figuras. Manning constrói um Tarzan nobre, atlético e sereno, distante da representação mais brutal ou selvagem vista em outras fases do personagem. A selva ganha uma beleza quase idealizada, com cenários exuberantes e uma precisão visual impressionante. P artista demonstra um domínio extraordinário da narrativa gráfica. Mesmo nas histórias mais simples, sua arte cria um senso de grandiosidade e aventura que compensa parcialmente as evidentes limitações dos roteiros. O equilíbrio entre composição, enquadramento e detalhamento faz desta fase uma das mais visualmente belas já produzidas para Tarzan nos quadrinhos. Não é exagero afirmar que muitos leitores buscam essas histórias muito mais pela arte de Manning do que propriamente pelas tramas de DuBois.

A edição da Devir tem méritos e defeitos claros. O acabamento em papel offset de boa gramatura funciona adequadamente, e a impressão surpreendentemente correta não decepciona, se considerarmos que a editora já apresentou em outros momentos problemas de reprodução e impressão desfocada em alguns lançamentos anteriores, algo que felizmente não ocorre aqui de maneira significativa e perceptível. As páginas apresentam boa definição e valorizam o traço delicado de Manning. Por outro lado, o formato econômico adotado — menor que o padrão americano original — prejudica consideravelmente a experiência visual. Em um material cuja maior virtude está justamente na arte detalhada e elegante de RUSS MANNING, a redução de tamanho compromete parte do impacto gráfico das páginas. Os desenhos continuam belíssimos, mas claramente perderam espaço para respirar. É o tipo de decisão editorial que talvez ajude a reduzir custos, porém sacrifica justamente o principal atrativo da obra.

Outro ponto frustrante é a ausência do segundo volume, pois muitos leitores (este escriba incluído) aguardavam que a Devir também publicasse as célebres tiras de jornal produzidas por Russ Manning, consideradas por vários fãs o auge de sua trajetória com Tarzan. Até o momento, porém, a Devir não deu sinais concretos de continuidade da coleção, deixando a sensação de projeto incompleto. Não seria a primeira vez que isso ocorreria, haja vista os inúmeros projetos incompletos da Editora (basta lembrar de Preacher, Authority e Planetary, todos publicados apenas em parte (e pessimamente) pela Devir no começo dos anos 2000).🤬 Mesmo com essas limitações, TARZAN, A ERA DE RUSS MANNING #1 permanece como uma publicação valiosa, apesar da Devir.😡 É um registro importante de uma fase artisticamente brilhante do personagem e uma oportunidade de revisitar um dos grandes desenhistas clássicos dos quadrinhos de aventura. Ainda que os roteiros de Gaylord DuBois sejam excessivamente compactos e a edição brasileira peque no equivocado formato reduzido, a beleza da arte de Russ Manning torna o álbum indispensável para admiradores de Tarzan e dos grandes mestres da narrativa clássica em quadrinhos.

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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