Leandro Banner

Em meados dos anos 1980, JOHN BYRNE assumiu temporariamente o titulo do Hulk, uma das fases mais intrigantes e frustrantes da história do personagem. Sua contribuição começa com o roteiro de THE INCREDIBLE HULK ANNUAL #14 (dezembro de 1985), ilustrada por Sal Buscema (em continuação direta aos eventos mostrados em ALPHA FLIGHT #29, última história do encadernado HULK – A SAGA DA ENCRUZILHADA da Panini Comics), e prossegue nas edições #314 a #319 da série regular de INCREDIBLE HULK , de dezembro de 1985 a maio de 1986, culminando com a história completa em MARVEL FANFARE #29 (originalmente planejada como IHK #320).

Byrne propõe uma abordagem ambiciosa: separa fisicamente Bruce Banner do Hulk por meio de um procedimento desenvolvido pelo Doutor Samson, de tal forma que o monstro verde torna-se uma entidade distinta, um ser de fúria quase pura e instinto destrutivo, enquanto Banner recupera sua forma humana plena, mas enfrenta graves consequências físicas e emocionais. O autor traz de volta coadjuvantes clássicos — Betty Ross, Rick Jones, Doutor Samson e até a prima Jennifer Walters (Mulher-Hulk), bem como apresenta os novo Caça-Hulk —, recriando um senso de continuidade e “volta às raízes” após anos de histórias que, segundo o próprio autor, tinham afastado o Hulk da sua “essência original” (uma afirmação deveras discutível, uma vez que é muito aceitável e bem-vindo que um personagem experimente mudanças e evoluções conceituais, mas não é a hora nem o momento de nos ocuparmos de tais digressões).😉
O arco culmina no casamento de Bruce Banner e Betty Ross na edição #319, um momento simbólico e histórico para o casal, que finalmente chega ao altar após décadas de idas e vindas. Embora o conceito de separação já tivesse sido explorado antes (notadamente por Roy Thomas quando de sua passagem pelo título no final da década de 1960), Byrne aprofunda suas ramificações dramáticas, explorando temas de identidade, responsabilidade e o custo de uma “cura”.
Infelizmente, a passagem de Byrne foi interrompida prematuramente devido a desentendimentos criativos com o editor-chefe JIM SHOOTER. Byrne havia planejado uma direção mais longa e estruturada para o Gigante Verde, mas viu suas ideias vetadas ou alteradas, o que o levou a abandonar o título. A história destinada à edição #320, um experimento ousado com páginas inteiras (splash pages), acabou publicada em Marvel Fanfare #29 como “A Terrible Thing to Waste” (na versão brasileira “Um Terrível Desperdício”), oferecendo um vislumbre tantalizante do que poderia ter sido o Hulk sob seu mandato.
Como artista, Byrne estava no auge de seu talento: traços dinâmicos, anatomia poderosa, composição cinematográfica repleta de detalhes e um Hulk verdadeiramente gigantesco, imponente e feroz. Suas splash pages em MARVEL FANFARE são particularmente memoráveis, podendo ser entendidas como seu ponto alto nessa meteórica passagem pelo personagem. Como roteirista, porém, o ritmo soa apressado e, por vezes, atropelado — as ideias são razoáveis, mas a execução parece comprimida pelo pouco espaço e pela pressão editorial, restando evidente o potencial não realizado: Byrne iniciava tramas ricas (o Hulk solto causando destruição, Samson perseguindo-o, intrigas com S.H.I.E.L.D., o desenvolvimento de Betty etc.), mas não pôde colhê-las plenamente. Mesmo assim, essa curta passagem plantou sementes que influenciariam o personagem na década seguinte, especialmente na era de Peter David.

No Brasil, as histórias de John Byrne à frente do Hulk foram publicadas pela primeira vez pela Editora Abril no final da década de 1980, com os habituais cortes de páginas, reedições e alterações de texto típicos da editora. Somente em 2022 a Panini Comics lançou HULK: BATISMO DE FOGO (parte da linha Marvel Vintage), apresentando o material completo, em formato americano original e sem cortes ou intervenções, permitindo que os leitores brasileiros apreciassem a obra como concebida.
Em resumo, a passagem de John Byrne no Hulk é um “what if” fascinante da Marvel dos anos 1980: brilhante em ambição e arte, prejudicada pela brevidade e por conflitos editoriais, mas ainda assim impactante o suficiente para deixar uma marca duradoura na vida do Gigante Verde. Uma leitura recomendada para quem quer entender as raízes de muitas dinâmicas modernas do casal Banner/Ross e do conceito de separação entre o cientista e seu alter ego.
Infelizmente a saída abrupta de Byrne gerou um problema que caiu em mãos muito menos competentes, e falaremos disso no próximo artigo dessa série destinada ao Golias esmeralda, não percam!
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻