LETRAS & CENAS | 1984 DE GEORGE ORWELL

Adilson Santos

Vivemos uma realidade distopica que em varias circunstâncias lembra o mundo que encontramos nas páginas de 1984, de George  Orwell. Vigilância constante, censura a pensamentos e discursos, negativismo histórico, poder político suplantando liberdades individuais. Tudo isso já era preconizado pelo autor inglês, que publicou a obra que se tornou a mãe das distopias literárias três anos após o fim da Segunda Guerra, invertendo os dígitos finais de 1948 para 1984. A história se passa na ficticia Oceânia, um superestado totalitário controlado pelo “Partido” e liderado pelo “Grande Irmão”. A obra acompanha Winston Smith, um homem que trabalha alterando o passado para atender às ordens do governo, enquanto arrisca a própria vida para manter sua liberdade e individualidade. Winston se apaixona por Julia, outra funcionária do Ministério da Verdade, que odeia o estado das coisas. Manipulados pelo Partido, Winston e Julia sao capturados e torturados para aceitar o Grande Irmão como único amor verdadeiro.

As adaptações de 1984 para o cinema alteram significativamente a relação entre os personagens, a dinâmica temporal e o desfecho da história. Embora o aclamado filme de 1984, dirigido por Michael Radford, seja considerado visualmente fiel, ele acelera a narrativa, altera as formas de tratamento e suaviza a submissão final do protagonista. No livro, os membros do Partido devem se chamar de “camarada” (comrade) para enfatizar a impessoalidade, o distanciamento e a igualdade superficial imposta pelo sistema. No filme, os personagens frequentemente se chamam de “irmão” e “sister”. Na obra literária original, o desenvolvimento da rebelião de Winston (John Hurt)  e seu romance com Julia (Susanna Hamilton) se estendem por um longo período. Na versão cinematográfica, a relação entre os dois é acelerada, passando uma sensação de que os eventos são apressados.  No livro de Orwell, após passar pela intensa tortura e lavagem cerebral no Ministério do Amor, Winston senta-se no Café do Castelo, derrotado, e chora enquanto contempla um retrato do “Grande Irmão” — mas o faz com um sentimento genuíno de amor e submissão pelo líder. Na versão cinematográfica, a cena final indica que a visão do Grande Irmão desperta um sentimento de vergonha ou arrependimento em Winston.  No livro, a execução de Winston na “Sala 101” não é mostrada, mas fica implícita a sua morte após ele aprender a amar o Grande Irmão. O filme sugere que Winston é mantido vivo, confessa seus crimes publicamente e parece demonstrar tristeza antes do filme terminar.  Quando Winston é torturado e interrogado por O’Brien, a clássica frase “Eu os traí” (“I betrayed you”) dita no livro é alterada no filme para “Eu contei a eles sobre você” (“I told them about you”).

A primeira adaptação do livro, de 1956 muda o final de forma ainda mais drástica: em vez de sofrer a lavagem cerebral e se render mentalmente ao Partido, Winston (Edmund O’Brian)  e Julia  (Jan Sterling) ão fuzilados por se recusarem a trair um ao outro. Sonia Orwell, viúva do autor, detestou a mudança e declarou publicamente que o filme deveria ser arquivado. Embora o livro já esteja em domínio público, podendo ser publicado por diversas editoras, a obra chegou ao Brasil pela primeira vez ainda na década de 50 pela Editora Globo, sendo mais tarde reproduzido pela Companhia das Letras e Editora Antrofagica. O livro segue como uma das principais obras a nos alertar sobre o perigo do autoritarismo e da necessidade de resistimos para que o futuro proximo nao se torne real, mais do que ja se prenuncia.

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