A SAGA ROCKY 50 ANOS | ROCKY UM LUTADOR

Adilson Santos

Eu tinha 15 anos quando Rocky – Um Lutador foi exibido pela primeira vez na Tv brasileira, pela Rede Globo. Era final de 1984 e haviam passado oito anos desde seu lançamento original nos cinemas norte-americanos, sendo que no Brasil o filme só chegou a nossas telas em 7 de Janeiro de 1977. Minha geração gritava “ROCKY!”  como se fosse uma luta real e nem imaginávamos do incrível paralelo entre criador e criatura. Stallone era Rocky e Rocky era Stallone, então aos trinta anos vindo de passagens inexpressivas no cinema: Pontas não creditadas em filmes como Bananas (1971) de Woody Allen, e Klute – O Passado Condena de Alan J.Pakula (1971) e até um filme pornô no currículo, O Garanhão Italiano (The Italian Stallion) de 1970. Quando Sylvester Gardenzio Stallone assistiu na TV a uma luta entre o campeão Muhammmed Ali e Chuck Wepner, em Março de 1975, ficou impressionado com a resistência do desfavorecido Wepner contra o favorito Ali, um embate que todos apostavam não duraria além do segundo round. Wepner levou a luta até o 15º round e chegou a nocautear Ali no 9º, e embora este tenha ganhado os pontos necessários, Wepner sobressaiu-se moralmente contra todas as apostas. Foi essa característica que Sly dramatizou e fundiu a sua própria história, um homem simples, de descendência italiana, teve infância problemática e foi limitado em sua expressão facial por uma paralisia no lado inferior esquerdo de seu rosto devido a complicações no parto. Stallone precisou vender seu cachorro por não ter condições de alimentá-lo e tendo praticamente dinheiro nenhum, escreveu o roteiro de Rocky e saiu batendo de porta em porta, recebendo a proposta de US$ 125,000 que o estúdio pretendia filmar com Ryan O’Neal (Love Story) ou Robert Redford (Butch Cassidy). Sly recusou e condicionou a venda de seu roteiro a tê-lo como o protagonista. Os produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff conseguiram um acordo no qual o estúdio pagaria US$35,000 e Stallone ficaria com a chance de interpretar seu personagem, sem contudo ser pago como ator. O orçamento de ‘1 milhão foi cedido com a condição de que se o ultrapassasse os produtores usariam recursos próprios para terminá-lo. No final das contas, estes tiveram que hipotecar suas casas para complementar o custo que totalizou, 1.1 milhão de dólares. O resultado foi uma bilheteria milionário resultado de uma identificação do público da era Watergate com a mensagem de um pugilista desacreditado que chega ao sucesso por acreditar em si próprio. Na cerimônia do Oscar de 1977, a Academia reconheceu e entre 10 indicações ganhou 3 : melhor filme, diretor para John G.Avildsen e melhor edição.

O filme também foi um triunfo técnico sendo o primeiro filme a utilizar a steadicam (câmera acoplada ao corpo do operador ligado a um sistema de rolamentos que a estabiliza durante o movimento desta sem que haja tremidas) como na sequência de Rocky correndo pelas ruas do mercado e segue em direção a escadaria do Museu de Arte da Filadelfia ao som da contagiante Gonna Fly Now, do compositor italiano Bill Conti. O papel de Audrey, a namorada do herói quase ficou com a atriz Bette Midler, mas foi eternizado por Talia Shire, irmã do diretor Francis Ford Coppola.  Já Mickey, o treinador de Rocky, seria interpretado por Lee Strasberg, o fundador do renomado Actor’s Studio. No entanto, o estúdio não conseguiu contratá-lo e o papel ficou com o veterano Burguess Meredith (o Pinguim do clássico seriado Batman). O filme de Avildsen foi o primeiro filme sobre esportes a ganhar o Oscar, alem de indicações ao BAFTA e premiação no GLOBO DE OURO. Desde então, o filme de Stallone ganhou 5 sequências: Rocky II – A Revanche (1979), Rocky III – Desafio Supremo (1982), Rocky IV (1985), Rocky V (1990) e Rocky Balboa (2006), além do spin-off Creed – Nascido Para Lutar (2016), que teve as sequências Creed II (2018) e Creed III (2023), estrelados por Michael B. Jordan no papel do filho de Apollo.

A propósito, Butkus, o cão de Rocky, visto no primeiro filme é aquele cão que pertencia ao ator e que ele vendera antes da fama. Assim que vendeu o roteiro, Stallone o comprou de volta e o colocou em cena. Na cena romântica em que Adrian patina no gelo ao lado de Rocky, este não patina porque o ator não sabia. E o primeiro beijo dos dois na casa de Rocky foi dado com a atriz Talia Shire extremamente resfriada. Sua hesitação em cena era para evitar que Sly contraísse o resfriado, o que deu à cena a dimensão exata da personalidade retraída da personagem. Aliás, em análise, os personagens Rocky, Adrian, Mickey e Polly são azarões, rejeitados pela sociedade representada pelo abastado e bem sucedido Apollo, vulgo “o doutrinador”. Vitória e derrota, luta e sucesso são todos nuances de uma vida refletida em cada minuto dos 120 dessa belíssima história, um paralelo entre ator e personagem que contagia quem assiste hoje, quarenta anos depois e nos invade com a vontade de sair por ai ao som do tema de Bill Conti. Bom, ao menos eu me sinto com essa vontade.

NO SÁBADO NÃO PERCA O ARTIGO SEGUINTE COM ROCKY II – A REVANCHE

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