Leandro Banner

Poucos artistas conseguiram transformar o erotismo em linguagem artística com a elegância, o humor e a sofisticação do sensacional Milo Manara. Em GULLIVERA, publicada originalmente em 1996 pela Les Humanoïdes Associés com o título GULLIVERIANA, o mestre italiano demonstra mais uma vez sua habilidade de reinterpretar obras clássicas sem destruir sua essência, mas acrescentando um ingrediente que se tornou sua marca registrada: a sensualidade. O resultado é uma divertida, irreverente e extremamente bem desenhada versão erótica de AS VIAGENS DE GULLIVER, de Jonathan Swift. A premissa é simples e genial. Em vez do famoso náufrago inglês, quem protagoniza a aventura é Gullivera, uma bela jovem que, após um naufrágio, desperta em terras desconhecidas e passa a viver situações tão absurdas quanto provocantes. Assim como na obra de Swift, a protagonista encontra povos de tamanhos e costumes completamente diferentes, permitindo que Manara faça uma sátira de comportamentos humanos, da moralidade e, naturalmente, das relações entre homens e mulheres. Mas ninguém deve esperar uma adaptação fiel ao clássico da literatura inglesa. Manara claramente se utiliza da estrutura narrativa de Swift apenas como ponto de partida para brincar com as situações. Onde o escritor irlandês fazia crítica política e social através da fantasia, Manara adiciona um humor malicioso que transforma praticamente cada encontro da protagonista numa situação de sedução, desejo ou constrangimento deliciosamente absurdo.

E aí reside uma das maiores virtudes da obra. GULLIVERA nunca parece vulgar porque é uma HQ que compreende perfeitamente que o erotismo também pode ser engraçado(uma percepção ausente em algumas outras produções em função de um certo preconceito; certamente não é o momento de entrarmos nesse mérito, mas quem sabe em alguma outra oportunidade…? Há momentos em que o leitor quase imagina Jonathan Swift observando tudo de longe, balançando a cabeça em desaprovação… até perceber que a sátira continua ali, apenas muito mais despida — literalmente. Como acontece em praticamente toda a produção autoral de Manara, o verdadeiro espetáculo está na arte. Seu domínio da anatomia feminina é impressionante. É possível perceber em cada página um refinamento técnico raro: linhas elegantes, composição de página dinâmica, expressões faciais cheias de personalidade, sentimentos, lascívia e uma narrativa visual extremamente fluida. Manara desenha corpos com uma naturalidade que poucos artistas alcançaram, sem abrir mão da leveza e da sofisticação. Seu traço permanece limpo, delicado e incrivelmente expressivo, conduzindo a leitura com a mesma facilidade de quem folheia um livro de ilustrações.

Além da beleza das personagens, os cenários também recebem enorme atenção. Cada ambiente ajuda a construir o clima fantástico da aventura, alternando momentos de humor, fantasia e sensualidade sem que a narrativa perca o ritmo. É uma história curta, mas extremamente eficiente, que se lê rapidamente e deixa aquela sensação de que Manara poderia adaptar praticamente qualquer clássico da literatura — embora algumas bibliotecas talvez precisassem instalar um aviso de “conteúdo para adultos” ou “proibido para menores de 18 anos”. No Brasil, GULLIVERA teve sua primeira publicação em 1997, na revista Heavy Metal Brasil #11, sendo posteriormente republicada em álbum pela Pixel Media em 2006. Desde então, permaneceu durante muitos anos fora de catálogo, tornando-se um título bastante procurado pelos admiradores do artista. Essa ausência, felizmente, está chegando ao fim, pois a Tábula Editora lançou uma campanha no Catarse que traz Gullivera de volta ao mercado brasileiro em uma edição especial baseada na versão comemorativa francesa dos 30 anos, publicada pela Humanoids em 2022. A campanha também inclui A METAMORFOSE DE LUCIUS, outra excelente releitura literária realizada por Manara. As duas obras serão publicadas em formato ampliado, com impressão colorida em papel couché fosco e diversos brindes condicionados às metas da campanha. A previsão de entrega é para setembro de 2026. Para quem aprecia a obra de Milo Manara, GULLIVERA continua sendo uma das melhores demonstrações de como erotismo, humor e arte podem coexistir em perfeita harmonia. É uma HQ divertida, espirituosa e visualmente deslumbrante, capaz de arrancar sorrisos tanto pela irreverência das situações quanto pela excelência gráfica de um dos maiores desenhistas da história dos quadrinhos europeus. E este escriba, de forma muito afortunada e com a ajuda de uma pessoa muito especial, ainda conseguiu um autógrafo do mestre italiano num exemplar de GULLIVERA da Pixel Media na Rio Comicon, ocorrida em 2010 na Estação da Leopoldina, no Rio de Janeiro. No fim das contas, Jonathan Swift escreveu uma grande sátira da condição humana. Milo Manara apenas respondeu, décadas depois, com um sorriso maroto, um lápis afiadíssimo e a convicção de que, às vezes, uma viagem fantástica pode ficar ainda mais interessante quando a protagonista resolve abandonar parte da bagagem… inclusive as roupas.😉😂
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻