A SAGA ROCKY 50 ANOS | CREED 2

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 2018 sob a direção de Steven Caple Jr., Creed II assume a complexa missão de consolidar a identidade de uma nova franquia sem desamparar a rica mitologia que a originou. Mais do que uma simples continuação esportiva sobre a manutenção de um cinturão de boxe, o longa-metragem se constrói como um denso drama psicológico sobre o peso da herança familiar. Ao resgatar e reescrever os eventos trágicos de Rocky IV (1985), a obra transcende o espetáculo físico para investigar o corpo humano como um repositório de traumas, em um cenário onde o ringue deixa de ser um palco de disputas geopolíticas e passa a funcionar como um tribunal existencial e emocional.
A estrutura narrativa do filme estabelece-se a partir de uma colisão inevitável entre duas famílias marcadas pela tragédia. No ápice de sua carreira profissional, recém-coroado campeão mundial dos pesos-pesados sob a tutela de Rocky Balboa (Sylvester Stallone), Adonis Creed (Michael B. Jordan) é confrontado pelo fantasma de seu pai, Apollo Creed. O desafio surge na figura de Viktor Drago (Florian Munteanu), uma máquina de combate moldada pelo ressentimento de seu pai, Ivan Drago (Dolph Lundgren), o homem que tirou a vida de Apollo nos ringues trinta e três anos antes. Essa premissa divide o roteiro em duas fases distintas: a derrocada inicial de Adonis, movido pelo orgulho ferido e pelo trauma não digerido, e a subsequente jornada de reconstrução física e psicológica que culmina na revanche em solo russo.
O motor temático que impulsiona essa narrativa é a dialética entre o legado e os fantasmas do passado. Creed II argumenta que os erros e as glórias das gerações anteriores atuam como forças gravitacionais das quais os filhos mal conseguem escapar. Adonis não luta apenas contra Viktor; mas contra a sombra de um pai que nunca conheceu, tentando validar a própria existência através de uma vingança anacrônica. Paralelamente, Rocky Balboa vive em um estado de luto perpétuo e isolamento, paralisado pela culpa de não ter interrompido a luta que vitimou seu melhor amigo. Do outro lado do espectro, Viktor Drago carrega o fardo do ostracismo econômico e social imposto a seu pai após a derrota para Rocky em 1985, tornando-se o instrumento físico de uma redenção familiar que ele próprio não escolheu buscar.
Essa configuração permite que o roteiro opere uma profunda desconstrução e reescrita de Rocky IV. Se o filme de 1985 era uma peça de propaganda ufanista da Guerra Fria, que retratava Ivan Drago como uma máquina imbatível da União Soviética; o olhar contemporâneo de Creed II humaniza os antagonistas de forma melancólica. Os Drago são apresentados como sobreviventes abandonados pelo próprio sistema político que outrora os glorificou. A frieza de Ivan revela-se como o desespero de um pai falido que projeta no filho a única chance de reabilitação social, enquanto a opulência e os privilégios americanos de Adonis são visualmente contrapostos à miséria industrial e ao isolamento geográfico em que Viktor foi criado na Ucrânia, conferindo complexidade moral ao embate.
Nesse cenário de privações e cobranças, o longa-metragem coloca em xeque as noções tradicionais de paternidade e masculinidade. A masculinidade em Creed II deixa de ser medida pela infalibilidade ou pela imposição da força bruta, passando a ser definida pela vulnerabilidade e pela capacidade de cuidado mútuo. O filme contrasta diretamente os modelos paternos em tela: a relação abusiva e utilitarista de Ivan com Viktor, baseada na cobrança extrema, colide com a paternidade afetiva, porém temerosa, que Rocky oferece a Adonis. Contudo, a verdadeira maturidade emocional de Adonis se consolida apenas com o nascimento de sua filha, Amara. Ao descobrir que a bebê herdou a deficiência auditiva progressiva da mãe, Bianca (Tessa Thompson), o lutador é forçado a abandonar o egocentrismo do guerreiro solitário e compreender que sua integridade física pertence, agora, ao futuro de sua nova família.
Essa transição dramática é traduzida esteticamente pela mudança de direção de Ryan Coogler para Steven Caple Jr. Enquanto Coogler imprimiu no primeiro Creed (2015) uma assinatura vibrante, pautada por planos-sequência virtuosos e pela energia pulsante da cultura hip-hop urbana, Caple Jr. adota um classicismo melancólico. Sua câmera prioriza planos mais fechados e intimistas, focados nas texturas do suor, do sangue e das expressões de esgotamento. Embora as coreografias das lutas percam o dinamismo quase teatral de outrora, elas ganham em brutalidade crua. O diretor transforma o corpo do atleta em uma moeda de troca preciosa e destrutível. Nas icônicas sequências de treinamento no deserto do Arizona, o corpo de Adonis é intencionalmente quebrado e castigado para ser reconstruído do zero, despindo o boxe de qualquer glamour e expondo o custo real do esporte.
Toda essa carga física deságua em uma revisão das dinâmicas de política, nacionalismo e perdão. O longa esvazia deliberadamente qualquer resquício de nacionalismo patriótico. No ringue moderno, a Rússia e os Estados Unidos não duelam por supremacia geopolítica; o espaço foi completamente mercantilizado pelo espetáculo midiático. Os oligarcas russos que aplaudem Viktor Drago são os mesmos que o vaiam e o abandonam assim que o destino da luta se inverte. O ápice do filme, portanto, rejeita o nocaute devastador em favor de um gesto de misericórdia: ao ver o filho ser castigado severamente, Ivan Drago joga a toalha branca, sacrificando seu orgulho histórico para salvar a vida de Viktor. É o amor paterno, e não a vitória esportiva, que quebra o ciclo vicioso de ódio e destruição mútua.

Ficha Técnica: Creed II (2018)

Produção

  • Título Original: Creed II
  • Título no Brasil: Creed II
  • Direção: Steven Caple Jr.
  • Roteiro: Sylvester Stallone, Juel Taylor
  • História: Sascha Penn, Cheo Hodari Coker, Sylvester Stallone
  • Personagens: Baseados em Rocky criados por Sylvester Stallone
  • Produção: Irwin Winkler, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Kevin King Templeton, Sylvester Stallone
  • Estúdio/Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer / Warner Bros. Pictures
  • País: Estados Unidos
  • Idioma Original: Inglês e Russo
  • Duração: 130 minutos
    Elenco Principal
  • Michael B. Jordan – Adonis “Donnie” Creed
  • Sylvester Stallone – Rocky Balboa
  • Tessa Thompson – Bianca
  • Dolph Lundgren – Ivan Drago
  • Florian Munteanu – Viktor Drago
  • Phylicia Rashad – Mary Anne Creed
  • Wood Harris – Tony “Little Duke” Burton

Equipe Técnica

  • Fotografia: Kramer Morgenthau
  • Montagem: Dana E. Glauberman, Sears
  • Direção de Arte: Jahn A. Sood
  • Figurino: Leah Butler
  • Trilha Sonora: Ludwig Göransson | Temas: “Mountains”, “Gonna Fly Now”
  • Canção Tema: “Kill Em With Success” – Nipsey Hussle

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