Adilson Santos


Em agosto de 1982, a publicação da autobiografia de Marcelo Rubens Paiva, comoveu o Brasil. Nela, um jovem universitário, que num tolo acidente fica irremediavelmente paralítico, faz o balanço de sua vida, seus sonhos e suas perspectivas. O título Feliz Ano Velho remete a um passado mais feliz, mas cria uma aura de otimismo percebida a medida que a narrativa segue o caminho da superação. Marcelo, autor de Ainda Estou Aqui (2024), tornou-se O autor, Marcelo Rubens Paiva, porta voz de toda uma geração. Se o autor teve o pai, em pessoa, seqüestrado e morto pelos órgãos de repressão do regime militar — o deputado Rubens Paiva, trabalhista, “desapareceu” no dia 21 de janeiro de 1971, aos 41 anos de idade —, milhares e milhares de outros jovens tiveram suas referências políticas e seus inspiradores culturais sumidos dentro de um passado obscuro e truculento. Fossem os livros ou canções proibidos, fossem os intelectuais e artistas exilados, os adolescentes dos anos 70 eram todos órfãos, de um jeito ou de outro. Órfãos por obra e graça de um violento estilo de organizar um país. Dirigida por Paulo Betti e estrelada por Marcos Frota e Marcos Kaloy, a adaptação teatral rodou o Brasil todo, além de Nova York, Cuba, México e Porto Rico, somando mais de mil apresentações para mais de um milhão de espectadores. No cinema a direção coube a Roberto Gervitz, em seu primeiro trabalho , O personagem Mário (o Marcelo do livro, interpretado por Marcos Breda) vai recompondo o seu passado na proporção em que se recupera emocionalmente de seu trauma físico e psíquico, conversando com a fisioterapeuta Gisela (Isabel Ribeiro) e com seu colega de tratamento Beto (Marco Nanini). O filme ainda traz Eva Wilma como Lúcia que incorpora a alma de Eunice Paiva, a mãe do protagonista, vivida por Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui (2024). Malu Mader faz dois papeis a bailarina Ângela, que Mario conhece depois do acidente, mas que vive uma vida dupla como uma militante do movimento estudantil que Mário namorou nos seus tempos gloriosos. Mas as duas são a mesma: em Ângela, a bailarina, Mário projeta a imagem de Ana, a militante. Com Ângela, ele realiza um amor descomprometido e belo, como forma de redenção do final traumático de sua relação com Ana. As duas são vividas, coerentemente, pela mesma atriz, Malu Mader. O espectador, cúmplice de Mário, não saberá qual das duas é mais encantadora. Malu Mader faz uma homenagem ao público com sua atuação indelével. Impossível não amá-la. Na pele de Ana ela é ágil, articulada, decidida e, nua, é tão espontânea quanto a vida. Dentro da elegância produzida de Ângela, ela é uma espécie de miragem, uma alucinação graciosa. Um filme vigoroso, que merece ser redescoberta pelo público. Disponivel na Globoplay.