HQ TERRITÓRIO NEUTRO | O ETERNAUTA #1 : QUANDO A NEVE MATA, E A HQ SOBREVIVE

LEANDRO BANNER

Há quadrinhos que chegam às bancas; outros chegam praticamente escoltados por uma aura de acontecimento histórico. O ETERNAUTA #1, da Editora Pipoca & Nanquim, lançado em novembro de 2024, pertence à segunda categoria. E a editora parece saber muito bem o tamanho do pepino que resolveu colocar em nossas mãos — literalmente. 😬 A edição é apresentada com uma luva protetora, acabamento caprichado que não apenas valoriza o objeto como também ajuda a transformar a publicação em item de colecionador. É o tipo de cuidado editorial que faz o leitor pensar duas vezes antes de abrir a embalagem… e aproximadamente três segundos depois lembrar que comprou a HQ justamente para lê-la.😉 E vale a pena abrir. Publicado originalmente na Argentina a partir de 1957, na revista Hora Cero Suplemento Semanal #1-24 da Editorial Frontera, O Eternauta, com roteiro de Héctor Germán Oesterheld e desenhos de Francisco Solano López, tornou-se uma das obras fundamentais dos quadrinhos argentinos e latino-americanos. E isso não acontece simplesmente porque existe uma invasão extraterrestre, uma misteriosa neve mortal e um grupo de sobreviventes tentando entender o que diabos está acontecendo. A grandeza da obra está justamente na maneira como uma premissa de ficção científica aparentemente convencional vai ganhando camadas de tensão, paranoia, solidariedade e reflexão sobre o comportamento humano diante de uma situação extrema.A história começa de maneira quase doméstica, com uma situação aparentemente banal, até que a queda de uma estranha neve sobre Buenos Aires transforma rapidamente a rotina em pesadelo. O que poderia ser apenas mais uma história de invasão alienígena — gênero que já estava bastante popular na época — ganha uma dimensão muito mais angustiante porque o inimigo não é imediatamente compreensível. Não há um sujeito de capa preta chegando para explicar seu plano maligno na página 17. 🫪 Há silêncio, morte e uma ameaça que parece estar em toda parte. E é aí que O Eternauta começa a funcionar muito bem. O roteiro de Oesterheld talvez não seja um primor de sofisticação narrativa pelos padrões atuais. Há momentos em que os diálogos são demasiadamente expositivos, determinadas situações são conduzidas de maneira um tanto direta e algumas soluções pertencem claramente à linguagem dos quadrinhos de aventura de sua época. Mas exigir de uma obra de 1957 a estrutura narrativa de um thriller contemporâneo seria como reclamar que um Fusca não possui piloto automático. O que importa é que o roteiro funciona.👍🏻 E funciona muito bem.

Oesterheld constrói uma atmosfera progressivamente claustrofóbica. A ameaça cresce aos poucos, os personagens precisam improvisar para sobreviver e o leitor vai descobrindo as regras daquele novo mundo junto com eles. A tensão nasce justamente da falta de informações. Quanto menos se sabe, maior é o medo. E existe ainda uma dimensão política inevitável atrelada à história. A obra foi concebida na Argentina de meados dos anos 1950, período marcado por forte instabilidade política no país, e sua leitura posterior acabou inevitavelmente contaminada pelo destino trágico do próprio Oesterheld. Anos depois, durante a ditadura militar argentina, o roteirista seria sequestrado e desapareceria, tornando-se um dos tantos desaparecidos políticos daquele período. Suas quatro filhas também foram vítimas da repressão. É impossível, portanto, separar completamente O Eternauta da infeliz trajetória de seu criador. A ideia de uma coletividade enfrentando uma ameaça opressora, a resistência, a sobrevivência e a importância da união entre indivíduos ganha, retrospectivamente, uma força política que talvez nem estivesse totalmente explícita na concepção original da obra. Isso, porém, não significa que seja necessário transformar cada página da HQ em um panfleto de proselitismo político.

E aqui entra uma pequena ressalva em relação à edição da Pipoca & Nanquim (e uma observação puramente pessoal): o prefácio é desnecessariamente enviesado, ainda que de maneira relativamente sutil. O contexto histórico e político é absolutamente pertinente — e seria um erro grave ignorá-lo —, mas existe uma diferença entre contextualizar uma obra e praticamente conduzir o leitor pela mão até a interpretação que ele deveria fazer dela. O leitor de quadrinhos, felizmente, ainda consegue pensar sozinho. Às vezes, inclusive, pensa demais.😉😉 Felizmente, depois do prefácio, quem realmente assume o protagonismo é a própria obra.😁 E que obra visualmente impressionante!👏🏻 Francisco Solano López entrega uma arte extraordinária, especialmente quando consideramos a época em que essas páginas foram produzidas. Seu desenho é extremamente detalhado, preciso e meticuloso, com uma impressionante capacidade de construir ambientes, personagens, veículos e cenas de ação. Há uma preocupação quase obsessiva com a textura e com a definição dos elementos da cena. O estilo remete diretamente à grande tradição da ilustração clássica dos quadrinhos americanos, com ecos evidentes de mestres como Alex Raymond. A influência não significa falta de personalidade; pelo contrário. Solano López absorve aquela tradição de desenho realista, composição cuidadosa e acabamento minucioso e a utiliza para construir uma Buenos Aires reconhecível que, aos poucos, vai sendo transformada em cenário de uma verdadeira tragédia de ficção científica. E talvez seja justamente isso que torne sua arte tão eficiente.

Quando a catástrofe começa, não estamos diante de um mundo genérico inventado para a ocasião. Estamos diante de Buenos Aires. Ruas, casas, prédios e espaços urbanos reconhecíveis são convertidos em território de sobrevivência. O fantástico invade o cotidiano, e o contraste torna tudo muito mais perturbador. Os personagens também possuem uma fisicalidade convincente. Não são bonecos posando para a câmera; são pessoas tentando sobreviver. Equipamentos improvisados, roupas de proteção, armas, veículos e estruturas defensivas recebem o mesmo cuidado que os próprios protagonistas. Solano López entende que, em uma história de sobrevivência, o cenário não é decoração: ele participa da narrativa. E a Pipoca & Nanquim faz justiça a esse trabalho. A obra, que estava esgotada no mercado nacional há tempos, retorna numa edição com uma excelente qualidade gráfica, acabamento cuidadoso e um projeto que valoriza o lançamento. A luva protetora é um detalhe particularmente feliz, tanto pela proteção física quanto pela sensação de que estamos diante de uma publicação verdadeiramente especial. É uma edição que combina muito bem com a proposta de recuperar um clássico de tamanha importância. Mas o maior mérito de O Eternauta continua sendo sua capacidade de permanecer interessante décadas depois de sua criação. Porque, no fundo, a história não depende apenas dos extraterrestres, dos mistérios ou da neve mortal. Ela fala sobre como as pessoas reagem quando todas as certezas desaparecem. Alguns colaboram, outros entram em pânico, outros tentam compreender o inimigo, e outros simplesmente fazem o que precisam fazer para continuar vivos. E existe uma ideia particularmente poderosa atravessando a narrativa: ninguém sobrevive completamente sozinho, talvez no melhor sentido do aforismo “a união faz a força”. Talvez seja justamente aí que esteja a força duradoura de Oesterheld. A ficção científica serve como embalagem, mas dentro dela existe uma história essencialmente humana. O apocalipse pode chegar em forma de invasão alienígena, guerra, desastre ou qualquer outra desgraça que a humanidade consiga inventar — e, considerando nossa criatividade nesse departamento, opções certamente não faltam.😖 O Eternauta #1 é, portanto, uma excelente oportunidade para conhecer — ou reencontrar — um dos grandes clássicos dos quadrinhos argentinos. A história possui algumas características próprias de sua época, mas continua tensa, envolvente e surpreendentemente atual. A arte de Solano López é um espetáculo à parte, enquanto a edição da Pipoca & Nanquim demonstra o cuidado editorial que um clássico dessa importância merece. Não é uma HQ perfeita. Nem precisa ser. É uma obra histórica, visualmente belíssima, narrativamente eficiente e carregada de significados que foram se acumulando ao longo das décadas. E talvez essa seja a melhor definição para O Eternauta: uma história sobre o fim do mundo que, ironicamente, conseguiu sobreviver muito bem ao seu próprio tempo.😬 Agora é colocar a luva protetora de volta na edição, olhar para a estante e torcer para que a misteriosa neve mortal fique restrita às páginas. Porque aqui no Brasil já temos problemas suficientes sem precisar acrescentar uma invasão alienígena ao orçamento.😝😝

Avaliação: 3/5

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

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